O poder narrativo da comédia em histórias pretas

A permissão para ganhar e o que Dear White People, Insecure, Atlanta e Chewing Gum têm em comum

Imagem do filme Dear White People, de 2014

Dear White People (DWP) (Criada por Justin Simien, 2017-) estreou dia 28 de Abril na Netflix e vem causando burburinho na internet — pelo menos na parte preta dela. A série, que se originou de um filme homônimo lançado em 2014, acompanha a multiplicidade de visões e cores de pessoas negras na Winchester University, ambiente majoritariamente branco, à partir do episódio em que alunos negros invadem e encerram à força uma festa de Halloween onde o pré-requisito é fazer blackface e ser racista.

Blackface retratada no seriado

A festa, chamada “Dear Black People” acontece em resposta ao programa de rádio que dá nome ao seriado no qual Samantha White (Logan Browning na série, Tessa Thompson no filme), estudante de Cinema, tece críticas ácidas e solta suas opiniões — sempre muito bem construídas, com ideias concatenadas e uma articulação de dar inveja — sobre o que conhecemos como branquitude.

Samantha White em seu programa de rádio

Diferente do que o título do seriado indica, mais do que se destinar às queridas pessoas brancas que talvez estejam assistindo, a narrativa criada por Simien se propõe a explorar as possibilidades de relações entre as personagens negras participantes da história, nos mostrando uma infinidade de razões e maneiras diferentes de encarar o cotidiano quando se é uma pessoa negra consciente da sua condição e de todos os entraves que uma sociedade racista causa em sua existência.

As personagens são tridimensionais, bem construídas, com suas próprias motivações e objetivos, pondo em cheque a ideia (difundida amplamente com a prática da blackface desde o século XIX e entrando de vez no imaginário social com O Nascimento de uma Nação, filme de 1915 dirigido por D.W. Grifitth) de que negros são todos iguais e não passamos de uma massa amorfa de melanina escura e cabelo crespo. Todas as personagens são bem articuladas, inteligentes e verborrágicas, batendo de frente com a representação do homem preto animalesco, sem inteligência e estuprador de mulheres retratada no filme de Griffith.

No trecho acima uma mulher branca, depois de ser perseguida por um homem negro, salta de um penhasco para não ser estuprada.

Em DWP quem é o outro, o não-centro, o periférico é a branquitude. É a branquitude que se vê racializada, como uma massa amorfa de melanina clara e cabelo liso. Porém não é à branquitude que são reservados os dramas das personagens negras, como talvez esperado por um espectador branco desavisado: a série se contrói e se sustenta sem apelar para o óbvio e talvez isso incomode (e explique a nota baixa dada no IMDB) — não ser o centro, quando você é acostumado a tudo girar ao seu redor, deve ser difícil.

O mais interessante da construção narrativa de DWP é que tudo isso é feito através do viés cômico, mais uma vez fugindo do óbvio: é uma história sobre negros sem ser sobre escravidão, sem ser sobre europeus sequestrando africanos há 500 anos — é uma história de pessoas como eu e você, sobre pessoas do cotidiano: e isso se dá pela escolha narrativa da comédia.

A comédia, segundo o que o teórico Steven Kaplan aborda em seu livro The Hidden Tools of Comedy: The Serious Business of Being Funny (“As ferramentas ocultas da comédia: O negócio sério de ser engraçado”, em tradução livre) é o único gênero que dá verdadeira possibilidade de ganhar ao personagem.

Mas ganhar o quê exatamente? Pode ser desde uma aposta, a um emprego ou simplesmente ganhar o direito de existir. Personagens em histórias sempre estão tentando ganhar alguma coisa em prol de seus objetivos: é isso que os faz sair de ponto A e ir até ponto Z e fazer a trama andar. Personagens sem objetivos e que não tomam ações são personagens ruins, basicamente.

A comédia é o gênero narrativo que dá maior possibilidade para que esses personagens tentem ganhar sem nunca desistir. Explico o porquê — diferente do drama, que nos conta histórias de pessoas quase perfeitas, heróis intocáveis que sofrem piamente atravessando o mundo e enfrentando monstros literais e imaginários (lembram d’A Odisséia?), histórias de pessoas que aspiramos a ser; a comédia fala de gente do dia-a-dia, de gente falha, de gente contraditória, de gente que fará de tudo com o objetivo de ganhar seja lá o que ele ou ela busque.

Essa permissão narrativa propiciada pelo gênero que faz com que Coco Conners (Teyona Parris no filme, Antoiniette Robertson no seriado) quase zere sua conta bancária em prol de um aplique ou que se envolva com Troy Fairbanks (Brandon P. Bell) e tenha até escolhido o nome de seus filhos (!) mesmo não gostando muito lá do rapaz.

Coco Conners

Coco leva aos extremos sua busca por ascensão social já que não sonha pequeno: comenta até mesmo que em 30 anos será a segunda presidenta negra dos EUA. A determinação da personagem que a leva desde ter um número relativamente grande de amigos brancos em seu círculo social a trancar a porta a evitar a entrada de Troy no último episódio; ou até mesmo a mentir para o Reitor (Dennis Haysbert no filme, Obba Babatundé no seriado) em função de se mostrar capaz de botar ordem na situação caótica que se desenrola no final da série.

