O acordeon dos Cárpatos

[Este é de 2007, na época em que eu arriscava contos. Como se vê, não foi à toa que parei.]

Pode muito bem ter sido minha culpa, distraído que sou. Mas ele não deve ser muito melhor do que eu. Artista, ora. Eu estava concentrado na revisão de algumas anotações de meu caderno; ele, em encaixar o fecho de seu acordeon. Eu me encaminhava para subir no vagão; ele, para descer. Ambos de cabeça baixa e pensamento distante. O resultado não poderia ser outro. Um choque, e fomos ambos ao chão. Antes que nos recompuséssemos, o condutor ordenou o fechamento das portas e partiu.

Cada um sentia sua parcela de vergonha. Pedíamos desculpas um ao outro. Minha caneta foi parar nos trilhos, nem pensei em buscá-la. Na queda, o fecho mal encaixado do acordeon se abriu, produzindo o som característico de uma sanfona sem comando. E do bolso daquele homem de faces arredondadas e bigodes viçosos caiu uma quantidade indigitada de moedas, que se espalharam pela plataforma escandalosamente.

Por sorte, havia pouca gente na estação. Ninguém desesperado por um trocado caído dos céus. Coloquei-me de joelhos e ajudei o homem a recolher suas moedas. Ele me agradecia sem cessar a seqüência de pedidos de desculpas. Estava afogueado. Devia ter mais de sessenta anos e pouco hábito de dobrar o corpo.

A quantidade de moedas chamou minha atenção. Certamente, o valor acumulado não era desprezível. Parecia, como se diz, que ele tinha assaltado a sacola de oferendas de uma igreja. Quando lhe estendi minha parte do bolo e ele o enfiou no bolso interno da jaqueta, o tilintar foi grave e sumário. Ele, ainda rubro do esforço, agradeceu com uma espécie de reverência e pediu desculpas, mais uma vez, pelo incidente.

Para esperar pelo próximo trem, que só passaria dali a três minutos, ele se sentou no banco mais próximo. Era um desses músicos que ganham a vida nos tubos do metrô. Mas eu jamais pudera imaginar que os rendimentos fossem tão altos. Enquanto ele, cansado, ofegante, inclinava a cabeça sobre o peito, perguntei-lhe se as contribuições dos passageiros valiam a pena de subir e descer dos vagões a cada estação. Com uma humildade que me pareceu ligeiramente estudada, ele respondeu que, às vezes, valia mais; às vezes, menos.

— Hoje, parece que valeu mais — , observei.

— É, está sendo um bom dia.

E sorriu. Era evidente seu esforço para ser modesto.

— Gosta de música?

Respondi que sim, gosto muito, e ainda arrisco alguns chorinhos no violão. Confessei uma certa vontade, mal disfarçada, de fazer o mesmo. Circular pelo metrô tocando Pixinguinha e Paulinho da Viola para fazer um trocado. É meu prosaico desejo, fruto de um romantismo juvenil.

Contei-lhe que sou brasileiro, e ele sorriu. Gosta de futebol, conhece Ronaldo e algum outro jogador, desses que saem jovens do Brasil e ninguém sabe mais o nome. Perguntei-lhe sobre sua origem. Estava claro que não era um local.

— Sou ruteno.

E apressou-se em explicar.

— Dos Cárpatos. Conhece os Cárpatos?

Só de nome. Uma dessas cadeias montanhosas do leste europeu, de que só ouvimos falar em livros antigos. Desenhando um mapa imaginário suspenso no ar, ele localizou as montanhas:

— Polônia, Eslováquia, Ucrânia, Romênia… conhece esses países?

— Só de nome — , confessei, sorrindo amarelo, encabulado.

Com um misto de orgulho e nostalgia, ele me contou que tocava a música de sua região, onde fora criado a subir e descer escarpas, fugindo das obrigações escolares para pular de aldeia em aldeia, em visitas regulares aos músicos mais velhos. Com seus mestres, aprendera melodias inventadas por povos já extintos, atropelados pelas invasões e conquistas que os séculos impuseram àquelas terras.

— É um patrimônio valiosíssimo. O que guardo gravado nos dedos não tem preço — , sentenciou, solene, cravando os olhos nas palmas das mãos.

Havia alguma tristeza no fundo de sua voz. Quis lhe perguntar o que era, mas não foi necessário.

— Meu povo — explicou — parece condenado à escravidão. Estivemos submetidos à Áustria, à Hungria, à Alemanha, à Polônia, à Rússia. Mesmo hoje, não somos independentes. Nossas terras estão divididas entre vários países. Somos considerados inferiores por todos. Escravos, indignos. É como se nem existíssemos.

Aos poucos, começou a contar mais sobre sua vida. Fugira das montanhas de sua gente com mulher e três filhos, vinte anos atrás, quando um inverno particularmente frio causou uma série de nevascas que devastaram o povoado em que vivia. As autoridades soviéticas, então controladoras do território, viraram as costas para aquela gente desprezível. Preocupavam-nas mais os grandes pontos estratégicos da geopolítica.

A chegada à França não seria mais fácil. Sem documentos, sem dinheiro, sem conhecer nenhuma língua que não fosse a própria. O contato com os irmãos, espalhados pela Europa, até pelo mundo, se perdera por inteiro. Os pais morreram pouco mais tarde, atingidos por outro ano de terríveis nevascas, e mais uma negligência talvez proposital do governo — dessa vez, de uma das novas repúblicas surgidas da queda da Cortina de Ferro.

