Rótulos
Eu deveria fazer umas pesquisas mínimas pra falar boa parte das coisas que vou falar aqui, citar algumas referências, aqueles hábitos saudáveis que nos ensinam quando aprendemos a escrever cientificamente, entretanto este não é um texto científico, nem tem a pretensão de sê-lo. Então vou falar tudo da minha cabeça mesmo, acreditem, eu devo ter lido isso tudo em algum lugar.
Um dos grandes fatores de sucesso evolutivo da nossa espécie é a linguagem, todas as espécies se comunicam usando as mais variadas formas de comunicação, desde sons em frequências que não conseguimos ouvir, cheiros que não conseguimos sentir, ateeeeeee a Doooooryyyy falaaaaaaandoooooo emmmmm baaaleeeeiiêêêêêsssss nos cinemas, mas a nossa forma de comunicação é muito mais complexa e talvez por isso mais eficaz.
Nossa capacidade linguística facilita muito o processo de comunicação porque podemos transmitir conceitos inteiros e ensinar várias coisas de maneira muito rápida, enquanto peixes precisam de gerações e gerações de evolução pra entender que comer pepino do mar não é uma boa ideia nós só precisamos que uma pessoa coma e outra veja e essa outra espalhe a notícia, assim todos ficam sabendo que pepino do mar faz mal.
Uma das bases da comunicação humana é a criação de rótulos, que são como caixas que a gente cria pra colocar determinadas informações dentro pra que nosso cérebro as manipule mais facilmente. Quando ouvimos a palavra “família” por exemplo, nosso cérebro faz uma busca nessas caixas e ao encontrá-la e abri-la nós lembramos imediatamente do que significa aquela palavra, desde o dicionário até as nossas próprias experiências subjetivas com aquele conceito.

Essa capacidade se mostrou tão útil que a gente criou mania de rotular tudo, isso é uma maçã, aquilo é um cachorro, aquilo é um casamento, bonito significa isso e aquilo, e por aí vai.
E nisso de rotular tudo, categorizar tudo, reduzir tudo a uma caixinha cheia de informações pré-estabelecidas acabou deixando a gente meio robótico, tirou um pouco da nossa capacidade de nos maravilhar com as coisas (eu acho, pelo menos).

Nesse processo de rotulação, por exemplo, a gente aprendeu que existe uma caixinha rotulada “pessoas normais” e seu conteúdo varia um pouco de lugar pra lugar, por exemplo, se você nasceu numa cidadezinha de 3 mil habitantes na fronteira com a Argentina na sua caixinha de “pessoas normais” tem alguém provavelmente: branco, heterossexual, cristão, que fala alemão ou italiano, etc.
E esse rótulo é extremamente complicado, porque tudo que não está nessa caixinha passa a ser abominável, errado, feio, ANORMAL, e a gente passa a discriminar, porque odiamos tudo o que mexe com as nossas caixinhas, porque dá trabalho mexer no seu conteúdo, ou criar uma nova caixinha depois de uma certa idade, e a gente odeia ter trabalho.
Até porque não somos nós que organizamos as nossas caixinhas conscientemente, a gente vai recebendo elas fechadas e rotuladas das pessoas a nossa volta conforme vamos crescendo, nossos pais nos entregam algumas, nossos amigos da escola nos entregam outras, nossos professores outras e assim vamos preenchendo nossa coleção de caixinhas e vamos também fazendo cópias delas e entregando pras pessoas a nossa volta, as caixinhas são como O JOGO (inclusive perdi, e vc tbm*), elas querem se espalhar por todo o mundo, querem que todas sejam iguais.
O grande problema é quando a gente começa a abrir essas caixas e ver que nelas tem coisas demais ou de menos ou simplesmente coisas que não gostamos. Me entregaram, por exemplo, uma caixa escrito “Menino” e lá tinha uma bola de futebol, a cor azul, luvas de boxe, um pedestal pra eu colocar o meu pênis, entre outras coisas. Eu não gosto dessas coisas. Mas também tinha coisas que eu gosto, tinha ferramentas, tinha um coração, tinha amigos, tinha cerveja, tinha uma moto lindona.

R: Nada
Eu não podia jogar a caixinha fora, porque aí não teria onde guardar as coisas legais, mas poderia sim jogar as coisas chatas fora, eu não preciso delas mesmo, inclusive fazer isso abriu espaço pra eu colocar outras coisas lá dentro e isso foi muito legal.
Fiz e faço constantemente o mesmo processo com as caixinhas que tenho, muitas delas estão com os rótulos meio riscados, outros estão rasgados, algumas nem rótulo tem ainda, é meio bagunçado as vezes mas eu garanto: é bem mais legal que ficar carregando aquelas caixas cheias de coisas inúteis e pesadas e ter que ficar me encaixando nos rótulos alheios.
Questionem suas caixinhas, abram, vejam cada coisa que tem dentro, limpem, se for preciso trocar o rótulo, troquem, ninguém é obrigado a viver com o rótulo alheio.

“Nem todos de nós fomos criados para a grandeza, mas todos nós temos senso. Utilizai-o. Pensai. Pensai muito e pensai bem.”
Richar Llewellyn

