Diego Paiva
Aug 31, 2018 · 5 min read

A Quinta Morte

[TW: Suicídio]

A primeira vez que eu morri eu tinha menos de dez anos. Acho que uns oito. A varanda era só no quinto andar, mas era um prédio de cinco andares. Aquela varanda então logicamente era o topo do mundo. Ela não passava de uma placa de concreto que estava cada vez mais inclinada, uma torre de Pisa que não era torre, não era Pisa e era só uma varanda que por mais que fosse de concreto firme estava não só torta como estava irremediavelmente torta. Era impossível consertar aquilo sem quebrar tudo. A varanda, fingindo ser concreto firme, combinava com as pessoas daquela casa. Inclinadas, tortas, todas envergando em direção ao chão enquanto fingiam que estava tudo bem no topo do mundo. A varanda estava prestes a finalmente se romper comigo ali quando eu percebi que já tinha altura suficiente para alcançar a grade em volta dela, então eu poderia apenas apenas me debruçar e cair. A primeira vez que eu percebi que estava crescendo foi vendo que agora poderia me jogar de uma varanda torta. Enquanto eu caía dentro de minha cabeça eu percebi que ao chegar no chão eu provocaria muito mais gritos, exatamente os gritos que eu estava fugindo. Mas que eu não me importava que eles ficassem maiores enquanto eu ficasse cada vez mais longe deles. Foi na minha primeira morte, por volta de oito anos, que eu percebi: morrer não era algo de todo ruim se você não ouvisse mais gritos.

A segunda vez que eu morri já foi muito tempo depois. Eu estava acumulando medos e covardia de tal forma que elas transbordavam. Eu pensava em tudo de ruim como algo líquido. Algo sem forma definida, que ocupa de forma uniforme todos os espaços em sua volta. O medo é líquido. Sonhei com um afogamento. A água representa vida, é irônico. Mas água pura não é o único líquido. Eu vi o lacre da garrafa, ainda presente. Ela estava inteira. Os dois algarismos como símbolo: 51. O número da sorte. Publicitário é um demônio, não? Resolveram associar cachaça com sorte? Quem não quer beber sorte? Quem não quer colocar pra dentro sorte? A cada esforço para descer uma garrafa inteira dentro de mim o plano naquele momento parecia perfeito. Era difícil acertar o copo quando o chão se movia. Era difícil parar quando num estágio intermediário eu percebia que era outra pessoa. Maior, mais confiante. Aquela pessoa tinha certeza absoluta que aquilo era o certo. O coma alcoólico, o choque, a falência, sim, estava dando certo. Ninguém pode aguentar uma garrafa inteira, era questão de tempo. A raiva agora era verbal, xingava demônios invisíveis, xingava a mim, xingava meus passado. As costas nuas sentindo o frio azulejo do chão. O teto da cozinha se mexia, a cozinha inteira era um caixote morro abaixo. Dentro dessa caixa eu estava totalmente entregue aos movimentos. Enfim, líquido. Enfim eu e meus medos uma coisa só. Enfim o fim. Mas ninguém aguenta uma garrafa inteira. A pessoa era outra, mas o corpo era meu. Movimentos involuntários. O pulso e o que ainda podia sair passou pela minha boca. Foi como vomitar um demônio. Adormeci e nas horas que passei no chão sonhei com meu tio Alexandre, que não disse uma palavra sequer. A minha segunda morte me deixou dores no fígado por uma semana.

A terceira vez que eu morri foi bem rápido e intenso. Num pulo. Foi depois de apenas alguns meses da segunda morte. Os demônios tinham os mesmos nomes. Acordei com um recado. O curso de inglês ligou. Não, eu não queria falar com o curso. Eu não queria falar com o curso e nem com ninguém. O curso era o mundo. Chega de me procurarem. Porque o curso era o mundo e o mundo era o curso. Então eu acordei, ouvi que o curso ligou e entrei no banheiro. Fechei a porta, tirei a roupa e quebrei o barbeador. Foi mais fácil do que imaginava, a lâmina leve era mais afiada do que eu imaginava, entrou muito mais profundamente do que eu pensava. Meu pulso emitiu uma onomatopeia inédita para mim. Eu ouvi algo que posso descrever como “clunc”. E depois do até simpático “clunc” eu nunca tinha visto sangue em goles. Cada golada que o pulso soltava era além da imaginação. Era bonito o piso branco sendo pintado de vermelho. De alguma forma aquilo me acalmou. Era a hora. Era o suficiente. Mas na verdade não era. Uma hora simplesmente parou, e tentar abrir mais o corte causava uma dor terrível, que não aconteceu em nenhum momento da primeira. Mais uma vez eu permanecia sem conseguir concluir algo. A minha terceira morte pode ser vista todos os dias por mim, basta olhar pro pulso.

Quando eu morri pela quarta vez nem faz muito tempo, só um pouco mais de 60 dias e meu nome era Ícaro. Não existe nada mais belo que voar, mas cair é o risco. A queda não é física. Ou melhor, existe uma queda física, mas tem uma queda que percorre uma fita de möbius mental, que ao mesmo tempo é infinita e percorre o mesmo lugar. Eu só queria onde aterrissar, mais que pensar no impacto. Eu só não queria ficar com esse intermitente pensamento de queda. No dia da quarta morte eram as primeiras horas do meu aniversário. Eu lembrei do ano anterior, quando eu tinha prometido pra mim resolver tudo ou terminar tudo. Eu lembrei do ano anterior inteiro, quando eu achei que finalmente tinha escapado do labirinto, de como eu podia chegar no Sol. Mas quem chega no Sol com asas presas com cera merece cair mesmo. O exato inverso da jornada do herói. A jornada do vilão. Afinal entendi. Sois vilão, Ícaro. Lembrei que dias antes tinha pedido só uma coisa de aniversário. Uma. E foi negado, e foi mostrado com esse não na minha cara que o labirinto estava dentro de um labirinto maior, que a queda seria uma constante. Eu tinha perdido, afinal, tudo. A minha quarta morte ainda olha pra mim e finge que nada aconteceu.

E tem a quinta morte. Quer dizer, ela não aconteceu, mas esse é um fato engraçado. Isso porque não interessa se será semana que vem ou na próxima década. Mas ela existirá. É a única certeza nesse mundo de dúvidas. Essa é a crueldade: por ser uma certeza, a quinta morte é reconfortante. É o seguro que acontecerá. Não é a incerteza da mensagem que o celular vibra e me deixa nervoso, não é a incerteza da porta do ônibus que abre e eu não sei quem vai subir e me deixar nervoso, não é a dúvida do “e agora, vai fazer o que da vida?” que me deixa nervoso. O grande problema é esse. De todas as soluções para evitar a quinta morte, absolutamente nenhuma envolve paz. E no momento eu sou uma pessoa querendo pura e simplesmente paz. Qualquer coisa que não seja paz, qualquer coisa que envolva se esforçar, mesmo que seja em nome de um bem maior na frente, não me atrai. As promessas de que vai valer a pena se houver algum esforço viram pouca coisa, falta credibilidade. As certezas de que vai valer a pena algum esforço viram só mentira mesmo. Não há vantagem maior que paz e não há esforço que garanta a paz, portanto nem a promessa de paz funciona. É cruel? É. Bem vindos a quinta morte, ela é um buraco que só pode ser preenchido com paz.

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