Suicídio, falar é a melhor solução.

Diego Rezende
Sep 5, 2018 · 8 min read

Setembro é o mês da conscientização sobre o suicídio e eu queria falar sobre o tema e sobre mim

Ilustração do Oi, Aui sobre o Setembro Amarelo

É muito difícil falar sobre depressão e suicídio, muitos estigmas, muita vergonha. Eu mesmo penso e repenso a necessidade de publicar este texto. Parece que é caça likes, parece que estou querendo chamar atenção, mas no fundo no fundo, quero talvez poder ajudar alguém. Como fui ajudado por este texto do Ronald Rios, no ano passado, e também pelo seriado BoJack Horseman ao assistir o sexto episodio da quarta temporada, aquilo fez uma conexão comigo, de uma tal forma, que eu entendi que precisava de ajuda. Principalmente depois de ver os monólogos internos na cabeça do BoJack.

É exatamente assim que acontece comigo

Não me sinto mal desde o ano passado, na verdade faz tanto tempo que não consigo lembrar da última vez que me senti “bem” sem uma série de pensamentos negativos me dominando por grande parte do meu tempo. Mas o que, verdadeiramente, me ligou um sinal de alerta foi o fato de que eu passava muito tempo do meu dia, talvez um terço dele, dedicado a planejar minha própria morte. É duro dizer, é duro ouvir, mas era a verdade. O mais complicado foi entender que por mais “natural”e recorrente que isso fosse (eu tenho ideações suicidas desde os 12 anos aproximadamente) e aquilo era parte de quem eu era, eu entendi que não precisava ser e por mais normal que aquilo me soasse, não era nada normal.

Atualmente no Brasil, o suicídio é a segunda principal causa de mortes entre jovens de 15 a 29 anos, atualmente o país é o oitavo no ranking mundial e viu seus números aumentarem 10% na última década. A Depressão não é a única motivadora para um suicídio, existem diversos fatores que levam as pessoas a tirarem a própria vida, mas ser depressivo é um grande fator de risco.

Porém não quero fazer um relato clichê e super pesado sobre o tema, mas também não vejo como tratar o assunto com leveza.


A parte mais complicada da depressão é aceitar que ela existe e que você a tem. Existe vários termos que cercam e estigmatizam ainda mais a doença “Frescura, Falta de Deus no coração, ingratidão, falta de força de vontade”. O grande problema é que o depressivo acredita nisso, eu pelo menos acreditava, olhava pra minha vida e ficava ainda mais pra baixo por perceber que ela é boa e que mesmo assim pouca coisa me trazia alegria e vontade de continuar. Mas como disse antes, isso era parte de mim, achava que era normal se sentir mal e torcer para morrer.

Só que não é normal

O processo de aceitação é bem pesado, porque a gente não quer aceitar, quer manter o status quo, não quer ter “doença de madame” ou de “desocupado”. Se você está lendo isso e acha que é normal porque você é igual a Gabriela Cravo e Canela que nasceu assim e vai ser sempre assim. Não é, dá muita vergonha procurar ajuda, mas esse primeiro passo é fundamental. Não é uma doença de rico, é uma doença. Provavelmente você tem um parente cachaceiro que a vida nunca tá boa, ele deve ser depressivo e não aceita isso. Se você tem pensado em se matar, se abra com alguém que confia. Se alguém falou isso para você, não julgue como chamariz de atenção, ofereça ajuda.

Depressão não é só tristeza

Uma coisa que a gente descobre é que os sintomas da depressão vão muito além de ficar deitado na cama ouvindo Lana Del Rey e pensando no passado.

É muito mais que isso monamu

Alguns dos outros sintomas são

  • Raiva
  • Irritabilidade
  • Agressividade
  • Sono excessivo
  • Baixa imunidade
  • Desinteresse
  • Compulsividade
  • Dificuldade de concentração
  • Lapsos de memória

Os sintomas comuns para homens ficam no espectro da raiva, pois o machismo nos ensina que não podemos sofrer e que devemos mascarar nossos sentimentos o máximo possível para não sermos “frescos” toda essa necessidade de mascarar sentimentos nos tornam panelas de pressão prestes a explodir. Uma boa dica pra entender esse comportamento tóxico é assistir o documentário “The Mask you live in” disponível no Netflix.

Eu não costumava ser muito agressivo, mas eu suprimia minhas emoções o máximo que eu conseguia. Isso me tornou emocionalmente distante das pessoas, tornou muito difícil criar um vinculo, me conectar e uma das respostas que me mais uso é a do afastamento, eu sempre vejo o ato de me afastar como a melhor saída para qualquer situação.

Pessoa fala algo que não agrada, me afasto. As coisas dão errado no trabalho, me afasto. Perdi o ônibus, me afasto. Feijão em cima do arroz, taca afastamento que tudo se resolverá.

Oi vamos conversar?

Não resolve, inclusive isso afeta diretamente os sintomas e potencializa as ideações suicidas. Ninguém se trata da depressão sozinho.

No começo o tratamento é foda

Pelo menos para mim foi, quando comecei a tratar essas paradas na terapia era ainda mais complicado lidar. Você vai tirando um monte de coisa de dentro de você e aquilo vai te deixando mais frágil, mais irritado e, ainda por cima, não tem garantia nenhuma de que vai funcionar. Mas funciona, a longo prazo, então não se desespere.

