Entre beijos e protestos: conheça o coletivo fotográfico R.U.A

Via Mova-C

Em meados de 2013, durante as manifestações que ocorreram em todo Brasil, quatro fotojornalistas formaram o coletivo R.U.A — Registro Urbano Autoral — que conforme a necessidade de valorizar o fotógrafo e suas condições de trabalho, tornou-se um grupo de jovens profissionais que trabalham juntos, mesmo em lugares diferentes.

Estimulando e reconhecendo a importância da fotografia de rua e a fotografia documental. Além de se tornarem um exemplo não só na linguagem, mas também na qualidade e ousadia dos trabalhos.

A ideia do projeto veio dos fotógrafos Jardiel Carvalho, Tércio Teixeira, Rodrigo Zaim e Felipe Paiva.

Os fotojornalistas do R.U.A. Da esquerda para direita: Tércio Teixeira, Rodrigo Zaim, Isabella Lavane, Jardiel Carvalho e Felipe Paixa. Registro feito antes da entrada do fotógrafo Filipe Mendes.

Hoje a equipe é formada por seis fotojornalistas, após a entrada de Lavane (2014) e Filipe Mendes (2016).

O coletivo ainda divulga projetos fotojornalísticos de outros profissionais, “os colaboradores são todos aqueles que sentem vontade de compartilhar o seu trabalho com o público do R.U.A. Estamos sempre abertos a receber material, dar feedback e publicar em nosso site.”, explica Felipe Paiva, um dos fundadores que atualmente vive em Paris, na França.

Segundo o site do grupo, o objetivo atual é produzir conteúdo audiovisual e pautas de teor sócio-político, promovendo também a cultura da fotografia em regiões de baixo investimento cultural.

Cada perspectiva da rua é única. Cada perspectiva do R.U.A é única. O Mova — C entrevistou o fotógrafo Felipe Paiva, 28 anos que passou pelo Reino Unido, Ucrânia, França, Brasil e outros lugares pelo mundo, documentando para o coletivo. Confira a entrevista abaixo:

O que mais te encanta na fotografia documental?

O que mais me encanta é poder ver que algumas histórias que pareciam estar só no nosso imaginário são de fato reais. E ser um foto documentarista é incrível no sentido de viver experiências que não viveríamos normalmente.

Qual critério do R.U.A para divulgar trabalhos de outros fotógrafos em suas mídias? É necessário ser jornalista ou fotojornalistas formado ou vocês avaliam apenas o material/projetos fotográficos dos interessados?

Não nos apegamos a formação da pessoa que quer compartilhar as histórias vividas. Claro que se a formação é de fotojornalista ou jornalista, a compreensão de narrativa é mais ampla. O que importa no fim é a história e a beleza ou estranheza das imagens.

O coletivo foca apenas em fotografias em que a “rua” (como essência e como cenário) é protagonista ou também outros trabalhos de cunho documental e que não estão ligados diretamente ao tema?

Sim, o foco do coletivo é a fotografia de rua. Digamos que é o “recheio”. Mas planejamos e executamos alguns trabalhos documentais que não estão ligados à rua, mas que geralmente estão ligadas a urbanidade. Trabalhos realizados na Ucrânia ou em ocupações em São Paulo são exemplos disso.

Todas as fotos do R.U.A são sensacionais. Mas hoje, em sua opinião, qual foi a série documental ou a melhor foto já publicada pelo coletivo?

Difícil responder a essa pergunta. Uma foto pode ser visualmente muito forte ou conceitualmente muito forte. Conceitualmente as melhores fotos foram ambas do Tércio Teixeira. A foto que rodou o mundo da abertura das olimpíadas e uma outra foto, feita em frente ao Teatro Municipal de São Paulo, que gerou muito questionamento nos brasileiros.

Foto de Tércio Teixeira, fotógrafo do Coletivo R.U.A

Ainda ligado há este assunto, qual foi a melhor cobertura fotográfica do R.U.A até hoje? Ou melhor dizendo, uma das mais especiais?

Acho que os protestos que vem acontecendo em São Paulo nós fizemos bem feito. Já uma história mais documental eu diria que seria dos movimentos de moradia em SP, que está em andamento, e a experiência que tive com uma milícia na Ucrânia.

O coletivo trabalha ativamente a divulgação de suas produções, do qual utiliza constantemente as redes sociais. Com relação a ética fotojornalística — em que ressalta a divulgação de fotos, acompanhadas de uma explicação jornalística do que ocasionou o registro -, vocês já passaram por alguma situação em que houve um conflito entre esse ponto do fotojornalismo? E qual foi a situação?

Já fomos mal interpretados algumas vezes, mas a que mais me marcou foi quando a polícia usou da sua brutalidade irracional para impedir que pessoas pulassem a catraca dentro do metro em dispersão de um ato contra a tarifa em SP em 2015. O gás lacrimogêneo em local fechado ficou tão forte que a própria polícia teve que recuar. Os guardas do metrô também passaram mal e o Jardiel Carvalho registrou uma funcionária com o rosto sujo de leite de magnésia que é usado pelos manifestantes para aliviar a ardência contra o gás. Publicamos a foto com uma legenda irônica dizendo que a Sheila (a funcionária do metrô) quis apoiar a PM e terminou sendo vítima também. Fomos taxados de racistas pelo fato de que Sheila é negra. Mas esse é um risco quando se trabalho com comunicação.

Foto de Jardiel Carvalho do 5º ato contra a tarifa em São Paulo em 2015. Esta é Sheila, a funcionária do metrô.

Vocês publicam alguns ensaios dos colaboradores no blog oficial do coletivo, correto? Qualquer fotógrafo pode publicar lá?

No nosso site a gente tem duas partes, por enquanto. Uma é a home, uma galeria autoral e documental de cada fotógrafo do coletivo. A outra é o blog onde publicamos, mais em formato de matéria, trabalhos tanto do coletivo quanto de pessoas ou veículos parceiros. Em breve vamos abrir uma sessão de venda de fotografias.

Há uma relação bem bacana da VICE.com com o coletivo. Como surgiu a parceria?

Essa parceria foi indo aos poucos. Um dos fotógrafos cotados para entrar no coletivo em 2013 acabou indo trabalhar na Vice. Aí como era um conhecido ele resolveu fazer uma matéria sobre o coletivo. Os editores gostaram do que viram e começaram a chamar a gente para fotografar matérias para eles.

Nesses três anos de R.U.A, o que mais torna gratificante e desafiador a caminhada com o coletivo?

Ah, sem dúvida é a ligação entre os fotógrafos e com o público. Produzir uma história é muito bom como experiência, mas para mim, a sensação de missão cumprida ou o fato de inspirarmos outras pessoas é o mais forte e gratificante.

Pra finalizar, quais os próximos planos do R.U.A? O que podemos esperar por aí?

Vamos oferecer impressões, palestras e estamos pensando em partir para produção audiovisual, mas mantendo a fotografia como cerne do coletivo. Estamos bolando umas intervenções que podem vir a acontecer esse ano ainda.

Confira algumas fotos do coletivo R.U.A abaixo.

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