Janelas indiscretas

Vejo da janela do apartamento de uma distância que somente a luz percorre tão rapidamente quanto o pensamento. Olhos negros. Mas não os vejo realmente. Vejo apenas salas amareladas, banheiros e pessoas que desconheço. Fazemos viagens no tempo sempre que olhamos as estrelas, pois o que vemos hoje já pode nem existir mais, não reflete o presente, mas o passado. É bem provável que estejamos, portanto, vendo apenas fantasmas celestes. Vi isto num documentário e lembrava agora enquanto assistia o meu passado à frente. Nem era ela, a mulher que via!
Cada uma dessas luzes acesas tinham uma história brevemente iluminada. Como o farol da atenção descrito pelos grandes filósofos. É muita vaidade do escritor achar que dá vida a algo. A prova da desimportância do olhar poético sobre o mundo. Estavam ali pessoas diversas existindo sem meu aval, indo tomar banho depois do trabalho, jantando e bebendo com amigos, um sujeito cabeludo tocando violão na varanda. Quase todos os apartamentos, com a TV ligada num mesmo canal, afinal, por mais que encaixe aqui detalhes da imaginação, estamos inegavelmente presos às idiossincrasias do meu Brasil. Mesma luz azul de jornal, mesma opinião elitista na escolha dos fatos contados, mesma visão mercadológica e funcional de uma sociedade mecânica. E aqui vou eu novamente desatando a pensar livremente, como se estivesse sozinho. Não, falo aqui para um leitor. Leitora. Não posso me dar ao luxo de me perder em aforismos.
Querida leitora, a do adeus:
Sim, todos dizemos adeus. A vida é um contínuo despedir-se. Da infância, adolescência, do primeiro amor e do último. Dos planos! E este último, meus amigos, são os mais abundantes. Os planos que temos com as pessoas ou que fazemos sozinhos e não se concretizam. Viram pó, das estrelas. Esse pó fino que enxergamos nos raios de sol flutuando perdidos. Creio que viajam numa velocidade menor que a da luz, mas sempre chegam noutro lugar e pairam numa dessas janelas alheias. Então, vejo nessas vidas aleatórias os filhos que não fiz, a mulher que não casei, a empresa que não abri. A morte em seu passo curto e imprevisível.
Vivemos todos em caixas e nelas morremos. Apartamentos, carros, cubículos de escritório e, por fim, a caixa por excelência: O caixão. Morrem as pessoas e ficam os conceitos, as palavras. Quantos planos dormem o sono dos justos sobre os túmulos nos cemitérios? Quantos jantares marcados, quantas viagens, quanto trabalho acumulado para o dia seguinte? A escova de dentes deixada para trás?
Vejo da janela todo o meu passado. Vejo em cada apartamento uma mulher que partiu da minha vida em busca de paz, em busca de estabilidade. Em busca de família, de alguém melhor. Certamente, se buscavam isto em mim, buscavam erradamente. Em minha ingenuidade tardia, achava que relacionamentos eram buscas conjuntas, mas sempre há as pressões da família e do trabalho. O lado mais fraco sempre cede. E o lado mais fraco segue a olhar pela janela.