Carta aberta ao grande amor que se foi

O meio gay é muitas vezes tão cruel que encontrar um grande amor nele pode ser assustador.


Oi, meu amor.

Eu ia começar esta carta te chamando de "meu ex-amor", mas isso seria excessivamente impreciso: porque tu nunca deixaste de ser meu amor, embora tenhamos nos tornado ex-namorados, ex-casos, ex-parceiros de cama e de vida. Mas nunca nos tornamos ex-amores. E sei que posso falar por ti, afinal teu novo parceiro (novo porque depois de mim) sempre dizia que eu era o único que punha em risco o romance dele contigo. Ainda bem que no decorrer dos anos ele entendeu que eu jamais tive a intenção, sequer fiz nada neste sentido, de desrespeitar vosso relacionamento

De fato, antes de mais nada, quero é te dar uma bronca: com que direito tu ousas estar no hospital com dores lancinantes, quiçá adivinhando a hora de partir deste mundo, e proíbes as pessoas de me avisarem? Enlouqueceste?

Foi muito duro saber pela boca dos outros que tu havias partido. Com que direito? Só pelo fato de não estarmos mais juntos já fazia mais de oito anos? Como assim?

Ouvir teu viúvo contar teus últimos dias de agonia e de dor foi uma das experiências mais dolorosas que vivi recentemente, por diversos motivos. Principalmente o motivo de saber que agora, definitivamente, eu não teria mais possibilidade de ganhar aquele teu abraço de urso, ou de roubar um beijo teu enquanto ninguém estivesse vendo. E nem era traição, afinal tu tinhas relacionamento aberto, e um beijo escondido na despensa não seria nada a não ser mais um segredo nosso, meu e teu.

Maldito relacionamento aberto, aliás. Foi por causa de tu achares que ele seria o ideal para qualquer um, incluindo nós dois, que eu acabei abrindo mão do meu romance contigo. Cara, como eu era feliz contigo o tempo inteiro, mas como eu era infeliz quando tu querias sair com sujeitos que não me agradavam, e que em minhas inseguranças eu achava que eram "melhores" do que eu!

Ah, sim, quase esqueço: além dessa manifestação de insegurança também tinha o fato de eu detestar quando tu mentias pra mim, ou quando subestimavas qualquer coisa minha. Quando tu disseste ao meu melhor amigo que eu comia na tua mão, e jamais me separaria de ti porque tu sabias como me controlar, eu tinha a obrigação de te mostrar que estavas errado.

Se eu pudesse voltar no tempo, te juro que... Não, calma! Não juro, não.

Eu juraria que faria tudo diferente, mas não faria. E nem quero que seja possível voltar no tempo, porque se por um lado eu reviveria cada momento feliz contigo, por outro reviveria a dor da separação, a dor dos oito anos separados (embora por saber que teu marido te fazia feliz eu também estivesse feliz), e a dor de agora, de saber que tu partiste para outro plano de existência e eu nem perto estava nos últimos momentos para poder te dizer alguma coisa que só faria sentido para nós dois, para reafirmar nosso vínculo eterno.

Meu amor, vou sentir tanta saudade! Porque é assim: a gente sente muita saudade quando está longe de quem se ama. Mas quando a pessoa que a gente ama morre, a gente morre de saudade também, a cada dia.

O tal do meio gay é muito cruel, meu querido. Mas ainda assim foi nele que floresceu o amor mais intenso que já tive; a paixão mais acesa; foi onde encontrei o melhor sexo, onde me senti amado, desejado, querido como nunca.

Então, foi isso. Em meio a tantos valores superficiais como roupas de marca, dinheiro, tamanho de pinto ou de conta bancária, encontrei um amor sensível e bonito, que me fez crescer como ser humano, como profissional, em todo e qualquer aspecto da vida.


Meu amor, fiquei cerca de quarenta minutos olhando para a tela branca, tentando achar um jeito de finalizar esta carta, até que entendi a razão do "bloqueio": eu não queria realmente terminá-la, porque pareceria que eu estava te dando um adeus.

Então, fica aqui um "até breve". Até que a morte nos una novamente, como ela acabou de nos separar. Nem que leve mais trinta e quatro anos para que eu me vá, caso minha jornada tenha exatamente a mesma duração da tua. Não importa. A cada vez que eu vir alguém deixando de almoçar para poder comer sobremesa em dobro, ou quando eu me deparar com um coroa bonito gargalhando ao derrubar molho na camisa nova, estarei revivendo o imenso amor que jamais deixarei de sentir.

Fica com Deus, meu amor.