Aqui jaz o Jornalismo de confronto

Nesta segunda-feira (15), o México perdeu o jornalista Javier Valdez. Assassinado como outros quatro jornalistas mexicanos, somente em 2017. A morte foi atribuída à violência do narcotráfico. Já o “mérito” é o do jornalismo corajoso, dedicado e consistente.

Cada vez que leio sobre a atuação dos profissionais de comunicação e de grupos como o Periodistas de a pie na América Central é impossível não contrastar com a fraca realidade do Jornalismo brasileiro. Valdez era um dos jornalistas mais respeitados na cobertura do crime organizado em uma terra onde reina a impunidade e o silêncio das instituições — situação inerente aos países da América Latina, provavelmente desde o chamado “descobrimento”.

Alguns de seus livros, como Narcoperiodismo e Los Morros del Narco deram voz às vítimas e contaram histórias de desaparecidos. A situação do México e o contexto da morte é triste e parece triste. Mas no Brasil, a tristeza é pelo aparente horizonte curto das investigações e a exclusão dos mais fracos como protagonistas das histórias. Isso porque há carência desse tipo de jornalismo confrontador de realidades — diferente, por exemplo, do Jornalismo Divulgador Ideológico™ (o mais na moda) e do Jornalismo Fura-bolo™ (este último, praticado por veículos sem capacidade para apurar e problematizar assuntos, restando apenas o “apontamento” dos problemas através de denúncias carentes de discussão além do senso comum).

Às vezes os sentidos do Jornalismo parecem rasos diante de sua profundidade. Pode-se relacionar essa simplicidade justamente à própria vocação do Jornalismo, de comunicar. “Por que sou jornalista? Porque as pessoas me interessam. Me encantam suas ilusões, dores, esperanças e tristezas. Porque atrás desses rostos, olhos, peles e lábios existem histórias incríveis que alguém precisa contar.” Desta forma simples, Javier Valdez explicou os porquês da profissão.

Assistindo de longe a forma como a notícia da morte ainda está sendo assimilada pelos mexicanos, o conforto é ver colegas lembrando as palavras de Galeano em 1989 ao receber o prêmio que evocava o jornalista José Tapia, morto pela ditadura chilena: “No, no, no. Tú no moriste contigo”. No, Javier, tú no moriste contigo. E espero que essa coragem se espalhe. Pelo bem dos leitores. Pelo bem das comunidades. Pelo bem.