#10 Pilgrimage

Irlanda, Bélgica, 2016. Escrito por Jamie Hannigan, dirigido por Brendan Muldowney. Com Tom Holland, Richard Armitage, Jon Bernthal, Stanley Weber, John Lynch, Rúaidhri Conroy, Hugh O’Connor.

A Igreja Católica tem uma história riquíssima. Ambígua, tendo sido responsável por alguns dos maiores horrores da humanidade, é uma instituição que também tem homens de caráter que não se deixam guiar por ganância ou por fé cega. Nesse sentido, “Pilgrimage” é um filme que trata com cuidado e inteligência essa contradição em uma obra tensa e repleta de ação.

O filme abre no apedrejamento de um homem (que só descobriremos quem é mais tarde), no ano de 55 D.C. Em seguida, pula mais de dez séculos para mostrar a vida de um grupo de monges em um local isolado da Irlanda, onde protegem uma relíquia católica. Tudo é tranquilo até a chegada do Irmão Geraldus (Weber), que traz uma ordem do Papa de que a relíquia deve ser levada a Roma. Um grupo de monges é então designado para acompanhar Geraldus e garantir que a relíquia será protegida. Entre eles, estão o jovem monge Diarmuid (Holland) e o misterioso Mudo (Bernthal), um homem que presta serviços aos monges e cujo nome é autoexplicativo.

Apesar de apresentar um objetivo simples e claro, o roteiro trabalha muito bem os conflitos e objetivos individuais de cada personagem. Enquanto os monges demonstram respeito e um certo temor pelo poder da relíquia, Geraldus mostra absoluta crença em sua fé e um desejo de usar o objeto em seu favor. Semelhante a ele, o vilão Raymond (Armittage) não demonstra nenhum respeito ou crença, deixando claro que quer a relíquia apenas para barganhá-la por prestígio político.

O poder da relíquia aliás, é apresentado de forma brilhante. Se, em alguns momentos, coisas impressionantes e praticamente impossíveis acontecem, dando a ideia de que aquele é um objeto realmente sagrado, em outros fica a dúvida se não se trata apenas de uma lenda — e a decisão de não dar uma resposta definitiva é muito correta.

Mas não apenas o roteiro merece destaque. A fotografia é claramente influenciada por clássicos épicos, mas com um toque especial devido ao clima irlandês: os grandes planos gerais mostram os personagens em paisagens belíssimas, mas sempre sob a presença de nuvens. Assim, o cinza se torna uma cor forte na paleta do filme e sugere a sensação de incerteza, o que é compatível com a ambiguidade moral dos personagens. Ainda levando em consideração as cores, é curioso perceber que, dentre os personagens que representam a religião, aquele que está de branco (normalmente, a cor associada a pureza) é justamente o mais obcecado com o poder da Igreja e o menos preocupado com a verdadeira proteção da relíquia. Já o Mudo usa trajes de cor vinho, o que será refletido em sua força e violência, quando tirará sangue daqueles que os atacam. A violência é, inclusive, outro ponto em que o filme investe, não hesitando em mostrar o apedrejamento na primeira cena e até expondo situações mais extremas em outros momentos.

Vale destacar ainda as atuações, que enriquecem ainda mais o filme. Se o Geraldus de Weber tem gestos precisos e uma postura sempre ereta, o Mudo de Bernthal traz uma postura encurvada, mas um olhar sempre atento e cuidadoso. Pelo seu jeito, sabemos que ele é observador e que se preocupa com a segurança dos monges. Já Holland faz um ótimo trabalho como Diarmuid, fazendo-nos acreditar que aquele realmente se trata de um monge jovem que tem seu primeiro contato com o mundo exterior. A transição do personagem ao longo do filme é construída com cuidado, de forma que eu realmente não me dei conta de que aquele era o mesmo ator que interpreta o Homem-Aranha.

Ainda assim, o filme peca em alguns momentos. As cenas de ação, em geral, são confusas e mal dirigidas, investindo nos já tradicionais cortes rápidos que não permitem compreender o espaço em que os personagens estão e qual a posição de cada um no meio da luta. É uma pena que tantos diretores de ação sejam mais influenciados pelo estilo usado por Michael Bay do que pelo de George Miller.

Há alguns diálogos, também, que merecem repreensão por sua obviedade, como o momento em que um personagem, ao descobrir uma traição, chama outro de “Judas”.

De qualquer forma, trata-se de um filme bem acabado e com uma mensagem final muito interessante e até surpreendente. Uma das principais perguntas, no início do filme, é se foi certa a escolha de levar Diarmuid com o grupo de monges. E a resposta vem no final, garantindo a coesão e a eficiência da mensagem.

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