O cabo de guerra das relações humanas

Há uma teoria em psicologia que trata de cabo de guerra como um experimento muito revelador das dinâmicas sociais. Quando temos uma pessoa de cada lado da corda, a força aplicada é por vezes muito extenuante. Adiciona-se um a cada lado. E, ao contrário do que possa parecer, a tração total não muda muito, pois a divisão do trabalho diminui o esforço individual. Divide-se o peso. Quanto mais se adiciona, mais isto se repete. Isto ocorre mesmo que alguém esteja aplicando uma força maior em comparação aos colegas. O todo segue virtualmente inalterado.

Muitos falam de maturidade. Um estágio a ser alcançado para se tornar verdadeiramente adulto em contraponto a uma infância tardia dos jovens barbados cheios de desejos confusos. Eu não acredito em maturidade. Este conceito de que estamos todos presos à uma árvore e que nos nutrimos dela até tal ponto em que devemos nos desprender, quando já maduros. Ao que, no próximo passo estaremos todos podres. Fora a exatidão da metáfora para o corpo que de fato apodrece, não creio que nossa mente, nossa alma sofra de qualquer desses conceitos perecíveis na vida adulta.

Não gosto desta visão de que há um caminho linear para o crescimento de todos nós. E quem está fora deste, é tido como infantil, ou bobo. Tampouco acredito na eternidade do espírito, porque não vejo nossa vida como transição para um outro mundo mais justo e mais bonito. Um além por onde vagam todas as almas perdidas desta Terra. Não. Vivemos aqui, sem bússolas, sem mapas ou estrelas a guiar nosso caminho noturno e também aqui morremos. Nossa vida é uma noite escura em que não enxergamos sequer um palmo à frente. Temos malmente alguma noção de padrões externos a nós para entender o mundo que nos cerca, mas pouco sabemos do que vai aqui dentro. Não sabemos as regras dos pensamentos.

Diz-se que a maturidade é aceitação, conformidade. Quando temos visões de mundos muito distintas e abrimos mão para um convívio harmonioso e pacífico. Dizem que é melhor se calar à abrir o bico quando temos opiniões divergentes. Dizem que é melhor um relacionamento que lhe traga paz. E muitos de nós pedimos e rezamos para enxergar os sinais de conflitos futuros para desistir enquanto há tempo. Sinais de joguetes, como se houvesse duas classes de pessoas, uma que conscientemente fizesse uso das relações de poder e outras são as boazinhas das histórias, isentas de culpa.

Não há jogo no amor. Há poder. Quer você queira ou não. Quer você entenda ou não. Poder existe independente de vontade. Não é que devamos todos fazer dos nossos relacionamentos tal qual Arte da Guerra, mas a ingenuidade e a ignorância não lhe absolvem de nada. Por exemplo, a ninguém é dado o direito de desconhecer a lei e se declarar ignorante(e por consequência inocente) ao cometer um crime. Do mesmo modo, em diferentes proporções, não entender que há cabos de guerra, vontades de potência, desejos, faltas e pressões em cada ação nossa, não nos salvará de final algum. E não haverá finais felizes. Haverá, certamente, muitos finais, porém. Declarar-se maduro por não fazer joguinhos é atestar inabilidade no relacionar-se e desistência do aprendizado de como lidam as almas humanas. A culpa não está no outro.

“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”, como traduzido para o português.

Daí vem o meu ódio à síndrome do Pequeno Príncipe, de responsabilizar o outro por nossa dependência emocional. A culpa não é das estrelas e dos seus infernos astrais. Da incompatibilidade de Escorpião com Sagitário. A culpa é sua. E meu pai me ensinou que quando assumimos como nossa a culpa, podemos sempre fazer algo a respeito. Quando a empurramos para um terceiro, empurramos a este outro a responsabilidade por nossos corações, dando não só poder, mas total controle sobre nossas vidas. Como se nos eximíssemos de ser agentes em nossas histórias!

Ninguém merece ter a chave dos seus sentimentos. Guarde-a você mesmo, ou deixe a caixa aberta.

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