Sobre voltar à origem
Sabe aquele lugar onde tudo faz sentido? Talvez.

Cada vez mais, me surpreendo com a magia que existe em acessar uma memória. Sentado no mesmo café de sempre, coloquei uma música (que já foi um sempre) para ouvir. Não sei por que, mas, enquanto vagamente recordava da letra, lembrei do caminho que me trouxe ao hoje. Tudo se resume em uma coisa: contar e ouvir histórias. (Sei que já escrevi sobre isso, mas é preciso voltar à origem).
Lá no início, eu brincava de escrever histórias. Mais à frente, fiz da fotografia um hobbie. Em seguida, gravar memórias tomou conta de mim. Hoje, sou um tremendo fuzuê disso tudo. Trilhar esse percurso, me enche de paz. Descubro que a origem é um lugar de segurança. Faz muito sentido olhar pra trás e entender cada peça desse quebra-cabeça. É a certeza de estar no lugar certo, misturado com a incerteza do que eu seria, se nunca tivesse escrito a primeira história. Não que essa incerteza me mova, mas é relevante pensar nisso. É o que, hoje, me faz não hesitar (muito) em começar algo que talvez seja apenas uma brincadeira.
Voltar à origem é começar de novo. Não saber onde se perdeu é normal. Saber onde tudo começou é fundamental nesse emaranhado. De repente você está na faculdade, arruma um emprego, entra em um relacionamento e tudo parece não ter mais sentido. É tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo que nem sabemos mais o porquê de fazer o que fazemos. É se sentir perdido mesmo em ambientes super familiares — como se não houvesse um sentimento de pertencimento. Voltar à origem é ter a humildade de começar de novo. Dar alguns passos para trás ao invés de cair se continuar tentando ir para frente.
Voltar à origem é sobre lembrar do que nos fez chegar até aqui. Não só das alegrias, mas também das dores e das frustrações. Todo caminho percorrido foi repleto de desafios e de escolhas difíceis, algumas (muitas) até erradas. Mas que serviram de aprendizado e, consequentemente, me fizeram amadurecer. As pessoas que passaram por mim, as cidades que visitei, as noites do outono e as tardes de primavera— tudo isso deixou uma mancha na minha história. Entendi que a vida é sobre experiências. Olhar para trás e traçar uma rota é esbarrar em memórias que alimentam a alma; é honrar aqueles que me impulsionaram.
Voltar a origem é olhar com esperança para o futuro. As coisas podem até está indo bem, mas tenho certeza de dias melhores. Há seis anos, jamais imaginaria viver tudo o que vivi. Nem a mais otimista parte de mim diria que essa seria minha jornada até então. Saber disso é olhar para um futuro de esperança. E é nisso que eu me apego quando nada parece dar certo. É engraçado que até um pé na bunda te empurra para frente (um amigo me disse isso uma vez). Ter esperança é não deixar os traumas, medos e ansiedades falarem mais alto, mas confiar que dias melhores virão; até hoje tem sido assim.
O ponto é que não importa em qual fase estejamos, lembrar da origem sempre alinha a visão. É um lugar onde, um dia, tudo fez sentido. Voltar ao começo não é sinônimo de fraqueza, é se orgulhar por ter chegado longe, mas ser humilde e reconhecer que ainda existe mais.
