suspiros

O grito de Iemanjá se misturava com o desespero daqueles ao redor. Na boca, o amargo sal do mar e o aroma daquele sopro ainda resistiam às fortes ondas de tosse que buscavam liberdade.
Deve ser assim que um recém-nascido se sente. Curioso, sujo e refém.
O movimento das pessoas era embaçado, o foco fugia da fraqueza dos seus olhos, mas sabia que eles estavam por perto. Entre perguntas e dúvidas, guardou na lembrança aqueles lábios que o reanimaram.
Desmaiou.
…
Após muitos dias escuros, tomou coragem para enfrentar o local de seu renascimento. As cicatrizes da memória ardiam forte.
Sem saber o que encontrar ou até mesmo, o que procurava, sentou e esperou. Esperou pelo vermelho.
A fina garoa começava a lamber a pele daqueles que arriscaram sair para uma caminhada e o fez se recolher um pouco mais em seu casaco. Nem o frio cortante ou as broncas do mar quebraram sua determinação. Permaneceu sentado, esperando pela cor que o trouxe de volta. Esperou pelo vermelho.
O vento jogava a sua cara grãos com teor de zombaria. O silêncio do mar calava suas esperanças. Só havia agora uma cor em todo cinza.
Uma gaivota resmungou algo que o fez levantar. Não havia pressa, nem desespero. Talvez fosse o medo que se despiu em público.
Largou todas as roupas na beira da praia e entrou na água congelante. Alguns assustados começaram a cochichar e rir. Uns afastaram seus filhos. Mas todos sabiam o que iria acontecer.
Embriagado com loucura, caminhou como se nada oferecesse resistência. Andou cego, certo em direção ao verde fundo do mar.
Deixou o corpo levar. Deixou o ar faltar.
Sorriu, crente que quando a agonia acabasse, tudo seria novamente vermelho.
