Kafka

Quando era pequeno eu tinha muita insônia, do tipo de passar a noite acordado porque o tique-taque do relógio era muito alto e me incomodava (e havia relógios em todos os cômodos da minha casa, hoje eu paro e me pergunto: por quê?) ou de precisarem pegar um pouco do diazepam que minha avó tomava pra me darem pra ver se eu dormia.

Uma solução que eu finalmente achei foram os livros, eles me ajudavam a dormir, lia um pouco toda noite, a maioria eram paradidáticos distribuídos na rede pública da minha cidade em coleções com um livro de cada tipo, geralmente: contos, poesias, ensaios, novelas e teatro ou alguma outra coisa. (Foi daí que eu aprendi que o que a gente normalmente chama de “post” ou de “texto da internet” como a maioria do conteúdo aqui desse site mesmo são na verdade (pequenos) ensaios).

http://saibahistoria.blogspot.com.br/2010/07/o-vampiro-que-descobriu-o-brasil.html

E dentre os muitos livros havia clássicos como Alice no País das Maravilhas, Os miseráveis, Os três mosqueteiros (descobri anos depois que a maioria desses eram calhamaços enormes e não os pequenos volumes de 100 paginas transpostos pra uma versão infantil bem reduzida que eu lia), e alguns nacionais também que estão entre meus preferidos até hoje como O Vampiro que Descobriu o Brasil de Ivan Jaf e as inesquecíveis histórias d’Os Karas de Pedro Bandeira — A Droga da Obediência, A Droga do Amor, O Anjo da Morte foram os que eu li, inclusive preciso ir atrás dos outros pra ler.

Mas, como o título sugere, queria falar sobre um do Kafka, A metamorfose (ou pelo menos a versão adaptada que eu li), aproveitando aqui o ensejo pra agradecer a Bortolini pela ideia de escrever isso aqui graças a uma tirinha que eu vi no twitter dela (no final eu ponho a tirinha).

https://www.estantevirtual.com.br/busca?q=Franz+Kafka+A+Metamorfose+Literatura+Em+Minha+Casa

Pra quem não conhece a história, em suma, ela é sobre um cara normal que vai dormir e acorda uma barata. Exatamente, é um cara que vira uma barata gigante. Agora eu sei que a internet tá cheia de gente explicando como isso é uma metáfora pro ser humano que vai se transformando e blá³, o enfoque que eu queria dar aqui, usando o livro de pano de fundo é o povo brasileiro.

Vejamos, esse é o país onde as pessoa já foram às ruas pra não tomar vacina, é o país que já teve todas aquelas revoltas que a gente estudou na 5a série e lembra mal do nome como Cabanagem, Balaiada, Farroupilha, Inconfidência, resistimos bravamente a uma dura ditadura militar com incontáveis mártires, ou seja, a gente não é exatamente um povo morto que vai deixando as coisas serem tiradas da gente sem lutar. Pelo menos não era.

Entretanto faz mais de 20 anos que não fazemos nada de fato, mas um movimento grande mesmo, a última vez foi o impeachment do Collor e antes disso as Diretas Já. Talvez você pense: Mas e julho de 2013? De fato, foi bonito, tinha muita gente, mas eu te pergunto, conquistou o que? A passagem não aumento, naquela época, e agora? Será que o serviço melhorou a ponto de aumentar quanto aumentou? Aqui em Manaus eu sei que não. (Se por algum motivo da vida vc é de fora de Manaus e tá lendo isso aqui responde aí embaixo se na sua cidade melhorou).

Então o que será que aconteceu? Como se deu essa nossa metamorfose? Quando adquirimos sangue de barata?

Algumas teorias existem, por exemplo, falta um Jesus na história, uma grande figura carismática que inspire as massas a promover a mudança, o povo gosta de seguir alguém. Mas nós vivemos uma crise de representatividade sem precedentes, em todo tempo houve alguém em quem a maioria acreditava, agora não, agora temos uma metade capenga endeusando o Bolsonaro, a outra metade capenga endeusando o Lula, as duas metades se odiando e no meio uma galera que sabe que no momento nenhum dos dois é o que o Brasil precisa.

Ninguém acredita mais na política. Sério, pode procurar pesquisas aí perguntando se as pessoas acreditam em algum oficial eleito. E pior ainda: os jovens não querem saber de política. A maior força transformadora, quem sempre deu a cara a tapa não quer nem ouvir falar em política.

O movimento sindical não morreu, mas está internado na UTI em estado gravíssimo, se passar o fim da contribuição obrigatória no Congresso acho que os seus dias estarão contados. O movimento estudantil não morreu, só resolveu mudar de ramo de atuação sem avisar ninguém, os interesses dos estudantes não poderiam estar mais distantes da realidade do movimento hoje que só serve pra cooptar estudante secundarista e ensinar a universitário que “o/a líder do nosso partido é uma íntegra, honesta e vai acabar com a corrupção e vai salvar o mundo”.

Volta e meia nós vemos ainda protestos eclodindo pelo país, seja batendo panelas ou dançando ciranda. Mas quais os reais interesses de quem os organiza sempre fica meio obscuro. De um lado Fora Temer, do outro Fora Lula, mas fora eles entra quem? Nessa hora só os fãs do Bolsonaro se pronunciam, percebem o perigo disso? A gente acha que o povo não é capaz de eleger idiotas, mas olha os Estados Unidos lançando moda.

E o mais complicado disso tudo é que a classe política inteira está dentro do esquema, e pelo menos mais umas 2 ou 3 gerações, já que o Brasil nunca deixou de ser dividido em capitanias hereditárias e o que mais tem nas listas da Lava Jato são pais e filhos.

É extremamente interessante pra eles o nosso desinteresse pela política, porque a gente não pode ter esperança, tem que aceitar que é isso que tem pra hoje e acabou-se, a eleição aqui no Amazonas vai ser entre Amazonino, Eduardo Braga, Omar e/ou seus respectivos laranjas. Mas não devia ser.

Queria ter uma solução pra colocar aqui, mas se eu tivesse já teria feito algo, enquanto isso vamos pensando juntos e juntas que uma hora sai alguma coisa.

A outra teoria eu vou deixar pra outro dia ou isso aqui vai se alongar demais.

Conforme prometido, segue a tirinha:

por @aiturrusgarai pic.twitter.com/VQKQ1fHjKj em @depositodetiras
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