Foto da Campanha Jovem Negro Vivo — Anistia Internacional

Exagerado!

Hoje eu li no Facebook que eu “via racismo em tudo” e que “o preconceito estava mais na minha cabeça do que na dos outros”. Pois bem, como discordar?

Demorou muito tempo para que eu soubesse o que significava ser negro, estar negro nessa sociedade e o fato de que não importasse o que eu me tornasse, carregaria comigo, pra sempre a marca de ser negro. Não que isso seja ruim pra mim. Amo me reconhecer negro e entender quem eu sou a partir disso.

Preciso concordar com minha interlocutora com o fato de que eu vejo mesmo racismo em tudo, e não que eu seja transtornado ou obcecado nisso, mas pelo fato de que o Racismo está mesmo em tudo. Em todas as nossas relações, em todas as nossas estruturas, nos significados, nos discursos, na construção dos espaços, dos símbolos, das personalidades.

Eu gostaria de viver em uma sociedade sem racismo, em que as pessoas não fossem massacradas pela cor de sua pele, que elas não fossem invisibilizadas ou que não fossem consideradas cidadãs de segunda classe. Eu queria “desver” o racismo. Queria conversar sobre o sol, as árvores, sobre a próxima viagem a Paris, queria planejar os cruzeiros do próximo verão. Mas não posso.

Enquanto escrevo este texto um jovem acaba de ser morto na Cidade de Deus, estava em casa e foi atingido com um tiro na cabeça. Como favela é lugar de pobre e de pobre preto, lá na favela é permitido atirar pra todo lado, sem parcimônia, já que vivem ali cidadãos de segunda classe. Ainda enquanto escrevo, mais jovens negros vão morrer nos outros estados de nosso país. Eu acho um exagero que a cada 23 minutos um jovem negro seja morto no Brasil.

Acho um exagero que as crianças negras sejam desacreditadas nas escolas que frequentam, que para elas esteja preparado um futuro com inúmeras marcas de abandono, negação de sua identidade e de oportunidades. Acho um exagero mesmo.

Sendo assim, lamento muito que precise falar sobre racismo. Mas ele me atravessa, me mutila muitas vezes e até já foi responsável pela interdição da minha fala em alguns espaços. Mas não neste aqui. Por aqui vou falar de racismo sempre que der, sempre que puder e até que as nossas realidades sejam diferentes, pelo menos um pouquinho.

Se for por isso, prefiro ser exagerado.

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