O que Leonardo DiCaprio tem a ver com a Gestão Tributária?

AVISO: Leia o artigo escutando a música abaixo para uma maior imersão.

O compositor Hans Zimmer compôs a trilha sonora do filme Inception (A Origem) usando trechos da canção Non, je ne regrette rien, de Edith Piaf.


Quando falamos de tributos o Brasil se destaca por características peculiares. Em um verdadeiro Carnaval Tributário como dizia Alfredo Becker, o empreendedor brasileiro leva 2.600 horas para pagar os impostos, mais que o dobro do segundo colocado, a Bolívia. Neste cenário, se destaca a figura do gestor tributário e sua cultura organizacional, uma vez que o material humano envolvido pode limitar ou expandir o potencial de crescimento das organizações, afetando diretamente seu resultado econômico.

O gestor como um líder, conduz um grupo de pessoas, transformando-o numa equipe que gera resultados. Desse modo, ele deve ter a habilidade de motivar, e influenciar os liderados, de forma ética e positiva, para que contribuam voluntariamente e com entusiasmo para alcançarem os objetivos da equipe e da organização.

Considerando que todo cargo de gestão, independente do setor, pressupõe gestão de pessoas, o segredo está em conhecer essas pessoas. Conhecê-las individualmente é um mérito, uma vez que cada indivíduo tem suas potencialidades e necessidades, mas conhecer as respostas do grupo, o corpo de funcionários, suas visões, anseios e posicionamentos como grupo já é de grande valia.

Um estudo global no 3º Ketchum Leadership Communications Monitor — KLCM[1], que englobou 6.509 pessoas de 13 países, incluindo o Brasil, revelou a percepção das pessoas sobre seus líderes e apontou que os itens mais citados na avaliação de uma liderança eficaz são:

. Liderar pelo exemplo;

. Comunicar-se de forma aberta e transparente;

. Trazer à tona o que os outros têm de melhor;

. Admitir erros;

Uma das conclusões que podemos verificar no panorama apresentado pela pesquisa é a de que a Comunicação Interna é uma valiosa ferramenta para que líderes possam ter cada vez mais resultados no trabalho com suas equipes.

A Comunicação eficaz é aquela que leva em conta a informação, o meio e, principalmente, a resposta que gerou. Sendo assim, para obter o melhor desempenho de uma equipe, é necessário que ela esteja familiarizada com as expectativas e que possa relatar quais são suas considerações. A famosa via de mão dupla.

Uma Comunicação Interna que esteja alinhada ao planejamento estratégico das empresas, feita de forma clara e transparente e que contemple canais que se mantenham abertos ao feedback, traz um valioso material para que as lideranças obtenham subsídios que sirvam de apoio na gestão das pessoas.

A pesquisa aponta que apenas 39% dos entrevistados consideram os líderes empresariais bons comunicadores, em sua edição anterior os números chegaram a 49%. Dito isto, fica o dilema: qual o segredo da comunicação na gestão tributária?

Alguns acham que existe uma fórmula para se comunicar: “Fale em um tapete vermelho”, “Conte uma história de infância para as pessoa se identificarem”, “Revele um segredo pessoal para quebrar o gelo”, “Conclua com um chamado inspirador para a ação”. Não! Não pense desse jeito! Na verdade se exagerar nesses recursos, você vai parecer clichê ou manipulador. Mas há uma coisa que todas os comunicadores tem em comum: sua principal tarefa como comunicador é transferir para a mente dos ouvintes um presente extraordinário, algo estranho e lindo que chamamos de idéia. Nas palavras de Dom Cobb, personagem criado pelo renomado diretor Christopher Nolan vivido por Leonardo DiCaprio no filme Inception (A Origem), Uma idéia é como um vírus. Resistente. Altamente contagioso. A menor semente de uma idéia pode crescer para definir ou destruir você. As menores idéias como… ‘Seu mundo não é real’. Um simples pensamento que muda tudo.

Deixe-me mostrar do que estou falando. Quando ouvimos/assistimos uma pessoa falar, mesmo que jamais tenhamos nos vistos antes, nossas mentes entram em sincronia e uma com as outras. Começam literalmente a exibir os mesmos padrões de ondas cerebrais[2]. Não que estejam sentindo as mesmas emoções. Algo ainda mais surpreendente acontece, um emaranhado de neurônios interconectados se reúnem de uma forma que representa uma única e específica idéia. Incrivelmente, esse padrão exato é recriado em tempo real na mente de todos os ouvintes. Isso mesmo! Em apenas alguns minutos, um padrão envolvendo milhões de neurônios é teleportado para milhares de mentes apenas ao ouvirem uma voz e observarem um rosto.

Mas esperem… O que é uma idéia, afinal? Bem, podemos imaginá-la como um padrão de informações que te ajuda a entender e experimentar o mundo. As idéias surgem de todas as formas e tamanhos, desde as complexas e analíticas às simples e estéticas. Sua mente está repleta de idéias, e não são simplesmente aleatórias. Elas estão cuidadosamente ligadas. Juntas elas formam uma estrutura incrivelmente complexa que é a sua visão pessoal do mundo. É o sistema operacional do seu cérebro, é a forma que você experimenta o mundo e é construída a partir de milhões de idéias individuais. Por exemplo, se um pequeno componente da sua visão de mundo é de que gatinhos são seres adoráveis, quando você ver um sua reação deve ser de afeição. Se outro componente de sua visão de mundo for à idéia de que leopardos são perigosos, quando você ver um vai reagir de um modo bem diferente. Então fica bem evidente por que as idéias que constroem sua visão de mundo são tão cruciais[3]. Você precisa que elas sejam um guia o mais confiável possível, para o mundo assustador, mas maravilhoso que está aí.