Esse percurso é permeado de situações cômicas, que tiram risos dos espectadores, ao tempo que em nenhum momento é perdido o peso dramático e seriedade da situação. Coco é uma menina negra de pele escura, com vivência diferenciada dos outros personagens, dando a ela motivações e maneiras de agir diferentes das de Sam White (como o trocadilho do sobrenome aponta , de pele mais clara), por exemplo. Maneiras erradas ou certas de militar? Não há como dizer já que a multiplicidade de opiniões e relação entre pessoas negras é um dos pontos altos do seriado.

Sam e Coco na festa de Halloween.

Kaplan também afirma em seu livro que a comédia é o gênero narrativo que mais fala da essência humana, por assim dizer. Ao tempo que o drama conta dos feitos de semi-deuses inatingíveis, a comédia se concentra nos dramas humanos, de pessoas falhas, que erram. Isso nos dá permissão para a construção da contradição de Sam, a porta-voz da militância negra na universidade, com o namorado branco ou do filho do reitor que fuma maconha escondido no banheiro, ou do estudante de jornalismo gay que se masturba imaginando seu colega de quarto hétero mesmo sabendo que não há chances reais de qualquer envolvimento. A comédia nos permite a falha e, mais além, permite que continuemos tentando fazer o que for preciso para atingirmos nossos objetivos.

Dito isto, é interessante notar o avanço de narrativas autorais pretas que se apoiam neste gênero e como a comédia se mostra como uma das melhores alternativas para contar histórias de pessoas negras. Pegue por exemplo Insecure (HBO, 2016- ), criada e estrelada por Issa Rae, que acompanha os percalços de uma mulher negra insegura, como o título do seriado deixa claro. A comicidade já habita no pressuposto de que todas mulheres negras são seguras de si e autoconfiantes, enquanto Issa é insegura (lembram das falhas?) e tem de lidar com relacionamentos, trabalho e amigos em um mundo que espera dela a perfeição de um estereótipo criado pela branquitude.

Insecure ( 2016- )

Issa Rae é youtuber, criadora e uma das principais roteiristas do seriado, dando ao mundo retratado nas telas da insegurança de suas histórias um aspecto mais verossímil com a realidade de mulheres negras no século XXI — a sua realidade.

Processo semelhante acontece com Atlanta (FX, 2016- ) criada, escrita e estrelada por Donald Glover (também conhecido como Childish Gambino em sua carreira musical). Atlanta retrata a vida de dois primos com visões diferentes sobre o que é arte e comercial na cena de rap na cidade que dá nome ao seriado, nos EUA.

Atlanta (2016- )

A série é, sem dúvidas, uma comédia, porém passeia, experimenta e se funde a outros gêneros, dando aspectos inclusive de realidade fantástica à narrativa.

Glover conduz com maestria a história e nos mostra que sim, é possível fazer comédia quando se fala de um mundo de crimes e tráfico de drogas sem deixar sua seriedade de lado. Uma das sequências mais geniais é quando Earns (Donald Glover) e Paper Boy (Brain Tyree Henry) se encontram em uma delegacia e se veem obrigados a lidar com um policial negro — os entraves e contradições da relação entre o Earn e Paper Boy e o policial, todos negros tão logo vítimas do sistema, são postos em telas de maneira criativa, arrancando um riso incômodo e de identificação do espectador.

Paper Boy e o policial fã, na delegacia.

Earn Marks está longe de ser um herói em busca da perfeição: ele só está fazendo de tudo para vencer em um mundo que teima em o renegar — isso o tange tanto como personagem cômico quanto pessoa negra inserida em uma sociedade racista.

Mais um bom exemplo se dá com Chewing Gum (Netflix, 2016-) , criada, escrita e estrelada por Micaela Coel. Tracey (personagem de Coel) é uma mulher negra reprimida sexualmente por sua criação religiosa e o que poderia ser um dramalhão de superação e os desafios de ter tido uma criação tão rígida, acaba se transformando em uma comédia frenética e insana nos dando o ponto de vista de Tracey (ela inclusive quebra a quarta parede e conversa diretamente com o espectador com frequência). A personagem não entende muito bem seu lugar no mundo e está tentando desesperadamente perder sua virgindade.

Tracey (Micaela Coel) em Chewing Gum (2016-)

As referências à cultura pop (Amém Beyoncé!) estão ali, assim como o discurso racial e religioso. Micaela Coel fala de Jesus e do pau rosa do namorado em uma mesma frase e isto é fantástico. Novamente, a liberdade criativa para a narrativa se dá pelo roteiro e criação do seriado ser assinado por pessoas que entendem e têm propriedade para escrever sobre aqueles assuntos.

Dear White People, Atlanta, Insecure e Chewing Gum não passariam de produções mais-do-mesmo-racistinha se as pessoas por trás de suas principais funções (roteiro, direção, criação) fossem brancas. Nossas pautas, vivências e questões são diferentes da branquitude, afinal de contas.

Por fim, acredito que a comédia seja a melhor forma de contar nossas histórias sem perder o peso social ou mesmo a seriedade — é cristalizado em nosso imaginário que o drama é a melhor opção nesse caso desde que Aristóteles escreveu "A Poética", deixando aos homens elevados e de grande caráter os dramas existenciais e à ralé a comédia. Esta ideia persiste até hoje, basta ligar a TV no horário nobre e ver a cor dos personagens do núcleo pobre e cômico da telenovela.

Basta a nós, cineastas e realizadores negros e negras, hackear esse sistema e subvertê-lo, para que assim mais histórias nossas sejam contadas e transformemos de alguma forma o imaginário e a realidade que nos tange.