Fechada para balanço

Passo por uma fase onde diariamente faço balanços sobre minha vida em todos os aspectos. Em especial, as relações próximas: pessoas que amo e fazem parte da existência diária. Posso contar nos dedos quantas são. Há algum tempo isso me incomodava, apesar de nunca ter admitido isso a ninguém. Eu pensava que para ter uma vida feliz e plena era necessário ter um bom leque de relações estreitas. O tempo ensina que não é bem assim. Que quanto mais relações estreitas você tem, invariavelmente você vai ter de prestar satisfações de sua vida a cada uma delas. É como se fosse uma regra social e silenciosa que pessoas ditas normais seguem. Nunca me encaixei nesse contexto de pessoa convencional.

Pessoas entram e saem de nossos dias numa velocidade que quando começamos a mensurar, assustamos. Há um tempo atrás eu era casada. Pensei que fosse para sempre, aí descobri que existe vida após a separação. Sim, o mundo é enorme e cheio de gente, não gira em torno de um só umbigo. Cada ser traz consigo uma lição. Foi assim que resolvi voltar meus olhos para quem quer que se aproximasse. Perdi muito tempo buscando encontrar algo que ME FALTAVA nos outros. Amei novamente algumas vezes em intensidades diferentes. Me entreguei sem pensar no depois, achando que a sensação de um momento arrebatador duraria para sempre. Fiz tudo o que tive vontade pois eu queria ver o mundo com meus olhos e o sentir utilizando de todos os meus sentidos. Tive gana de vida, como se a qualquer momento ela pudesse me ser revogada e a prisão perpétua novamente sentenciada.

Como toda euforia de novidade passa, em algum momento cansei de buscar e tentar usar os que não se encaixavam para tapar meus buracos. Cansei das pessoas ao redor que tanto barulho faziam e nada realmente diziam. Desejei fugir para me encontrar.

Assim fiz. Cortei relações de maneira não dita, me afastei. Cultivei poucos, transformei minha vida em um mundo à parte do mundo. Protegi esse mundo como uma bolha e às vezes saia dela para socializar. Sim, a gente sente falta de gente... Mas eram as mesmas que eu encontrava. Todos falando de si sem nada trocar. Eu ouvia, aprendia, até participava. Mas logo me recolhia. Cultivei um estado natural além do “normal”. Aprendi que certas coisas são como são e se você vai contra a natureza, só faz complicar. É dar voltas sem sair do lugar.

A gente precisa entender a própria existência. E antes de tentar entender os outros, conhecer a si.

Soa como frase de autoajuda mas o fato é esse. Aprendendo compreender como funcionamos e a cultivar amor próprio nos tornamos seletivos. Nos preocupamos com o tipo de ser que vai invadir aquele cantinho tão bonito, com tudo no lugar.

  • Será que veio para bagunçar?

Eu me vejo perguntando isso ao surgir alguém despertando esse desejo de carregar para dentro. No mundo que aprendi a deixar inteiro. Completo. Bastando a si sem precisar de algo externo.

É que às vezes a gente sente vontade de transbordar.

Se equilibra assim, abrindo o mundo pessoal a quem se faz especial e fechando para balanço quantas vezes precisar.

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