#04 Story of a Girl

Canadá, Estados Unidos, 2017. Dirigido por Kyra Sedgwick, escrito por Laurie Collyer e Emily Bickford Lansbury. Com Ryann Shane, Jon Tenney, Kevin Bacon, Sosie Bacon,Tyler Johnston.

Deanna (Shane) é uma adolescente que está terminando o ensino médio. Com o trauma do vazamento de um vídeo íntimo seu há alguns anos, ela não vê a hora de juntar dinheiro suficiente para sair da casa dos pais, com quem tem um relacionamento conturbado, e alugar uma apartamento junto com seu irmão, que mora no porão de casa com a namorada e uma bebê recém-nascida. Com uma premissa simples, mas relevante, uma vez que casos de vazamentos de vídeos íntimos ainda são frequentes na nossa sociedade, é uma pena que o filme se afunde em uma série de escolhas que não funcionam.

Em primeiro lugar, há pequenos detalhes que parecem não ter nenhuma função na narrativa, como uma fala em voice over no início do filme que nada acrescenta e que jamais volta a ser retomada, e o diário de infância em que a personagem escreve, que poderia ser facilmente excluído do filme sem prejuízos.

Além disso, há uma quantidade considerável de diálogos que soam falsos, além de cenas com personagens falando coisas sozinhos e dizendo o óbvio — a exemplo de quando o irmão é bruto com Deanna e ela comenta, para si mesma, “você soa como o nosso pai”.

Mas esses elementos poderiam ser minimizados caso o filme apresentasse coerência e boa construção de personagens, o que não é o caso aqui. Quase todos os personagens são apenas robôs que seguem o que a narrativa pede e não têm motivações claras. Tommy (Johnston), por exemplo, é retratado como um rapaz perigoso e abusivo, que provoca a protagonista apesar de ter sido quem a filmou junto com ele. Entretanto, ao longo do filme, ela volta a se interessar por ele, sem que o garoto demonstre nenhuma mudança de personalidade. Ao final, Tommy é retratado de uma forma positiva, como se tivesse passado por uma mudança que o espectador nunca vê.

Esse problema também ocorre com outros personagens e está ligado a uma revelação que, inexplicavelmente, acontece quase no fim do filme e põe em xeque todas as motivações de Deanna ao longo da trama.

Felizmente, há alguns bons elementos no filme. Ao retratar a escola, por exemplo, é notável a crítica à hipocrisia das instituições estudantis nos Estados Unidos quando a câmera mostra um pôster em que está escrito “bully free zone” no local onde a protagonista é abordada por “bullies”. E, se há um elemento que traz ótimos respiros para o filme, é o personagem (e a atuação) de Kevin Bacon. Consistente do início ao fim, o personagem é quem traz a mensagem mais importante do filme: a de que não adianta culpar o lugar onde você mora pelo que há de errado na sua vida; primeiro, você tem que encarar e aceitar a si mesmo(a).

Ainda assim, isso não é suficiente para salvar “Story of a Girl”. Com uma resolução fácil e abrupta, a sensação que fica é a de que o filme é construído em torno de uma reviravolta para surpreender o espectador. No entanto, o entorno foi tão deformado que nem isso funciona.

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