O tratamento foi me tirando do lugar comum de raiva, falta de aceitação, baixo autoestima e isso foi dando luz a outros sentimentos, a outras conexões e isso foi me deixando, bem aos poucos, ser uma pessoa mais aberta. Porém isso era algo que eu não sabia lidar, como falar de sentimentos? Como se mostrar vulnerável para outras pessoas? Isso me fazia querer brigar ainda mais com todo mundo. Queria esconder minha vulnerabilidade com auto-depreciação, raiva e uma pitada de ironia.

Esse é o momento em que as pessoas começam a se afastar de você (e você delas)

É comum as pessoas não entenderem essa doença ou acharem que ela pode ser curada com sessões de aplauso ao por do sol, abraços em arvore e se você não fizer o que elas sugerem, será tachado de uma serie adjetivos como ingrato, covarde, preguiçoso, que você não se esforça. E ai vem a pior parte, você sente essa pancada em você e acredita naquilo, mas você não é nada disso, você é alguém doente que precisa de apoio.

Se cerque de pessoas que queiram seu bem e que realmente entendam a sua condição, eu não acredito que o ser humano quer o mal um do outro, mas quanto maior o entendimento sobre a condição, melhor será suporte. Se as pessoas não sabem é seu dever informar, ninguém escolhe ser depressivo, mas ser ignorante sim.

Porém seja compreensivo, entenda que grande parte das pessoas querem seu bem, elas só não entendem muito bem o motivo de que você não melhora. Não estou dizendo que será fácil, vão ter dias que você se sente um merda e nada vai te fazer sentir melhor e as vezes as pessoas vão querer te ajudar, te dando um "empurrãozinho" tente separar seu teatro mental das boas intenções das pessoas.

Teatro mental é um termo que aprendi bem recentemente num curso de comunicação não-violenta, na instituição Palas Athena e eu recomendo muito. Este termo se refere ao esforço mental que fazemos para nos convencer de algo que não existe ou aparentemente só existe na nossa cabeça.

Como por exemplo:

Olá Diego, a gente marcou hoje, mas tô super enrolado, não vou conseguir. Tudo bem marcarmos para outro dia? Desculpas tá?

Quando se é depressivo, este simples pedido de desculpa soa de outra forma e a gente fica remoendo dessa forma

O que eu fiz? Por que está desmarcando? Desgraçado, certeza que está mentindo, ele deve me odiar. Também né? quem não odeia.

Também né? Quem não odeia

Esse tipo de pensamento toma uma força desproporcional e caímos em um efeito de ruminação, em que começamos a nos por para baixo e nunca mais conseguimos sair. Se permita errar, se permita sofrer, só não deixe isso ser o seu estilo de vida. Você, nesse processo todo, vai acabar magoando umas pessoas, mas entenda que você não é responsável pelo sentimento de ninguém, você pode ser um estímulo, mas só quem sente é o outro. Se um dia errar, viva com a responsabilidade das consequências, não com a culpa, pois a culpa é um lugar comum que vai te fazer voltar a sofrer.

E dada hora, voltam os pensamentos suicidas, não por que você quer chamar a atenção, mas por que, de algum jeito, você quer que tudo aquilo, que aparentemente nunca vai parar, pare.

Mas quando isso vai parar?

Não posso te falar que vai parar, com tratamento adequado a gente vai melhorando um pouquinho de cada vez. Existem dias que são piores, nós queremos abandonar o tratamento, pular da ponte. Não precisa ser assim. Por mais que sua cabecinha fale que você não tem valor e o mundo vai ser melhor sem você, não acredite nela. Sei que é difícil, mas não é impossível.

Clinicamente não há consenso, ao que tudo indica a depressão pode ser tratada e estabilizada, mas dificilmente curada. Quanto antes a gente procura ajuda, melhor é o resultado do tratamento. Existe uma jornada de auto-conhecimento que a terapia ajuda bastante, vamos descobrindo gatilhos, motivações, mas isso não necessariamente se reverte em cura, apenas em um entendimento e ferramentas melhores para lidar com a situação. Hoje eu ainda tenho pensamentos suicidas, mas eles não são mais diários e intensos como costumavam ser.

Tem muitos dias que eu não vejo solução e acho que nada vai melhorar, hoje eu entendo que é a doença falando por mim e que eu preciso dar voz a minha razão, é mais fácil barrar esses sentimentos quando sabemos da existência da condição.

Conhece alguém assim?

Ofereça seu apoio, é fundamental que exista uma rede que apoie a pessoa com esse tipo de sentimento. Não é fácil, o depressivo consome muito do seu tempo e da sua energia e ele sabe disso. Comece se informando e oferecendo caminhos, fale sobre a CVV, centros de apoio, não jogue a culpa para a pessoa.

CVV faz um trabalho reconhecido para a prevenção do suicídio, a ligação é gratuita no número 188 e você também pode acessar o site deles https://www.cvv.org.br/

O catraca livre fez uma lista bem completa também

Em São Paulo algumas faculdades oferecem atendimento gratuito ou a baixo custo como a USP, UNINOVE e FMU

As vezes parece que é difícil e que nada vai dar certo, tem dias que você vai querer desistir, mas sempre vai existir alguém para te ajudar.

Se você chegou até obrigado pela paciência e compreensão e queria agradecer às pessoas que estiveram do meu lado e me apoiaram nestes momentos, amo cada um de vocês e obrigado por não desistirem de mim.

Diego Rezende

Written by

UX Designer, ranzinza e fã de Raça Negra.

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