As visões de mundo de diferentes pessoas podem ser drasticamente diferentes. Por exemplo, como sua visão de mundo reage quando você vê uma mulher mulçumana? Uma religiosa? Uma oprimida? Uma terrorista? Seja qual for a sua resposta, há milhões de pessoas por aí que reagiriam de forma bem diferente de você. Por isso, idéias são realmente importantes. Se comunicadas adequadamente, elas podem mudar para sempre a forma como uma pessoa vê o mundo e moldar suas ações agora e no futuro. As idéias são a força mais poderosa capaz de moldar a cultura humana. Então, se você aceitar que sua principal tarefa como gestor é fazer brotar uma idéia nas mentes das pessoas, tenho quatro dicas sobre como realizar essa tarefa[4]:

1 — Limite sua explanação a apenas uma grande idéia. Idéias são coisas complexas e você precisa resumir o conteúdo para que consiga focar especificamente aquela idéia pela qual é mais apaixonado e possa ter a chance de explicá-la de forma mais adequada. É preciso contextualizar, dar exemplos, deixar claro. Então, escolha uma idéia e torne a sua linha de raciocínio durante todo o discurso de forma que tudo que disser se remeta a ela de alguma forma.

2 — Dê a seus ouvintes razão para querer te escutar. Antes de começar a criar idéias na mente das pessoas, você precisa da permissão delas para fazer isso. E qual a principal ferramenta para fazer isso? A curiosidade. Instigue a curiosidade da sua plateia. Faça perguntas intrigantes e provocativas para deixar claro por que algo não faz sentido e precisa ser explicado. Se você conseguir revelar uma incoerência na visão de mundo de uma pessoa, ela sentirá a necessidade de preencher essa lacuna de conhecimento. Uma vez fomentado esse desejo, será bem mais fácil começar a tecer sua idéia.

3 — Apresente sua idéia, parte por parte, a partir de conceitos que sua plateia já compreende. Use o poder da linguagem para costurar conceitos que já existem na mente dos ouvintes, mas não a sua linguagem, a linguagem deles. Comece com o que eles entendem. Os gestores esquecem que muitos dos termos e conceitos comuns para eles são completamente incomuns para a seus colaboradores. Metáforas podem ser fundamentais em mostrar como as partes se encaixam, porque revelam o formato desejado do padrão, com base em uma idéia que o ouvinte compreende. Por exemplo, quando Jennifer Kahn tentou explicar a incrível nova tecnologia biológica chamada CRISPR, ela disse: “É como se, pela primeira vez, tivéssemos um processador de texto para editar o DNA. O CRISPR permite copiar e colar informações de forma muito fácil”. Uma explicação clara como essa gera um momento satisfatório de descoberta quando faz sentido em nossa mente. Então, é importante testar sua oratória com amigos em quem confie e descobrir que partes dela eles não entendem bem.

4 — Faça com que valha a pena compartilhar sua idéia. Quero dizer, pergunte a si mesmo: “A quem essa idéia beneficia?” é preciso que você seja sincero na resposta. Se a idéia for proveitosa apenas pra você, lamento dizer, mas provavelmente não vale a pena compartilhá-la. Seus ouvintes vão ignorá-lo. Porém, se você acredita que a idéia tem potencial de iluminar o dia de alguém, de mudar para a melhor a perspectiva de alguém ou de inspirar alguém a fazer algo de forma diferente, aí sim você tem o ingrediente principal para uma boa fala, que será um presente para todos.

É muito comum que um profissional bem sucedido individualmente se torne de uma hora para outra, um gestor de pessoas, sendo responsável não apenas pelo seu desempenho individual, mas sim pelos resultados de um grupo de profissionais. Esses resultados dependem da interação e de conseguir que os profissionais alcancem o melhor desempenho possível.

Assumir um cargo não transforma, automaticamente, um profissional em líder de sua equipe. É preciso estar atento às ferramentas que podem transformar a promoção pessoal em liderança. Assim, a comunicação interna é aliada do líder, tanto na captação de subsídios para a tomada de decisão, quanto para manter a transparência nas decisões e direcionamentos, gerando engajamento dos funcionários.


Obs: O título provocativo é uma referência clara a Freakonomics de Stephen J. Dubner e Steven Levitt.

[1] https://www.ketchum.com/de/insights — https://youtu.be/EIOSE6s5qf0

[2] O’CONNOR, Joseph. Introdução à Programação NeuroLingüística. Rio de Janeiro: SUMMUS, 1995

[3] CARVALHO, Paulo de Barros. Direito Tributário — Linguagem e Método. 2ª edição. São Paulo: Noeses, 2008. “O sujeito cognoscente não descreve o seu objeto, o constrói mentalmente em nome de uma descrição. E assim o faz, amparado num forte referencial metodológico, que justifica e fundamenta todas as proposições construídas, desde que estas estejam estruturalmente e significativamente amarradas a tais referenciais. O sujeito constrói seu objeto (como a realidade que sua teoria descreve) a partir da ordenação lógico-semântica de conceitos.”

[4] ANDERSON, Chris. TED Talks: The Official TED Guide to Public Speaking. Houghton Mifflin. 2016.