Como a sexualidade me ajudou a processar o luto
Se entregar pra outra pessoa revela muito mais do que a gente imagina

Na noite anterior ao velório do meu pai, escrevi uma carta que resumia o que eu gostaria de dizer pras pessoas que estariam lá. Quando chegou a hora, acabei falando muito mais do que tinha planejado. Senti vontade de falar, permiti que o impulso se desenvolvesse em uma ação e deixei fluir. E foi ótimo — terminei com uma sensação de leveza que até hoje me encoraja a reproduzir esse ciclo: perceber o sentimento, acatar o impulso e ver até onde ele vai.
Essa atitude tem sido tão boa pra mim que na maior parte do tempo, eu to bem com tudo o que aconteceu. Entrego, aceito, confio e agradeço de coração. É tão incrível se sentir em paz (em uma situação que grande parte das pessoas percebe como uma tragédia) que eu quis sentir isso todos os dias, sem exceção.
E aí é claro que a coisa desandou.
Despertando pros próprios sentimentos
Pra começar, teve muita raiva. Eu tenho dermatite atópica (uma alergia que vem e vai sem explicação) desde criança e nos primeiros meses depois da partida do pai, tive manchas vermelhas no peito e no rosto como nunca antes. Na terapia, aprendi que eu estava manifestando um “colar de raiva” — basicamente suprimindo um monte de coisas que eu queria botar pra fora com uma máscara de serenidade. Mesmo que a mente quisesse segurar aquilo tudo pra dentro, o corpo estampou a raiva na minha cara pra que eu não pudesse esconder de mais ninguém.
Quando se trata de aceitar que a gente tá triste, é impressionante como conseguimos enganar os outros — e principalmente nós mesmos. Nos dias em que eu senti algo incomodar, resolvi não ceder e achei de verdade que estava tudo bem, era só “não dar muita bola”. Focava no trabalho, na parte de mim que estava realmente em paz, e parecia que era só aquilo mesmo — uma incomodação passageira. Foi nesse momento que o sexo começou a ter um papel fundamental no meu processo de luto.
Nos meses que sucederam a morte do meu pai, o sexo se transformou no momento de maior conexão com a minha verdade. Nesses dias em que eu forçava uma serenidade falsa, transar era o momento em que o meu castelinho de areia ia por água abaixo. Mais de uma vez precisei parar pra chorar, por exemplo, mesmo que tivesse começado no clima e aparentemente me sentindo bem.
A receptividade de um parceiro compreensivo em uma relação de confiança foi crucial pra que esse momento fosse construtivo, e não traumático, pro meu processo de luto. Fui acolhida na minha confusão emocional e estimulada a olhar mais a fundo pra dentro de mim pra entender o que estava acontecendo.
Essa experiência mudou totalmente o significado de sexualidade pra mim.
Encarando o sexo como um momento de verdade
Hoje, vejo o sexo como o momento onde eu sou exatamente eu, com todas as minhas travas e anseios. Mesmo que eu queira performar uma mulher sensual, confiante e bem resolvida, não dá. Já deu antes, e nem foi tão legal assim. Quando eu transo com entrega e honestidade, sou completamente incapaz de fingir um comportamento que não é o meu.
É através dessa mesma perspectiva que eu vejo a atração. Imagina que a verdade do teu ser é uma chama que mora dentro do teu corpo. Não precisa fazer sexo pra saber que as pessoas com quem a gente convive influenciam na maneira como a gente se expressa, ou seja, na intensidade da nossa chama. Nesse contexto, acredito que a atração é o que a gente sente quando tá próximo de alguém que vai reverberar alguma verdade dentro da gente. É a antecipação do momento em que vamos sentir a nossa chama queimar com ainda mais força.

