São João de Shopping

Vou criar uma expressão. São João de Shopping. Tal expressão será usada para dizer que algo é essencialmente falso. Não é que eu seja hipócrita, mas não que não seja. Escrevo rodeado de páginas e café. Dentro de um shopping. Mas venham comigo e vejam só: imaginem que entramos numa caixa. Vá lá, uma caixa climatizada. Uma caixa. Dentro deste mundo do faz de conta passeamos por entre ruas de papel-paralelepípedo, ou simplesmente papelepípedo se me permitirem mais uma invenção; e umas casinhas de isopor. No ar frio do ar-condicionado ouvimos uma bandinha de mentira tocando forró de verdade. Junto da percussão — mas aí há de ter atenção — ouve-se baixinho o tilintar de dinheiro. O preço das comidinhas regionais de uma loja cara de gringo em Salvador, o preço dos minutos de estacionamento. Quase ofuscado pelo grito do triângulo. Tudo uma tentativa de esconder a caixa que guarda este São João de Shopping.