Radinho de Pilha

No sofá da sala, Vinicius e Vitor, meus filhos de 10 e 7 anos de idade, acompanhavam enfadados pela TV o primeiro tempo de Curitiba x Flamengo. Era aquele jogo que o goleiro sai com o uniforme limpinho, como se tivesse sentado no caixa do banco.

Vitor pegou o controle remoto e apertou num botão que deixou o gramado mais verde para tentar animar a partida. Um chute de longe para fora e ele pegou o celular para jogar. “Que pelada, pai”, disse o irmão.

O combinado era ver o primeiro tempo e sair para o cinema. A falta de vontade dos dois times em ganhar o jogo ajudou que eles cumprissem o acordo sem reclamações, fato raro. Chegando no carro, a curiosidade pelo resultado nos fez ligar rádio.

Quando o Garotão da Galera começou a transmitir, os olhos dos meninos mudaram. Aquele era outro jogo. Toda jogada era fantástica, perigo de gol a cada momento, detalhes do campo, dos jogadores do técnico, da torcida. O jogo ganhou cor, vida, na imaginação deles.

Vê-los daquela maneira me transportou para o meu quarto, num tempo em que era raro jogos serem transmitidos pela TV. Com meu radinho de pilha branco ouvia o Garotinho José Carlos Araújo e o Apolinho narrando a saga do maior time do planeta. Foi pelo Rádio que Zico, Júnior, Adilio, Leandro e tantos outros craques se consolidaram na minha mente.

E ficaram. Para sempre.

A viagem era curtinha. Já chegando ao estacionamento do cinema, saiu o primeiro gol do jogo. Guerreiro, um a zero. A explosão de alegria com grito, música, vinheta e barulhos de todo o tipo os levou ao ápice daquele novo mundo que se abria pelo som.

Ao descer do carro, Vinicius, o mais velho, com um sorriso incontido, me falou: “Pai, jogo pelo Rádio é muito mais legal”.

Eu concordei. Jamais será diferente.

PS: esse texto é um agradecimento ao Garotinho José Carlos Araújo, Apolinho, Gerson, Penidão, Gilsão, Heraldo Leite e todos os comentaristas, trepidantes, operadores e trabalhadores do Rádio. Com vocês, as cores do futebol são mais vivas. Obrigado!

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