Prosa e Poesia

A insustentável leveza de Kundera já dizia que as coincidências - se é que elas existem - são a beleza e a poesia da vida.

Foi bonito conhecer o Seu Astori numa daquelas manhãs de longas reflexões com minha amiga Júlia. Mais que o sorriso banguela, mais que a alegria simplória, e muito mais que o vendedor de serra d´água, milho e ovos, aquele véio negro foi a vida refletindo com a gente.

Em meio às cobranças de quem está começando, ele foi a calma de quem já viveu muito.

E em meio à correria daqueles que vivem no futuro, ele nos parou para dois dedos de prosa. “Ê meninas, cês tão aí na roda, né? Devagarzinho cês chegam lá! Um passo de cada vez. Vai uma serra d´água aí?”

Com uma história marcada por duas grandes perdas, Astori nos mostrou que a vida é agora: a mulher, depois da esperada aposentadoria, faleceu. O filho, depois de abrir o tão sonhado negócio, infartou.

Mas o véio continua seguindo. Com uma vida inteira de trabalho, Astori cria galinhas, patos, gansos, “de tudo um pouco” e vende seus produtos de bairro em bairro com um saco nas costas. Empreendedor, ele reserva um pouco do seu dinheiro para investir em mais galinhas - “mas tem que ser das caipira”.

Ele contou ainda, todo orgulhoso, que já ajudou a construir “esses prédio tudo por aí”. E compartilhou mais. Falou de uma vida com preocupações, desejos e conquistas muito diferentes das nossas.

Mas Astori chegou bem pertinho de nós. A ponto de ser o conselho e o consolo que precisávamos. Mais que uma prosa, com certeza nossa conversa foi poesia.

“Não pode parar, tem que perseverar”.

Para Júlia Dias e Seu Astori!