#06 Maudie

Canadá, Irlanda, 2016. Dirigido por Aisling Walsh, escrito por Sherry White. Com Sally Hawkins, Ethan Hawke, Kari Matchett, Zachary Bennett.

O filme conta parte da trajetória de Maud Lewis (Hawkins), a pintora canadense que sofria sérios problemas de artrite e que luta para se libertar da família até descobrir o seu talento. Entretanto, a obra peca pelo roteiro e pela direção de atores, que praticamente transformam os personagens em caricaturas, e por uma confusão quanto ao real protagonismo.

Hawkins retrata Maud utilizando um excesso de maneirismos e de movimentos não-naturais (que me fizeram lembrar Eddie Redmayne em “A Garota Dinamarquesa”). É uma pena que a atriz opte pelo exagero, já que coisas mais sutis, como o andar manco e a postura que vai se encurvando ao longo do filme, seriam suficientes para retratar os problemas de Maud. Hawke, por sua vez, garante a Everett uma personalidade forte, ao mesmo tempo que consegue revelar a presença de um grande sentimento de insegurança. Assim, é lamentável que ele também ceda a exageros, como na primeira cena em que aparece e se movimenta de maneira acelerada, incompatível com seu estilo mais fechado, apenas para demonstrar que é um homem bruto.

Se esses exageros afastam os personagens da realidade e os transformam em caricaturas, a falta de escolha de protagonismo prejudica o filme ainda mais. Maud é apresentada como a personagem principal, mas não sofre uma grande mudança ao longo do filme, exceto pela descoberta do seu talento com a pintura, que é quando a obra se torna mais interessante. Já Everett é quem passa por uma grande transformação, de homem bruto e metido a provedor a marido carinhoso que deixa o orgulho de lado e admite que a esposa tem mais sucesso que ele. Ainda assim, entramos tão pouco no íntimo de Everett, que ele se afasta do espectador, não podendo ser chamado, de fato, de protagonista.

O filme tem ainda outros problemas. Um é a passagem de tempo, que é retratada de maneira confusa e dá a impressão de que Maud ficou muito velha e muito doente de uma hora para a outra, quando, na verdade, isso é um processo que levou mais tempo. Outro problema é a obviedade. Se é interessante que os enquadramentos mostrem as personagens emolduradas por janelas e portas, criando “quadros” (uma clara referência à pintura), a sutileza se perde no plano final do filme, quando a voz da personagem preenche o som com uma informação óbvia que já havia sido dada mais cedo na história.

Ainda assim, dá para destacar elementos positivos, como as cores de roupas que Maud e Everett usam. Começando com tons mais frios, elas vão se direcionando para o avermelhando ao longo do filme, acompanhando a jornada emocional dos dois personagens e revelando o momento em que cada um começa a sentir amor de verdade pelo outro. Além disso, há cenas simples que revelam a situação dos personagens sem necessidade de diálogos óbvios, como quando Maud vai a uma festa e observa pessoas dançando juntas, enquanto ela está sozinha e isolada, ou ainda quando Everett está sentado dentro de casa, enquanto vemos diversas pessoas comprando quadros de Maud do lado de fora, o que deixa claro o seu desconforto.

Com um final que dá a sensação de que podíamos ter visto uma história mais bem contada de uma pessoa tão interessante, o filme ainda cai no clichê de várias obras baseadas em histórias reais ao pôr um curto clipe com imagens de arquivo de Maud Lewis e seu marido na pequena casa onde viviam.

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