De Manaus para o mundo: Victor Xamã

Via Mova-C

“… Mistério sempre há de pintar por aí…”, já dizia Bethânia e Gal naquele som lindo do Doces Bárbaros. Mas não é que pintou mesmo? Entre tons esotéricos, xamanismo urbano, poesia de rua e beats intensos, está Victor Garcia, 21 anos, mais conhecido como Victor Xamã, diretamente de Manaus, Amazonas.

De dentro para fora, o MC demonstra a forte admiração pelo Xamanismo e Esoterismo. Em 2015, durante a elaboração do álbum “Janela” — seu primeiro Ep solo que também foi lançado no mesmo ano, escute aqui — leu o livro “Xamã Urbano” de Serge Kahili King e se identificou ainda mais com o nome e com os seus significados. “Além de que o nome Xamã representa parcialmente de onde eu vim e representa a minha forma de fazer música, buscando tranquilizar ou questionar com sentimentos sinceros”, explica Victor.

Aos 12 anos começou ouvir rap, com 14 já explorava o seu talento construindo rimas. Xamã explica que após Davi Dura, seu amigo de infância, ter lhe apresentado à música “Mr. Niterói” de Black Alien, ficou hipnotizado com a construção lírica e rítmica do som. Depois disso, não parou mais.

Observando a cena do hip hop, em especial o rap no Brasil, em grande parte da sua história a visibilidade dos trabalhos eram extremamente menores em relação aos outros gêneros, isso quando não eram representados de uma forma negativa pela mídia. Com os passar dos anos, a chegada da internet veio quebrando barreiras em relação à produção e divulgação de trabalhos independentes da cena.

Hoje é possível ver que isso mudou, porém, ainda assim o eixo Rio de Janeiro — São Paulo é o que concentra boa parte da divulgação e eventos que trazem nomes de grandes e novos grupos de rap no Brasil. Muitas vezes centralizando a indústria deste gênero na região sudeste do país.

Ao ser questionado sobre como é fazer rap em Manaus e sobre a visibilidade dos trabalhos em relação a outros lugares no Brasil, Victor Xamã comenta que é parecido com qualquer outro estado nos dias atuais, mas ressalta que “a cena é em menor proporção e você carrega uma responsabilidade muito grande de representar essa bandeira. Hoje em dia há uma infinidade de grupos e pessoas que trabalham pelo Hip hop na cidade de Manaus e no Norte como um todo, porém isso não tem muita visibilidade no Sudeste e em outros estados mais afastados. Infelizmente, ainda não temos a estrutura que merecíamos ter. Eu tive a sorte ou competência de fazer isso acontecer e estou trabalhando em parceira com o meu grupo Qua$imorto pra elevar ainda mais essa visibilidade.”.

Em 2015, o Spotify lançou o Musical Map: Cities of the World, um mapa interativo que apresenta quais músicas as pessoas escutam em diferentes cidades do mundo. Este

guia trouxe algumas curiosidades e entre elas o rap é o gênero em que mais apareceu nas playslists dos usuários, independente do idioma e da localidade conforme o site Tribuna Bahia (confira a matéria aqui) .

No Brasil a quantidade de ouvintes é crescente e segundo Victor, a busca por trabalhos inovadores está aumentando o interesse por ouvir novos sotaques e combinações. O
público quer ser surpreendido. Para ele, hoje não importa muito o lugar que veio e sim o que faz e como faz, mas ainda é inquestionável que falta mais apoio e investimento para potencializar o cenário do rap fora do Rio de Janeiro e São Paulo.

Álbum “Janela” e o grupo Qua$imorto

Confira entrevista com Victor Xamã sobre a construção e produção do seu primeiro trabalho solo, com nove músicas e entre elas “Eu chorei nas margens do Rio Negro”, “Essa noite eu vou me embriagar com verdade” que conta com a participação de Makasliter e “Dual II” com Qua$imorto e Dalsin. Abaixo, ele também fala sobre o seu grupo, quando surgiu, quem faz parte e tudo mais. Veja:

Trecho do clipe “Eu chorei nas margens do Rio Negro”, primeira música do Ep “Janela”.