Não é à toa que existem tantos tipos diferentes de atração além da sexual, como a intelectual ou a afetiva. Não é somente através do sexo que alguém estimula o nosso verdadeiro ser. Conversar com alguém que a gente admira, por exemplo, faz a gente perceber o quanto da nossa verdade reverbera nas palavras do outro.
É é aí também que mora a vulnerabilidade de mostrar quem a gente realmente é, principalmente no sexo. Ao invés de fazer crescer, o outro pode tolher a nossa chama, que foi exposta de forma tão sincera — e aí muito tem que acontecer até que a gente sinta que ela tá firme de novo.
Na minha vida, esse insight trouxe tanto significado que eu entendi o recado e passei a deixar absolutamente tudo fluir. Tentei não estancar nada e me permiti sentir a revolta, a tristeza e a indignação que estavam dentro de mim no momento em que elas viessem à tona — fosse esse momento conveniente pra mim ou não.
Pouco a pouco, voltei a me sentir dona de mim mais uma vez.
Ouvindo as mensagens que o corpo dá
Passar por isso abriu uma porta pra tanta sensibilidade e consciência durante o sexo que algumas vezes, até hoje, acontece de sentir vontade de chorar depois, quando termina. Em um momento de tanta fragilidade, onde eu me vejo sem qualquer controle sobre a imagem que eu projeto pro meu parceiro, me perceber amada é tocante demais.
Nesse cenário, gozar não é só o ápice da relação sexual. É o êxtase de se sentir em harmonia com a própria vida, em paz consigo mesmo, com as suas escolhas e relações. Enquanto algo na nossa vida estiver em discordância com o propósito do nosso verdadeiro ser, o orgasmo não vai ter toda a intensidade que ele pode ter.
Quando comecei a me sentir mais firme emocionalmente, comecei também a sentir dor na relação sexual. Precisei de algum tempo de terapia pra internalizar que aquele era um processo de autopunição.
Mesmo no contexto de luto, o sexo pra mim era um momento de celebração. De sentir amor, alegria, cumplicidade. E quando essa torrente de sentimentos bons começava a fluir por mim, imediatamente (e subconscientemente) eu me sentia culpada. Como assim, vai querer gozar depois do pai morrer de câncer? Que espécie de pessoa faz isso?!
A resposta é: a pessoa saudável, que está lidando com o momento com honestidade e abrindo o peito pra tudo o que vem com ele — os sentimentos negativos e os positivos também.

Era (e ainda é) difícil lidar com a ideia de que a morte do meu pai pode me trazer sentimentos positivos. Parece que se eu realmente deixar ele partir em paz, como quero fazer, vou estar desonrando a conexão que a gente tinha — a não ser que eu seja triste pra sempre. É como se eu tivesse escolhido o sofrimento pela morte do pai como um substituto pelo amor que eu sentia por ele em vida. Até posso deixar ele ir, mas preciso sofrer — enquanto eu sofrer, o amor entre nós persiste.
Ah, as armadilhas que a gente monta pra se sabotar.
Pra mim, essa é uma área em constante evolução: o sexo saudável representa uma parcela enorme de uma vida plena e é por isso que prestar atenção nele é importante.
No livro Sexo Zen, Philip Toshio Sudo fala sobre Ikkyu, um mestre zen que zombava das abstinências extremas. Ikkyu considerava o sexo como uma oportunidade extraordinária para iluminação — uma conexão direta com a nossa fonte criadora:
“A vida que nos foi dada, o amor que existe dentro de nós, nossa capacidade de êxtase e alegria são manifestações da dimensão divina. Não nos damos conta e vamos vivendo como se tudo isso fosse natural. Nossos sentidos vão ficando embotados e estamos sempre à procura de um elemento excitante fora de nós. No entanto, presente em todo o nosso ser, há uma energia vibrante, uma força sexual de vida. Ela nos deu origem, e nós a manifestamos. Quando nos sintonizamos com essa energia e tomamos consciência dela, ficamos absolutamente maravilhados com a sua dimensão e com o seu poder de transformar nossa vida e nossa maneira de fazer amor. No zen qualquer coisa pode tornar-se fonte de meditação: tanto rezar quanto, como prefere Ikkyu, enroscar-se na cama com a pessoa amada”.
Pode até ser mais fácil falar do que fazer, mas faz sentido, né?
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