Night In The Woods: Onde o Capitalismo é o vilão

Arte promocional de Night In The Woods

Recém chegado ao mundo dos videogames, fruto de uma campanha no Kickstarter, Night in The Woods (Noite na Floresta) é um jogo de exploração do estúdio Infinite Falls criado pelo seu fundador Alec Holowka. O jogo acompanha a história de Mae Borowski, uma gata que retorna para sua cidade natal, Possum Springs após largar a faculdade. Ela logo reencontra seus antigos amigos, mas se vê insatisfeita com as mudanças recentes na cidade. Toda noite, Mae tem pesadelos e logo ela começa a suspeitar que talvez seus sonhos estejam tentando lhe dizer alguma coisa sobre a cidade.

Personagens cativantes

Night In The Woods tem personagens diversos no que se fala em sexualidade. Mae é canonicamente pansexual (espectro de bissexual) e seus amigos Gregg e Angus são um casal gay. Isso faz com que 3/5 dos personagens principais sejam LGBT.

Mae e seus amigos . Da esquerda para a direita: Germ, Bea, Gregg, Angus e Mae.

Os personagens também são muito bem construídos e desenvolvidos e todos eles (tirando Germ) lutam contra problemas reais. Gregg é bipolar e aspira melhorar o seu status social para ir morar com seu namorado numa cidade melhor. Bea é forçada a cuidar da loja de ferramentas do seu pai, que tem problemas sérios de depressão, para conseguir sustentar a família após o falecimento de sua mãe. Angus foi uma vítima de abuso e isso é abordado mais tarde no jogo.

A Mae por outro lado, também tem seus problemas. Ela sofre com depressão, dissociação psicológica e um histórico de delinquente. Em vários momentos somos forçados a cometer atos vândalos como destruir um banheiro, roubar coisas, invadir lugares, etc.

Em seus sonhos, Mae é assombrada por seu passado violento como delinquente.

Night In The Woods é um jogo que definitivamente entende seu público e usa isso de forma positiva para a construção dos personagens. Quem nunca pensou em largar a faculdade? Ou teve problemas psicológicos por causa de qualquer tipo de pressão social, seja porque você tem a obrigação de fazer sucesso porque você é a primeira pessoa da sua família a ter condições de cursar um ensino superior, seja porque você acha que as pessoas não gostam de você. O jogo tem muito dessas e eu devo admitir que como jovem, me identifiquei em algumas partes.

“Tudo é uma merda pra sempre”

Existem ainda outros personagens interessantes no jogo, como a vizinha da Mae, Selmers que escreve poemas para se recuperar do término de um relacionamento. O jogador é livre para interagir e se relacionar com vários personagens da cidade.

“Destrua o Capitalismo!”

A princípio eu pensei que o jogo fizesse um comentário ou outro sobre como o capitalismo desfavorece a classe trabalhadora, mas ao decorrer do jogo, é como se ele estivesse tentando me falar que o capitalismo deve ser destruído até que ele literalmente me falou isso através dessa cena:

“Destrua o capitalismo!”

Em muitos dos diálogos, os personagens falam sobre como suas vidas foram afetadas pelo fato de Possum Springs estar praticamente falida. A Beatrice (Bea) Santelo, amiga da Mae é declaradamente uma socialista, então alguns dos melhores diálogos do jogo acontecem com ela.

O jogo conta que antigamente havia uma mina de carvão na cidade mas houve uma acidente terrível que matou diversos funcionários e a mina foi fechada. Houve uma demissão em massa da companhia e como a cidade deixou de ter sua matéria prima, as empresas perderam o interesse em fazer negócios com ela. Algum tempo depois foi construído um viaduto que interligava duas cidades vizinhas de P. Springs, isso fez com que ninguém precisasse passar pela cidade. Ir para Possum Springs significava fugir da rota.

Com a economia da cidade em ruínas, viver torna-se um pesadelo e muitos moradores começam a desenvolver algum tipo de vício. O pai da protagonista por exemplo é um alcoólatra em recuperação e Mae comenta que ele ameaçava bater nela e em sua mãe.

