Niguém deveria…

Morar na favela não é bom. Adoece, limita, cria cascas. Parece loucura que alguém, que se apresente diariamente com a alcunha de jovem, negro e favelado expresse um sentimento tão distante do orgulho de ser favela que carrega com o nome.

Mas, gente, vamos pensar? Se morar na favela fosse bom mesmo, nós, pretos/as, “subtrabalhadores/as”, “subeducados/as” e , muitas vezes, subalternizados/as não estaríamos lá.

Simples assim. Na nossa sociedade, o que é bom, na realidade, não deveria pertencer ao povo preto. Já parou pra pensar? A gente resiste, a gente sobrevive, faz das tripas coração, chora, sofre, ri, dança, mas está na margem.

Na margem do que poderia ser uma experiência de vida emocionante, construtiva e saudável. Ninguém deveria morar na frente de uma vala, atravessar pelo barro, lidar com traficantes e policiais ostentando suas armas, conviver com a morte violenta cotidianamente, ninguém deveria ser exposto no posto de saúde, ser maltratado na escola.

Ninguém deveria morrer de medo, andar assustado com o tiro das balas, ninguém deveria conviver com o lixo pela falta de coleta. Ninguém deveria ter medo das chuvas, Todo mundo deveria ter uma vista bonita ao acordar.

Tudo que deveria ser direito foi transformado em privilégio, e os privilégios são dos brancos por direito. De onde veio isso?

É claro que a gente não parou, que a gente procura saídas todo dia, que a gente faz coisa bonita na favela. Tem poesia, tem música, tem cor, tem igreja, tem memória, tem intelectual, tem ideias inovadoras.

Tem de tudo na favela. Mas tem distâncias. Tem chegar do mercado e compartilhar a kombi lotada, depender do carreto, tem recusa no táxi — vai subir a comunidade? -, tem generalização. Essas e um tanto de outras coisas que não deveriam existir.

Tem trabalho de monte sem diversão, tem sonho roubado, tem bala perdida, tem solidão. Morar na favela não é bom. Adoece, limita, cria cascas.

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