A Forma e o Conteúdo #3 — A Composição

Uma peça de design gráfico é o resultado da mistura de todos os seus elementos, e isso é o que chamamos de composição. A ideia é bem similar a uma composição musical, só que aqui os instrumentos são os símbolos, formas, imagens, cores e fontes. Juntamos tudo e BINGO! — nós temos nossa música. Bom, nesse caso, nosso layout.
Claro, assim como em uma canção, a composição de um projeto de design é um processo árduo, que requer algum conhecimento, boas ideias e muito esforço. Não importa seu gosto musical na hora de compor, desde que você saiba como tocar os instrumentos disponíveis, certo?

Bom, achei interessante começar por esse assunto já que se trata dos conceitos gerais de construção de um layout. Aqui vou listar 5 itens (e alguns subitens) básicos para o planejamento e execução de um projeto. Existem mais, é claro, mas como eu disse no post anterior: a ideia é manter as coisas organizadas, logo, vamos aos parte por parte, certo?

Ok, let's go!


Focando e Guiando

Foco na mensagem, afinal esse é o objetivo de qualquer peça de design gráfico, não é mesmo? O ponto focal de um layout é o clímax da história que está sendo contada, basicamente a parte mais importante dele. É, geralmente, a primeira coisa a ser notada pelo público, por isso é fundamental que seja forte e bem definida antes mesmo do projeto ser colocado em prática.

Apesar de sua complexidade, o ponto focal deste cartaz para a Orquestra Filarmônica de Munique, criado pela designer Maria Fischer, é bem claro. | Link: goo.gl/sVTBT8

Mas contar uma história não é apenas apresentar seu ponto principal. É interessante guiar o observador através das informações de sua peça usando técnicas e elementos que indiquem a progressão de leitura. Use linhas, setas, pesos de fontes ou apenas o bom e velho sentido ocidental (ou oriental se for o caso) de leitura. No fim do dia você quer oferecer a melhor e mais amigável experiência que puder.

Este poster do estúdio britânico Sawdust é uma homenagem ao lendário Edward Johnston, criador da tipografia que carrega seu sobrenome, reconhecida mundialmente por ser utilizada no sistema de metrô de Londres. A peça guia o observador pelas informações de forma original. | Link: goo.gl/MBrDNq

Definindo Hierarquia e Escala

Sabe como uma revista tem um estilo de título, outro de subtítulo, mais um usado para o texto geral e ainda outro de legendas e até mesmo destaques? Pois é, isso é um sistema de hierarquia. Basicamente é dar a importância necessária para as partes de um projeto e assim ajudar o leitor a identificar facilmente os níveis e a ordem da informação.

Em projetos editoriais é possível identificar facilmente um sistema de hierarquia em funcionamento. Como exemplo deixo aqui a excelente revista Rulez, desenvolvida pelo estúdio paranaense Hearted. | Link: goo.gl/A2gl3z

Já quando falamos sobre escala em um projeto de design se trata da hierarquia aplicada através de (sim, você adivinhou) escala. Ou seja, elementos maiores e menores que dão a ideia de ordem em uma peça.

Eu particularmente acho muito divertido trabalhar com escala: exploro detalhes através de cortes em símbolos e objetos estourados, diminutos e atravessados. Lembre-se que design é sobre experimentação, então nunca deixe de brincar com seus elementos.

A capa que a designer argentina Ali Oglivie criou para o editorial L’Art Du Burlesque utiliza ilustrações escalonadas que definem bem sua hierarquia. | Link: goo.gl/7Dphkn

Harmonia

Como em nossas vidas, harmonia é algo indispensável para um projeto de design. Um designer tem a obrigação de fazer com que o público perceba o ritmo harmônico que deve existir na relação entre a forma (os elementos) e o espaço (a base). Pode parecer simples e óbvio, e talvez seja mesmo, mas um layout deve contar com elementos que conversem entre si, deve ficar claro que existe uma relação entre tudo o que o compõe. Todo esse ritmo também pode ser chamado de tensão. Quando um observador consegue experimentar um design em sua totalidade, compreendendo todo sua informação graças a sua harmonia, temos o que é chamado de Gestalt — a compreensão das partes antes da compreensão do todo.

