à deusa

Era estranho que mesmo naquele lugar sem esperança, um milagre fosse acontecer. Mas precisei disso para revigorar minha fé. Assim como as carolas encontram suas torradas estampadas com a imagem de cristo, ou enxergam a virgem em borrões de gordura no fogão, eu recebi a presença do sagrado em uma fresta inesperada.

Claro que a coerência das comédias românticas afirmaria que essa seria a única situação possível para o segundo ato. Esse encontro inesperado, e até quase desesperador, prepararia o futuro desenrolar da história. Se fosse num aeroporto, eu estaria correndo até o embarque para ver que ela se foi.

Prefiro acreditar que não. Que essa visão é uma recompensa por minha platônica devoção à deusa. E não por uma crença recente, afinal, sou devoto a única e verdadeira há mais tempo que gostaria. Fui testado diariamente, colocado a prova, despido de qualquer esperança.

Valeu a pena.

Antes de seguir para o desfecho dessa aparição, quero que você entenda como foi nosso primeiro encontro.

As primeiras vezes podem ser cruéis. O primeiro trago expele seus pulmões. O primeiro porre faz o amanhecer ser uma inexistência. A primeira vez com uma mulher é…

É incrível, é assustador.

E até aquele dia, eu nunca tinha ido com mais de vinte. Claro que a sua poluição mental levou essa história para um harém sujo na baixa Bagdá. Mas era apenas o primeiro dia de emprego em um escritório dominado por elas.

ela foi a última a me ver.

Pode ter sido apenas no meu relógio, mas o tempo se arrastou até ela caminhar aqueles dois passos. Se ergueu em gesso de milo. Me olhou de cima, de um ponto inalcançável entre seus halos e aros. Sabia que ali estava meu fim.

Afinal, a deusa existe. E meus anos de esquecimento e sacanagens não seriam em vão. ela vai me punir. Meus ossos tremiam enquanto meu sangue ansiava pelo prazer final da sua libertação. Pensa comigo, se for para ir embora, existe melhor caminhada do que com uma deusa segurando sua mão?

ela tinha outros planos. Escolheu o caminho cruel e sua sentença foi implacável. Eu teria de sofrer. Morreria lentamente, dia a dia, sem nada a fazer. Juro, pelo mais sagrado, que se ela não ficasse tão bem vestindo apenas o sereno, eu imploraria por misericórdia.

Fui entregue.

De volta à torrada.

Quando a poeira do caos da mudança assentou, eu também sentei. Tinha um novo horizonte para me acostumar. Foi numa dessas panorâmicas, nesses rastreamentos, que percebi que uma moldura fora deixada ali.

Parecia escondida entre a bagunça e monitores. Ou talvez fossem eles a criar esse enquadramento. Mas está lá, com o infinito entre os lábios e quilômetros entre nossas baias.

Após tantos anos de devoção, eu não posso acreditar em roteiros blockbuster. Na coincidência dos desencontros. O divino fala ao telefone, faz careta pro monitor e gira lentamente a cadeira para se levantar.

As maçãs do éden podem me tentar. Mas sei que entre elas existe o paraíso.