— Hoje, meus filhos são grandes — contou, tentando sorrir. — Estudaram na universidade. Trabalham. Falam francês e inglês, mas mal conhecem minha língua. A única ligação que me restou com meu povo são essas músicas que toco no metrô. Quando venho, toda manhã, tocar para os passageiros, é claro que estou pensando no dinheiro. Mas não é só isso. Entende? Estou espalhando um pouco do meu sangue pelo mundo.

E voltou a seu silêncio. O placar começou a piscar, avisando que o próximo trem chegaria em menos de um minuto. Embarcaríamos juntos. Eu teria a oportunidade de escutar as melodias de seus ancestrais. Enquanto isso, apenas o encarava, observando os cabelos grisalhos, a pele grossa e enrugada, mas de ar saudável, os sapatos negros que pediam por um engraxate. O acordeon parecia tão velho quanto o homem. Pus-me a especular se não teria vindo com ele quando emigrou.

Meus pensamentos foram interrompidos.

— Você perguntou se minha música rende bem no metrô. — Aproximou-se, baixou a voz, em modo de cumplicidade — Escute, essas melodias não são apenas antigas. Acredite em mim.

Dizendo isso, pôs-se de pé e me encarou. Sério, mas sereno e amistoso. Com um gesto brusco da cabeça, indicou que o trem se aproximava.

— Vamos embarcar, que tal?

Segui-o até a beirada da plataforma. Pouco adiante, lá embaixo entre os trilhos, minha caneta e algumas de suas moedas, brilhando como símbolos de nosso esbarrão. Ele vestia uma jaqueta verde, de inspiração militar, puída nos ombros. E, como não poucas pessoas em Paris, exalava o cheiro das idas e vindas constantes.

O trem chegou, alguns passageiros de olhar duro desceram, atravessaram nossa vista e partiram em passo apertado. Entramos quando já soava o fechamento das portas. O vagão não estava lotado, mas havia poucos assentos livres e algumas pessoas de pé.

Com um gesto da mão, o músico sugeriu que eu me sentasse. Obedeci, sem tirar os olhos do acordeon. Calmamente, enquanto o trem se punha em marcha, ele o desatou, saudou o público e, dos dedos grossos, mas ágeis, emitiu as primeiras notas.

Não foram necessários mais do que quatro ou cinco compassos para que eu sentisse todo meu corpo começando a tremer. Como classificar aquelas cadências, a melodia, as modulações? Não sou capaz. Mais forte do que a algazarra da marcha no túnel, a celebração musical daquele instrumento, daquela pessoa, vibrava pelo ar pesado do vagão e não deixava incólume a alma encaixotada de nenhum passageiro. Todos se deixavam dominar, cândidos. Tinham os olhos vidrados no sacerdote dos Cárpatos.

Estranhamente, a música não parecia sair daqueles dedos. Era como se brotasse do chão, dos assentos, das alças em que os viajantes se seguravam. Em alguns olhos, já se podiam flagrar as lágrimas que brotavam. Não demoraria a acontecer o mesmo comigo. Meu corpo amolecia, acompanhando os movimentos espectrais das notas.

Não havia um instante sequer de repouso na intempérie dos acordes. Em poucos segundos, entre uma estação e outra, acompanhei o mundo que se desmanchava como um líquido espesso e se reconstruía, inteiramente diferente, mais belo e místico, por um golpe de mágica.

Subitamente, a música se interrompeu. Em pleno acorde diminuto. Tive a impressão de que o ambiente todo escurecera, mas sei que era só o silêncio. Ninguém falava, ninguém esboçava um movimento. Estariam enfeitiçados? Mesmo o barulho do trem parecia menos violento, quase harmonioso.

O músico caminhava lentamente pelo corredor, recolhendo as contribuições. Pela primeira vez em minha memória, vi que todos os passageiros davam qualquer coisa; moedas de bom valor, até cédulas. O bolso da jaqueta engordaria ainda mais.

Ele se aproximou de mim, olhos apertados, sorriso largo. Ainda tinha um certo rubor no rosto, como o dos beberrões. Piscou discretamente.

Sem planejar, sem controle sobre meus movimentos, levei a mão ao bolso. Já ia puxar a carteira, quando um gesto seu me interrompeu. Eu queria lhe dizer que jamais ouvira aquilo antes. Que gostaria de ouvir mais. Não saiu nada. Talvez ele tivesse monopolizado o direito ao som.

O trem parou, a porta se abriu. Eu ainda queria falar, mas não conseguia. Muitas pessoas entraram, poucas saíram. O músico ruteno, ainda sorrindo, fez novamente uma ligeira reverência em minha direção, a que respondi erguendo a mão espalmada, provavelmente boquiaberto. Com isso, ele virou as costas e partiu. Entraria no vagão seguinte, poucos metros adiante, para enfeitiçar outra platéia e engordar o bolso da jaqueta.

Logo que o homem sumiu da minha vista, o aviso soou, a porta voltou a ser fechada, o trem partiu. Os passageiros retomaram suas conversas, seus olhares baixos, suas vidas. A algazarra ganhou de volta sua violência implacável assim que se dissipou a vibração da melodia eslava. Nesse instante, lembrei-me de que aquele atraso de três minutos era suficiente para me causar um problema.

Comecei a formular explicações e desculpas, afastei da mente a melodia dos Cárpatos, aquela cadeia montanhosa do outro lado do continente, de que só se encontra referência nos livros antigos. A poucos metros de distância, no vagão seguinte, divisei com dificuldade o som de um acordeon que começava a soar. A música enfeitiçada já penetrava em outras almas. Fechei os olhos, fiz esforço para escutar, e não pensei em mais nada.