O seu primeiro trabalho solo foi o EP “Janela”, que contou com a produção do Barba Negra, além das participações do Makalister e do Dalsin. Como foi o processo de construção do álbum?

O disco foi escrito em Salvador, gravado em Manaus e lançado em São Paulo. O processo de construção e criação foi algo pouco planejado sem muita pretensão, porém feito com muito carinho e dedicação por mim e por toda a Qua$imorto, ressaltando o Fernando Rabelo (Barba negra) que foi uma peça mais que fundamental na captação e mixagem das músicas em um curto período. As participações foi algo que fluiu de uma maneira muito simples e dando uma acrescentada extraordinária na obra.

Quanto tempo levou todo processo de produção?

Os instrumentais feitos por mim não posso dizer com exatidão quando nasceram, porém me recordo que em maio de 2015 senti vontade de relatar o que estava acontecendo e concretizar aqueles sentimentos em uma obra física.

Por que “Janela”?

O álbum nasceu quando estava morando em Salvador, longe do conveniente e preso aos vínculos que deixava na minha cidade, Manaus. A “Janela” significa meu conflito e a minha cura, significa a saudade que se transformou em observação. Parecia que tudo que me cercava era mais visível, a partir daquele momento eu senti a vida em alguns acontecimentos bem simples, observava o mundo pela janela do segundo andar, aprendia que deveria criar asas e não raízes e que aquele era o meu momento.

As suas letras são carregadas de referências, a tua lírica e flow também são bem ímpares. Quais foram as maiores inspirações para construção do EP? Como foi esse processo?

No momento de escrita do álbum estava ouvindo muito MPB e lendo livros de cunho esotérico, acho que isso ficou bastante claro na atmosfera e construção de algumas músicas, tentei fazer as músicas diferentes, agradáveis e simples.

Se pudesse resumir, o que você queria ressaltar nas composições?
A saudade, a persistência, desejos e prioridades em uma balança gigante e a liberdade poética e lírica.

O seu primeiro contato com música foi com o Rap? Quais músicas inspiram você?

Meu primeiro contato com a música foi o rock progressivo com conhecidos e familiares. Os sons que me expiram bastante são: Jorge ben — Errare Humanum Est, Pink Floyd — Shine on Crazy Diamond, Subsolo — Ninguém Ama os Náufragos, Silk Rhodes — Pains, Xará — Hoje eu sei … São muitos.

Você tem planos para mais trabalhos solos?

No momento estou focado na construção do disco da Qua$imorto, “Trajados de Preto na Cidade Calorenta e Abafada”. Porém esse ano ainda sairá alguns singles inéditos com clipes do meu trabalho solo e tenho bastante vontade de trabalhar em um novo álbum.

Como e quando surgiu a Qua$imorto ?

Qua$imorto foi um amadurecimento de ideias minhas e do Fernando Rabelo que cominou em um grupo de rap com cinco integrantes — Victor Xamã, Fernando Barba Negra, Luiz Caqui, João O Alquimista & Dj Maquinado — . Nossa forma de escrita convida a introspecção mas não se limita a rótulos ou estilos específicos. Qua$imorto surgiu há dois anos e meio, como a continuação do nosso antigo grupo, denominado P8crew. Percebemos que deveríamos amadurecer as ideias e fazer algo com uma nova cara.

O que está escutando atualmente:

Timber Timbre — Hot Dreams

Tim Maia — Racional

Obs: Não deixem de ouvir a Qua$imorto!

Quer conhecer mais sobre o trabalho de Victor Xamã e da Qua$imorto? Acompanhe aqui:

Facebook, YouTube — Victor Xamã

Facebook, YouTube — Qua$imorto

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