Por que escrevo?

Não sou capaz de recordar o nome do professor, apaguei da memória. Mas, veja só, me lembro muito bem de quando ele ensinou o que era palimpsesto: pergaminho que se escreve em cima do que já está escrito. Um exercício infinito de releitura. Isso eu guardei em negrito.

Talvez seja pelo fato da escrita ser a minha atividade. E não digo isso me qualificando como escritora. Sinto que escrevo constantemente. E o que seria a mente, senão palimpsesto?

Escrevo tanto que muitas vezes perco coerência.

Escrevo mal. Automaticamente, minha escrita beira a superfície da vida. Bem provável ela rascunhava, entretida, uma outra história que não estava ali.

Escrevo a mim mesma e tento interpretar as personagens que sou, os papéis que represento. Justifico, me protejo. Às vezes, minhas letras cavam um buraco e por lá fico.

Escrevo as pessoas que me cercam e vou criando os enredos de mim. Expresso o mundo que estou conhecendo e me surpreendo ao perceber leituras tão diversas as minhas. Quantas escritas incríveis há por aí!

Intercalo gêneros pra não faltar o que escrever. Pode o pergaminho ficar em branco? Posso um dia parar de escrever? Enquanto a existência de um significar ao outro, escrita haverá! E raspe o palimpsesto da morte pra resignificar a ausência.

Pergaminho branco só quando apago as misérias da vida. A borracha que limpa, às vezes fere. Mas continuo na paixão por ser.

Do grito descoberto, me descubro. Reescrevo. Reinvento.

Do choro mansinho, faço rima. Encontro poesia.

Rasuro meu pergaminho e escrevo de novo! Escrevo. Sou linguagem e símbolo. Escrevo por escrever. E pela busca de significar, escrevo.