Sexta-feira crônica

“Doutor!” Foi o que disse dia desses num consultório médico. “Mas que doença rara é essa que eu tenho?” Do que ele respondeu com sorriso no rosto. “Uma doença rara chamada sexta-feira crônica.” Pôs as mãos sobre a mesa branca e continuou. “Vou te explicar como é: Para muitos a sexta é o melhor dia da semana. Trabalham esperando o sábado e temem e odeiam os domingos. Ao que, por sua vez, a sua sexta parece durar apenas uma manhã! Quando chega na metade do dia, é que seu domingo começa. Uma pessoa com esta disfunção é como se já contasse pelas páginas dos dias à espera da próxima sexta. Não é mesmo?”

Ao sair do consultório me pus a pensar e des-pensar a vida. A minha sexta começa assim. Uma lambida de brilho de sol e um café moído na hora. Sinto-que estou num comercial de margarina, com toda a família reunida de manhã, mesmo quando estou só. Passam os dias no canto da cabeça como o mundo passa, de fora da janela fria de um trem europeu. Neste momento, de barriga cheia, a minha sexta é uma suspensão dos reumatismos imaginários. Me apronto e pego o carro que toda vez esqueço de lavar. Abro o capô, completo a água do sistema para não vê-lo ferver mais tarde, abro as janelas por um pouco de vento e ligo o ar que ventila com asma. O trânsito é chato, quente, mas não o bastante para fazer do meu dia uma quinta-feira. Entro na sala, e vejo sorrisos e gente. Não importa se chove ou se faz sol pelo janelão. Dentro é sempre frio e quente. Um jardim de girassóis guiados por fios cuidadosos, dourados. Também fios de violino povoam e preenchem essas manhãs especiais. Acho que posso dizer que a poesia habita as sextas-feiras, igualmente habita minha cabeça. Tanto, que hoje é domingo e eu sinto um gostinho de sexta. É mesmo como o médico disse. E não é que eu sou grato por isso?