Meu amor não é um pronome possessivo
Diego Orge
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Amor Líquido

O amor é líquido, como diz Bauman, mas não pelas razões explicitadas desacreditando da fluidez profunda(como se a busca por profundidade valesse de alguma coisa). Amor não é um lago para ser raso ou profundo. O amor não está na natureza. Ele é a própria natureza viva das coisas. Quando um conjunto de moléculas tornaram-se complexas o suficiente, nasceu a vida nos aminoácidos. É a reprodutibilidade, o movimento. Por um lado, tudo é vivo. Se algo está parado diante dos nossos olhos, são os olhos que não enxergam além da incapacidade humana, maníaca e metódica. Mas, vivo de fato é aquilo que reproduz.

Por milênios fomos atormentados por visões impuras sobre a continuidade da vida em prol de outro cosmos, que em todo caso ainda nos é inexistente enquanto respiramos. A morte é uma mentira. A única verdade que conhecemos é a vida e o momento em que ela cessa. De morte entenderemos depois de morrê-la. Aqui ataco sem dar nome aos bois, mas os bois se reconhecem nas minhas palavras. Promessas do além, paraíso, setenta virgens e reencarnações são apenas mitologia em sua função primária: centrar a visão humana das coisas. A moral das histórias sem graça. Devemos exercer o caminho do meio, como diz a estupidez grega, e alcançar outro tipo de paraíso, o mundo das ideias. Imbecilizante e limitante cabeça a controlar a nossa conduta em vida. Sejamos comedidos, não vivamos tanto! Limite o prazer e ache sujo o sexo. Principalmente as moças. É feio tocar aí, menina! Veja como é engraçado ele pegar no pintinho.

O sexo é o mais belo das coisas. Este sim é o amor líquido de fato. Quando das suas entranhas saem o suor e saliva e o gozo, os urros de existência. Dois corpos que se reconhecem como reais e presentes num mundo demente por conceitos e rótulos. Já se passou um longo tempo para ainda vivermos sob influência de dois milênios institucionais da empresa mais antiga do mundo, mais velha que o lucro. Imagine que vivemos numa outra era! Não importa se de Peixes ou de Aquários, profetas e signos não irão faltar para tentar nos reger o caminho. O caminho, porém, é o sexo. Não o mero ato por reprodução, mas a reprodução do ato em si, a continuidade da união, o entendimento do olho do outro, a confusão de cheiros e de cabelos, o ardor por existir.