Machismo eletrônico

Uma caminhonete prata recém-encerada vem se aproximando da cancela com seu ronco ameaçador já adentrando com eco no estacionamento. Põe a mão para fora com um daqueles relógios maiores que o pulso um homem de óculos escuros e cabelos desgrenhados. Aperta o botão e espera pelo cartão, que demora a sair. Olha para o amigo ao lado, meio franzino naqueles bancos largos de couro, mexe raivoso na marcha automática para uma posição menos ruidosa.

Com certo atraso sai uma voz feminina da caixa de som dizendo “Bem-vindo e boas compras”. O jovem olha de novo para a máquina e grita. “Bora, puta. Dá logo essa merda de cartão!” e volta um sorriso vitorioso para o amigo. O dispensador começa a processar a saída do cartão e a voz feminina retorna. “Sinto muito, senhor, mas não será possível deixar o senhor entrar.” Os olhos do rapaz esbugalhados retornam para o amigo, os dois atônitos, e ele fala se desculpando para a máquina “Ô, meu Deus, me desculpe! Eu pensei que era uma voz eletrônica”.

As buzinas atrás intervieram na comunicação, mas o rapaz fez um sinal com o braço malhado para que entendessem e fossem à outra cancela. A voz feminina retornou “Eu sou eletrônica, senhor. Mas isto não é razão para ser destratada. Não sou obrigada. Em plena década de empoderamento feminino!” O rapaz com a camiseta em gola V apertada nos bíceps dá um riso desconfortável e o amigo aponta para a máquina “conversa com ela. É eletrônica mas precisa de rola”. Com a barba por fazer recortada no rosto, o rapaz olha novamente para a interlocutora fictícia e responde com riso no rosto “sinto muito, gatinha. Vamos, me deixa entrar”. Alguns segundos processando a conversa e depois retorna uma voz diferente. “Algum problema, senhor? O senhor quer que eu chame a segurança?” O rosto do rapaz ficou sério. Colocou a marcha na ré e a voz feminina retornou “Alguma coisa errada, senhor? Não vai querer entrar?”

A cancela se abriu. O rapaz estava confuso, finalmente reposicionou a marcha e entrou no estacionamento. Um carro amarelo de seguranças do shopping veio se aproximando e parou diante deles. A Hilux prata é obrigada a parar. Do carro amarelo desce uma mulher em fardamento marrom, mulher alta e de boina. “Senhor, desça do carro, por favor.” Os olhos já esbugalhados do rapaz retornam para o amigo. “Senhor”. Sem olhar para a moça do lado de fora, ele abre a porta do carro, tenta sair meio atrapalhado, mas fica preso pelo cinto. Destrava o cinto esportivo com as mãos nervosas e desce. “Estamos promovendo esta medida educativa em conjunto com a polícia e o shopping para lutar contra o machismo velado de cada dia. Ações tão pequenas e aparentemente inofensivas como falar com uma máquina e desrespeitá-la só por ter uma voz feminina é sintoma desta doença crônica e pandêmica da sociedade brasileira, bem como muitas outras mundo afora. E a comprovação de que o senhor tem este comportamento de forma naturalizada é a mudança de atitude ao ouvir a voz masculina do meu colega, e finalmente encarar o assunto de forma séria.” Ela diz todo este texto com o rosto impassível, como militar. Do lado do carona desce um rapaz também de fardamento marrom, meio franzino e fica em silêncio ao lado da moça. “Chame o seu amigo também, por favor.” Sinaliza para o amigo, chamando-o. O rapaz desce em seguida do carro e se aproxima. “O senhor pode repetir o que disse há pouco?” Os meninos se entreolham. “Eu? Eu não disse nada!” Ela olha fixamente sem alterar em qualquer momento o seu semblante. “O senhor disse que eu precisava de alguma coisa. Repita, por favor”. Ele olha para o chão, engole em seco e fala baixinho “rola”. “Oi? Não escutei. Você pode falar mais alto, por favor?” Ele olha incerto para algum lugar da moça que não o rosto e repete um pouco mais alto. “Ah. Claro. Isso vai resolver a minha vida completamente. Isto me completa, senhor. Você não tem noção de como eu preciso de uma rola na minha vida. Eu não preciso de dinheiro no fim do mês para pagar o aluguel do meu apartamento, nem a escola do meu filho. Eu não preciso de colaboração das pessoas para fazer o meu trabalho mais aprazível, porque mulher não precisa trabalhar. Não precisaria, na verdade, senão tivesse lutado por esses direitos anos atrás. Burrice. Era só de rola que a gente precisava. E o senhor tem justamente a rola que eu preciso não é mesmo?