Eu também posso

Sabem como quando o assunto é medicina ou química as pessoas supervalorizam a opinião de um profissional da área mas quando passamos ao campo das humanidades todo mundo acha que a sua opinião vale tanto quanto a de um livre docente em sociologia? Pois é, vou me valer disso pra emitir umas opiniões loucas aqui.

A ideia é tentar entender o processo histórico que nos trouxe até aqui (não, não sou historiador nem entendo de nada do que eu to falando, mas isso aqui é a internet então eu posso sair dando opinião, né? Mas sei que tenho amigos que entendem do assunto e podem vir aqui me expor na internet depois dizendo as merdas q eu falei, agradeço desde já).

Vamos lá

Então era uma vez os baby boomers, nascidos de gerações militares, comemorando a vitória sobre o mal, criados com disciplina, com um claro modelo de vida a viver, você nascia sabendo seu papel na sociedade, aí essa galera começou a ter filhos e esses filhos como tinham estabilidade econômica garantida começaram a se importar um pouco menos em trabalhar e constituir família aos 16~17 anos, nascia o fenômeno hoje conhecido com “juventude”.

Só que as coisas meio que saíram das rédeas e a galera ficou muito rebelde, nasceram vários movimentos artísticos e históricos que moldaram nossa visão de mundo de certa forma. Então essa galera (os hippies, por exemplo) teve filhos, e esses filhos cresceram com avós “família tradicional brasileira” e pais “desconstruidões da porra” o problema é que esses pais as vezes não tinham estabilidade financeira, emocional ou institucional e levaram esses filhos a se espelharem nos avós, criando mais uma geração conservadora (pelas minhas contas estamos aí pela década de 1970).

E uma nova geração de conservadores teve filhos que podiam se dar certas liberdades artísticas e filosóficas pq o papai e a mamãe podiam pagar a faculdade, só que com esse pessoal aconteceram umas coisas muito doidas, a primeira é que não tinha mais guerra, a guerra fria já estava congelando e os EUA conseguiram manter suas braguilhas mais ou menos fechadas por um tempo, então não havia grandes causas de paz mundial pra essa galera se unir e lutar, então só havia um campo de revolução disponível, pra dentro, houve todo um revival do antropocentrismo, e a galera foi esquecendo que dividir com o coleguinha é mais divertido, esquecendo que as grandes conquistas da humanidade em qualquer tempo foram sempre coletivas e o grande Deus não era outro senão EU.

Atrelada a isso a finalmente conquistada hegemonia mundial do capitalismo que ensina que a luz do sol é limitada e eu preciso fazer de tudo pra conseguir meu lugarzinho senão eu morro de fome, pq a pessoa do meu lado não é meu colega de trabalho, é meu inimigo, e por aí vai. Então a gente tinha uma galera que era pra ser liberal, mas tava ocupada demais olhando pro próprio <strike>umbigo</strike> bolso.

A próxima geração, aí acho que chegamos na minha, nascida ali pelos fins de 1980, começo de 1990 chegou aqui no mundo perdidaça, pq não sei se vocês notaram o vai e vem histórico descrito onde de uma geração conservadora surge uma mais liberal e vice-versa? A gente chegou em um momento de mistura, os nossos avós eram conservadores, e os nossos pais eram economicamente liberais, mas ideologicamente conservadores porque foram criados dentro de uma forma pra ensiná-los que a vida era assim e assada e vc precisava estudar incessantemente e depois trabalhar pra conquistar seu lugar ao sol, senão você ia morrer de fome.

E os nossos pais ficaram tão encegueirados com trabalho, trabalho, trabalho que a gnt cresceu meio que criado pela TV Cruj, pelo Pica Pau e pelo Perna longa. E não sabemos exatamente qual o nosso lugar no mundo, pq a gnt já se tocou que isso de trabalho, trabalho, trabalho não é exatamente bom pra saúde, tanto que a epidemia de problemas psicológicos que nós temos começou com nossos pais que ou já tinham ou nos causaram.

No meio dessa sopa, dessa mudança de época, surge o que é provavelmente a coisa mais importante na história da humanidade depois do fogo, essa mesma que estamos usando aqui, a internet. Não é que o ser humano não fosse escroto antes, sempre fomos, mas é que agora a gente pode achar gente que é escrota igual, que pensa as mesmas besteiras e a gente pode trocar uma ideia sobre isso e descobrir maneiras de ser ainda mais escroto. E a internet, sobretudo o Mr Zuckerberg, nos ajuda a otimizar esse processo criando bolhas de conteúdo onde eu só leio gente que pensa igual a mim e acabo achando que o mundo todo pensa como eu menos aquele grupo de mortadelas/coxinhas ali do outro lado que eu vivo me engalfinhando sem saber porque.

[eu tô muito perdido a essa altura, eu ia escrever sobre música e sobre política partidária, mas vamos lá]

E tudo isso traz umas consequências bem ruins, porque nós temos uma série de pessoas jovens, que não sabem exatamente seu lugar no mundo, cheia de doenças e transtornos que, ao mesmo tempo que quer gritar e mudar o mundo e deixar sair uma veia artística que agora tem muitos mais meios de se expressar só consegue pensar em terminar a faculdade pra poder ter aquele famigerado lugar ao sol porque aprendeu com seus pais que a vida é pra ser assim.

Junte isso tudo a uma estrutura acadêmica capenga e insalubre, a uma sociedade que vê as relações de trabalho de formas que ignoram completamente a construção histórica da classe trabalhadora e nós temos mó galera defendendo Trumps e Dorias que sempre usaram a máquina do governo pra explorar o povo e ficar rico sem fazer nada.

Não sei se era bem isso o que eu queria escrever, mas tá aí, que comecem as pedradas.

PS: antes que alguém venha dizer que Doria e Trump não eram políticos procurem as atividades das empresas deles, e procurem na internet a definição de Lobby.

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