Eu, Gerontófilo
Só tem uma coisa pior do que ser homossexual: ser homossexual e pedófilo. E só uma pior do que isto: ser homossexual e gostar de homens mais velhos.
“Gerontofilia”, pela definição, é a atração sexual por pessoas de idade avançada, mais notadamente por anciãos; independe de orientação sexual, podendo ocorrer tanto em quem aprecia o sexo oposto ou quem aprecia o mesmo sexo.
Eu tinha bem pouca idade quando descobri que eu sofria de duas “doenças” d’alma: além de homossexual eu tinha um mórbido interesse por homens mais velhos. Com o decorrer do tempo uma das “enfermidades” foi amenizando, pois à medida que minha própria idade avançava, diminuía a estranheza das pessoas em saberem que gosto de homens da terceira idade. Acredito que haverá um tempo quando ver-me-ão com meu parceiro e dirão: “que bonitinhos os dois velhinhos gordos e bichas”.
Eu nunca havia pensado no assunto como vou dizer agora, mas de fato minha geração e eu tivemos um papel importante no aumento da visibilidade dos relacionamentos entre pessoas de idade muito diferentes: foi na década de ’90 que as comunidades, sites, fóruns, redes sociais ou que nome fosse dado às ferramentas começaram a aproximar pessoas com o mesmo gosto, fazendo com que as pessoas se dessem conta que não estavam sozinhas em sua “parafilia” (palavra que por si só já tem uma carga de preconceito absurda).
Muito cedo descobri minha sexualidade, embora só tenha vindo a exercitá-la pela primeira vez lá pelos vinte e poucos anos de idade. Eu sempre soube que atraíam-me os homens ditos “coroas”, com jeitão de paizão ou vovozão, másculos, e rugas, cabelos e bigodes (ou barbas) brancos sempre foram um adicional desejado.
Quando os hormônios passaram a ter mais influência sobre minhas escolhas (levand0-me a me masturbar em vez de ler gibis da Disney, por exemplo) passei a frequentar mais as casas de meus amigos e colegas para o mais disfarçadamente flertar com seus pais e avós.
E, claro, eu me corroía de culpa. Primeiro por ter a convicção (tão falsa quanto uma nota de sete Reais) de que era errado sentir atração por homens, e segundo por sentir atração por homens que poderiam ser meus pais ou avós.
Algo que não faltou nunca na minha vida foram os livros, e a possibilidade de instruir-me por conta própria. Por um lado, ótimo, fez de mim o que sou hoje e eu não me trocaria por nada ou ninguém desse ou de qualquer mundo; por outro, uma merda, porque não importa o quão brilhante e inteligente seja um moleque de doze anos de idade, ele não vai ter condições de encontrar conforto em livros de psicologia para culpas tão absurdamente irracionais.

A despeito de qualquer coisa, convenci-me de que tudo bem que eu procurasse o amor que possivelmente não teria tido de meu pai nos braços de outros coroas. Desisti da ideia de suicídio e mudei-me para a capital, onde criei novos vínculos e construí uma vida para chamar de minha.
Nos primeiros anos, cheio de medos e inseguranças, eu optei pela estratégia mais burra, porém era a que parecia a mais segura: deixava as pessoas pensarem e dizerem o que quisessem, e tentava compensar a tristeza de não ser compreendido ou aceito com qualquer migalha de afeto que ganhasse, ou com qualquer agrado que eu pudesse fazer a mim mesmo.
Depois, passei a (pelo menos tentar) ignorar as opiniões que davam conta de que eu fosse um patife por ser gay ou por gostar de homens mais velhos.
Por fim, cheguei a um ponto da vida em que não desperdiço energia com quem não merece: simplesmente corto relações mesmo com pessoas preconceituosas e de mentes tacanhas. Isto me levou a ter perdas materiais e financeiras, uma vez que não consigo mais trabalhar em ambientes corporativos “comuns”, tampouco aturo clientes que falhem na simples tarefa de manter seus preconceitos e ódios gratuitos circunscritos aos seus próprios fiofós.
Acredito que a acusação mais frequente que fazem contra uma pessoa jovem que se apaixona por outra pessoa de idade mais avançada é a de estar interessado nos bens materiais do seu objeto de paixão. É ser tratado como michê, muitas vezes até mesmo pelo parceiro ou parceira, uma vez que não é porque a pessoa envelhece que ela deixa de carregar seus preconceitos consigo.
Há quatorze anos atrás conheci um cara que viria a ser o grande amor da minha vida. Vivemos juntos por mais de cinco anos, e há oito eu terminei nosso relacionamento porque não dava conta de administrar suas mentiras e seu apetite sexual por homens que não tinham absolutamente nada a ver comigo, o que me levava a pensar que ele só poderia estar comigo pelos motivos errados.
Exceto pelos primeiros dois meses, os cinco anos que passamos juntos foram anos em que eu o sustentei financeiramente desde pão e leite até plano de saúde e dinheiro para os remédios. Muitas vezes (afinal, foram cinco anos) ele levava dinheiro da minha casa para que os filhos vagabundos pudessem fazer compras e não morrer de fome. Tomei empréstimos bancários para emprestar ao meu parceiro, e mesmo depois de haver terminado o relacionamento com ele ainda passei anos pagando parcelas de dívidas renegociadas.

Apesar disso, foram anos ouvindo piadinhas sobre ter acertado na loteria por ter encontrado um coroa rico.
Quando espalhou-se a notícia de que eu estava solteiro outra vez, era comum a preocupação, talvez até genuína em algumas pessoas, acerca de como eu iria gerir minha vida, sem ter um homem para me sustentar.
A despeito de tudo isso, eu faria tudo outra vez, e se no futuro eu estiver em um romance com um cara que precise de minha ajuda e eu possa oferecê-la, tampouco a negarei.
O fato é que as pessoas se preocupam demais com a vida alheia. Até mesmo aquelas que constam nas estatísticas como vítimas do preconceito não perdem a chance de destilar seu próprio preconceito contra seus iguais (mas não tão iguais assim).