Eis aqui o que você pode fazer para estabelecer o ritmo em sua composição:

  • Simetria Existem duas formas mais comuns para organizar seus elementos: de forma simétrica e de forma assimétrica.
    Quando o assunto é organização simétrica estamos falando de uma ordem que pode ser da esquerda pra direita, de cima pra baixo. Elementos alinhados entre eles de forma lógica, geralmente dividida por colunas ou módulos. Existe um senso de ordem e de regra.
    Geralmente se usa da simetria para comunicar formalidade, conservadorismo ou até mesmo simplicidade. Mas falando a verdade, você pode aplicar fundamentos simétricos para qualquer tipo de layout, afinal sempre é possível quebrar essas regras.
A embalagem de tintas DOTS usa os fundamentos de simetria para organizar suas informações, mas também se dá a liberdade de quebrar a regra com esferas de destaque. | Designer: Christine Herrin | Link: goo.gl/jHyJ48
  • Assimetria O inverso da simetria. Se trata de uma forma mais dinâmica de organização, aonde seus elementos e informações podem ter pesos distintos, sem precisar seguir uma ordem restrita (desde que a mensagem seja clara). É um jeito mais espontâneo de trabalhar e costuma render designs surpreendentes. Praticamente todos os exemplos que estou colocando neste artigo trabalham com assimetria, dê uma olhada.
  • Elementos Complementares Ali em cima eu citei sobre como os elementos tem de conversar entre si, e é isso o que elementos complementares são: imagens, símbolos e fontes que falam a mesma língua, que seguem o mesmo estilo e estética. Pense no seu layout como sendo uma roda de amigos que tem muitos gostos em comum: o bate-papo flui naturalmente porque um assunto leva ao outro e ninguém fica de fora.
Os elementos deste folheto para a De School de Amsterdã falam claramente a mesma língua. | Designer desconhecido | Link: goo.gl/OGo3vc
  • Repetição Partindo do mesmo princípio dos elementos complementares, a repetição serve para reforçar a identidade do layout, dando consistência. São elementos multiplicados pelas várias páginas de um editorial por exemplo — as assinaturas do projeto todo. Em (mais) uma analogia com música: sabe como canções sempre tem refrãos e versos repetidos? Então, a ideia é essa.
O estúdio Metaklinika trabalha bem a repetição de elementos na composição dos materiais da Dolce. Você consegue absorver a identidade visual da marca. | Link: goo.gl/I2lEnV

Equilíbrio

Se harmonia é algo essencial na vida, o mesmo pode ser dito sobre equilíbrio. Quando você estiver trabalhando em um novo design, tenha em mente que nem todo espaço do seu layout precisa ser preenchido. Manter o equilíbrio em um projeto gráfico é extremamente importante.

Para equilibrar as coisas existe aquilo que chamamos de Espaço Negativo, também conhecido como mancha gráfica. Um termo que se dá para aqueles espaços vazios que existem em diversas peças e que estão lá para equilibrar um layout. Eles dão respiro e deixam que os destaques sejam destaques, sem um amontado de coisas no caminho. Então, nunca diga "tem muito espaço sobrando, dá pra colocar mais coisas nesse layout", isso é simplesmente ofensivo.

É claro que sua peça tem de seguir um bom ritmo, e isso significa que muitas coisas podem estar acontecendo ali. Apenas lembre-se que os elementos tem de coexistir de forma a entregar uma mensagem coerente.

Este poster que o espanhol Quim Marin criou para o El Café del Teatre é um exemplo perfeito do espaço negativo sendo usado eficientemente. | Link: goo.gl/Gnc803

Alinhamento

Ser dinâmico e espontâneo é ótimo, mas pegar um apanhado de elementos e apenas joga-los em uma base não funciona. Alinhar e justificar seus objetos entre eles, em regras de grids, ou mesmo em padrões definidos pelos próprios elementos, é como se cria ordem em qualquer tipo de peça.

Mais pra frente eu vou voltar ao tópico de grids, entrando um pouco mais a fundo no assunto, mas o que eu posso dizer é que existem mil e uma formas de se alinhar conteúdo em um layout. Muitos designers usam lógicas criadas por eles mesmos na hora em que estão rabiscando um projeto. O importante é que a composição sempre faça sentido para o observador, nem que as vezes você o force a pensar um pouco mais.

Os materiais da escola Edvard Munch, criados pelo estúdio norueguês Snøhetta, tem um sistema de grids que funciona por todo seu material de branding. O alinhamento é perfeito e funcional. | Link: goo.gl/bK9VVo

Composição vai muito além dos 5 tópicos a cima, então em meu próximo post pretendo continuar a te dar informações para fortalecer seus designs. Dito isso, que tal se a gente falar sobre Cores!? Isso vai ser muito bacana!

Deixe nos comentários o que você achou desta primeira "aula". Dúvidas, críticas, insights. Tudo é bem-vindo aqui.

Espero por você na semana que vem?

See ya!