Tem Café Novo na Cafeteira

Eu nunca gostei de café. Mentira! Eu só gostava e tomava o café da minha avó. Me lembro até hoje da bebida fraca, com a consistência de uma melado que a gente adorava tomar nas canecas de ferro esmaltadas. Digo “a gente” por que eu e meu irmão mais novo nos empanturrávamos do café dela, o dia inteiro. Dona Hilda ainda tem um desses moedores de café mais antigos, de manivela. Os grãos ficavam armazenados numa vasilha de plástico do lado da banqueta em que o moedor estava instalado. Ela enchia a boca do moedor de café e girava a manivela. O barulho do café sendo triturado e o cheiro se espalhavam pela casa. A gente ia correndo para a cozinha e ficava esperando. A água ia fervendo no fogão a lenha. O pão sovado dava as caras na mesa, na companhia de um queijo e uns biscoitos de maisena. Cada um pegava o que queria e ia sentar lá na varanda da casa, que fica no alto de um morro esburacado que nunca soube o nome. Mas que dava vista para meio Marilac.

Minha mãe sempre nos levava “pra casa da vó”, como eu e meu irmão dizíamos. Os ônibus empoeirados da Viação Suassuí sempre paravam na plataforma 12 da rodoviária de Valadares. Com muita frequência, o motorista era o Gerson. Um motorista pançudo e sem bigode. Eu tinha dificuldade com motoristas que não usavam bigode. Ele era um sujeito gente boa, que o povo da minha família já conhecia de Marilac. No meio do caminho, havia uma parada, em Chonim de Cima. Tinha uma venda dessas bem de beira de estrada. Não me lembro o nome. Mas os pasteis de lá eram muito bons, atraíam tanto as pessoas como os cachorros de rua, que ficavam parados assistindo os salgados na vitrine ou ficavam catando as migalhas caídas da boca dos viajantes. Depois de comer um pastel e uma dose de café dormido (café dormido é dose!), o Gerson encostava o cotovelo no balcão, olhava o relógio, coçava a pança e dizia: -Bora! A renca de gente subia na rural para mais alguns minutos de viagem.

Chegando em Marilac começava o ritual da benção. “Bença tia”, “bença tio”, “bença vó”, “bença primo”. Houve um tempo que eu descobri que não se toma bença de primo, então espero que Deus aproveite isso como crédito no dia do meu julgamento.
Minha mãe e minhas tias tomavam bença da minha vó todos os dias, ao acordar e ao dormir. Eu ficava olhando aquilo sem entender. Eu não entendia também por que ela passava tanto tempo sentada no fogão a lenha, à noite, no escuro, mascando fumo de rolo. Mas,eu sempre entendia quando ela saía correndo atrás da gente com a famosa vara de goiaba. E eu descobri que tanto café me ajudava a correr mais rápido. E que era engraçado olhar para trás e ver a Dona Hilda estendendo o braço com a vara na mão e gritando — Toma jeito pra você ver! Ela tinha ciúmes do moedor. Era um deus nos acuda. A gente rodava a manivela e disparava de galope.

Em uma das últimas vezes que fui na “casa da vó”,ela não sabia quem eu era. -Esse é o Divin ou o Cristo?- perguntou para minha mãe. Cristo, de Christian. Me contaram que ela desenvolveu Alzheimer e que com frequência esquecia das pessoas. Eu não aparecia por lá há muito tempo e esperava nem ser lembrado. Ser confundido foi de bom tamanho. Algumas coisas mudaram. Mas o moedor estava no mesmo lugar. Olhei e pensei sobre como alguém poderia sentir falta de um moedor de cafe, do barulho e do cheiro que era proporcionado ali. Por alguns instantes poderia jurar que eu voltaria no tempo se rodasse aquela manivela novamente. Eu iria fazer, quando no mesmo segundo uma voz me chegou e disse — Não funciona mais, mas tem café novo na cafeteira.