Caminhando pela cidade ainda é possível encontrar muito outros personagens cuja vida foi afetada negativamente pelo capitalismo e isso traz muita realidade para a história ao mostrar como o capitalismo engole as cidades pequenas. Os fracos ficam mais fracos e os fortes mais fortes. Isso é presente também numa das músicas da banda dos amigos da Mae, “Die Anywhere Else” (Morrer em qualquer outro lugar) que fala como eles gostariam de conseguir escapar daquela cidade moribunda.

“Venha comigo, vamos morrer em qualquer outro lugar/ Qualquer lugar…mas não aqui”

Além disso, em certas noites se visitarmos o telhado do sr. Chazokov, o ex-professor de ciências da Mae, podemos ouvi-lo contar histórias sobre as constelações. Quase todas elas apresentam um protagonista que se rebela contra alguma forma de poder opressor, fazendo uma analogia entre os trabalhadores que tentam combater o capitalismo.

Visualmente atrativo

Scott Benson fez um excelente trabalho nos visuais do jogo. O estilo cartunizado marcante faz com que ele possa se dedicar mais na seleção de cores. O resultado é uma linda coleção de ambientes que constroem a atmosfera de Possum Springs.

O jogo também conta com visuais incríveis e ótimo uso das cores.

Trilha sonora incrível

A trilha sonora do jogo é 100% original.Todas as músicas foram feitas pelo Alec Holowka e são elementos de cena em vários momentos, seja nos ensaios da banda que Mae participa, ou em seus sonhos. A minha música favorita é “Astral Alley”, que é a música do segundo sonho.

O Outro lado da Moeda

Lento

Ao entrarmos em alguma obra fictícia é normal que demore um certo tempo até que alguma coisa importante aconteça na trama. Para NITW no entanto, a história só fica interessante na noite do festival de outono da cidade, que ocorre pelo menos na metade do jogo. Depois disso temos alguns outros dias monótonos e o final do capítulo 4 que é quando as coisas começam a ficar mais tensas até que a história atinja seu clímax principal e termine não muito depois que isso. Nesse sentido, é compreensível que algumas pessoas que começaram a jogar o jogo tenham perdido o interesse pelo jogo. Por mais que os diálogos sejam interessantes, acredito que se o criador tivesse reduzido a duração de 10h para em torno de 6h (me baseei na duração média de Undertale) esse problema talvez não existisse. A sensação de lentidão pode ser amenizada se o jogador ao invés de maratoná-lo, jogá-lo um dia por vez, ou um sonho por vez. Isso diminui a monotonia cria uma sensação de rotina com o universo do jogo, que eu acho que era a intenção inicial do criador.

Final confuso

Após vários acontecimentos, várias coisas são deixadas em aberto. Não há uma conclusão. Finais abertos não são um problema em narrativas, dar um suspense final à trama talvez seja o ideal a depender da história que é contada. O mistério de NITW é uma reviravolta na história, a famosa plot twist. Sem entrar em detalhes por causa de spoilers, a reviravolta tem muita influência do conto de terror cósmico de H.P. Lovecraft “O Chamado de Cthulhu”. Ao mesmo tempo tem um sentido muito metafórico com a história do jogo e foi muito esperto do criador usar esses elementos para construir a resolução daquele mistério. No entanto, justamente por ele ser muito complexo não funcionou bem como recurso narrativo. Houve uma ruptura em relação aos capítulos anteriores e por ser o final, o jogador não tem muito tempo de digerir tudo o que está acontecendo.

O Veredito

Night In The Woods como qualquer outra criação humana tem seus defeitos. Essas falhas definitivamente não podem ser ignoradas pelo jogador, mas não fazem com que o investimento emocional deixe de existir. Night In The Woods mistura mistério, humor e drama em um prato cheio de bons personagens, de críticas sociais ainda sendo muito slice of life. É um jogo assustador porque ele representa extremamente bem o mundo real, e por isso ele dificilmente será esquecido com o passar dos anos.

Pra finalizar, fiquem com o trailer do jogo:

Gregg rulz, ok?