O Cigarro da Madrugada


Já era madrugada, e ele andava apressado. O barulho dos seus passos só competia com o roçar das pernas da calça jeans surrada. Nem mesmo barulhos de carros havia naquela noite.

Ele gostava assim. Apesar de estar na rua, num lugar público, era ali que se sentia mais à vontade. Estava livre do trabalho, e livre das preocupações do apartamento. Sua cabeça estava livre.

Virou a esquina, e acendeu um cigarro. O tempo que ele levava entre a esquina e a entrada do prédio era o tempo exato de acender um cigarro, fumá-lo e jogar fora na lixeira antes da porta. Desacelerou o passo. Ele já estava chegando, e gostava de olhar para o céu da sua rua.

Passou os olhos pelas varandas, e parou em uma. Uma moça sentada na sua varanda, fumando um cigarro. Ele já a havia visto diversas vezes, quase toda noite. Mas normalmente, ela estava acompanhada, por alguém que ele julgava ser o namorado, ou no máximo noivo. Não devia ser marido, pois ela era nova, não parecia ter filhos (pois eles nunca estavam na varanda). E fumava até tarde na varanda, o que lhe fazia pensar que ela não se preocupava em dar o exemplo a ninguém.

Ele diminuiu ainda mais o passo, e se pôs a pensar no que teria acontecido à moça. Talvez eles tivessem terminado, e ela estaria nesse momento mais triste do que de costume. Talvez ele esteja viajando.. Pode ser que ele não seja daqui, e tenha ido visitar os pais numa cidadezinha do interior. Ele pode ser algum grande empreiteiro, destes que viajam o país construindo shopping centers, e deixam a mulher/namorada/noiva em casa, esperando pela sua volta. Neste caso, ela não estaria tão triste, pois talvez já tenha se acostumado. E talvez ele traga algum presente bonito para ela, para compensar o tempo fora. A moça parecia bonita, e ele torceu para que ela gostasse de presentes caros e bonitos.

Ele parou, encostou no muro e acendeu outro cigarro. Seu passo estava excepcionalmente lento, e havia sobrado rua depois que o cigarro acabou. Ficou pensando no que passaria pela cabeça da moça, neste momento. Olhou fixo para a direção da varanda, e teve a impressão de que ela olhava em sua direção. Pensou se talvez ela gostaria de lhe dizer algo, de desabafar com alguém, ou de conversar. Mas já era tarde, ele precisava entrar. Ainda tinha que jantar, tomar banho, e dar um beijo na filha antes de dormir. E amanhã o dia começava cedo.

Apagou o cigarro pela metade, jogou na lixeira da porta do prédio e entrou.

­Da varanda, a moça fitou ainda a porta do prédio por mais alguns segundos, perdida nos pensamentos sobre a vida do rapaz que passava na rua fumando seu cigarro. Sentia uma ponta de pena, por ele ser tão sozinho. Será que ele tinha família? Para ela, devia ser um rapaz daqueles que mora sozinho, veio do interior sem nenhum tostão e trabalhava até tarde para crescer na vida. Tomara que ele encontre uma mulher bacana, que se orgulhe do esforço dele. E tomara que ele consiga o que quer, seja lá o que for. Ele parecia ser um rapaz legal. Hoje, ela tinha tido a impressão de que ele havia parado e olhado para a varanda dela, como se procurasse alguém para conversar, contar sua história e seus sonhos.

Ela se virou para dentro, e viu o relógio pendurado na cozinha; já passava da hora de dormir. Logo hoje, que ela deveria ter ido dormir mais cedo, ficou até mais tarde na varanda. Devia ter feito como o namorado, que tomou banho e foi dormir. Nem saiu pra fumar na varanda hoje.