Redonda Ep.1: O BREXIT da Premier League

Nas últimas sete edições da Champions League, apenas por uma ocasião um clube inglês venceu a prova. Se o Leicester não operar novo milagre esta temporada, a seca inglesa na principal competição de Clubes na Europa do Futebol adensar-se-á.

Wenger, Wenger…

Não há garantias de nada, mas não estaremos muito longe da verdade se definirmos a Premier League como “a melhor liga do mundo”. OK, o futebol nem sempre é o melhor. Mas é uma das ligas mais competitivas. É a que gera mais receitas. É uma das que leva mais gente aos estádios. É onde estão concentrados os melhores treinadores do mundo. É, com excepção para os três ou quatro ou cinco astros que brilham nas duas maiores cidades da Península Ibérica, o campeonato onde há mais talento por hectare.

Ah, e em termos de vitórias na principal prova de Clubes europeus, melhor que os ingleses só os espanhóis (16 vencedores e 11 finalistas vencidos) e os italianos (12 vencedores e 15 derrotados). Por seu turno, os emblemas ingleses levantaram o caneco em 12 ocasiões e viram o adversário fazer a festa em 7 edições. Já agora, SL Benfica e FC Porto garantem a Portugal 4 vitórias e 5 derrotas.

Neste simples e curto exercício de contabilidade, vamos perceber algumas das razões que levaram e levam ao desaparecimento dos clubes ingleses na lista de vencedores da Champions League. Sim, venceram 3 (Liverpool, Manchester United e Chelsea) nas últimas 15 edições. Colocando em perspectiva, Espanha conquistou 7 (galácticos, super Barcelona e Real), Itália 3, Alemanha e Portugal somaram uma vitória cada. Ou seja, se calhar, o problema não está na Premier League… Mas estará no desmesurado poderio dos gigantes espanhóis?

Messi “Quando voltar a Espanha, vou passear até Málaga. E tu?” Ronaldo “Acho que este fim de semana é para ir à Galiza. Estás com mais sorte do que eu…” @ PA

Vamos ver. Para tal, vamos pegar apenas nas últimas sete temporadas completas. Talvez, para este efeito, 2009/2010 seja uma espécie de ano-zero. Muitos vaticinavam o fim do Barcelona. Na Alemanha, o Bayern estava a delinear os planos que hoje o colocam à beira do penta. Em Itália o cenário também era parecido, mas o papão chama-se Juventus. E em Inglaterra estava a começar a divisão de poderes, com o Manchester City a intrometer-se na luta que, então, era só de Manchester United, Chelsea, Arsenal e, a espaços, do Liverpool.

No quadro que se segue, poderemos observar qual o clube vencedor da Champions League, os emblemas campeões nas 4 principais ligas europeias, e a diferença pontual destes para os quartos classificados nos respectivos campeonatos.

Vencedores da CL e diferenças pontuais entre os 1º e 4º classificados das principais ligas europeias.

Vamos às leituras mais simples que podemos fazer com este simples quadro:

  1. Nos últimos sete anos, quatro equipas conseguiram juntar o triunfo na Champions League à vitória no respectivo campeonato nacional;
  2. Nas suas ligas domésticas, estas mesmas equipas (Inter, Barcelona x2 e Bayern Munich) somaram, em média, mais 26 pontos do que os quartos classificados;
  3. Em média, nas últimas sete temporadas, o vencedor da Premier League somou mais 15 pontos do que o 4º classificado. Em Espanha, a diferença é de 30. Na Alemanha é de 24. E em Itália a distância entre 1º e 4º é de 22 pontos;
  4. Não está no quadro, mas o Chelsea foi 6º classificado no ano em que venceu a Champions League.

A título de curiosidade e olhando cá para dentro. O FC Porto venceu a Champions em 2003/2004 e foi campeão português com mais 56 pontos do que o 4º colocado. Um ano antes, os azuis e brancos haviam vencido a Taça UEFA, tendo também carimbando novo título em Portugal com mais 36 pontos. Em 2010/2011, a final da Liga Europa colocou frente a frente FC Porto e SC Braga, com vitória para os da invicta. Ah, foram campeões nacionais somando mais 38 pontos do que o 4º. Mais à frente, duas finais desta mesma prova para o SL Benfica. Em 2012/2013, o clube lisboeta ficou a 1 ponto do título, mas com 25 de diferença para a quarta melhor equipa da liga portuguesa nessa época. E em 2013/2014, o Benfica sagra-se campeão nacional com 20 pontos de distância para o quarto posto. Esta temporada, tudo indica que a diferença pontual entre 1º e 4º ronde os 20 pontos. Mas já não temos qualquer representante português nas provas da UEFA.

Carlo Ancelotti @ ESPNFC

Parece claro que, e por comparação com as outras grandes ligas europeias, vencer a Premier League é uma tarefa meio hercúlea. É o único campeonato onde, com alguma regularidade, a luta pelo título pode ser a 4 ou 6 clubes — veja-se, por exemplo, a temporada que agora se aproxima das últimas jornadas. A diferença pontual entre os clubes que se apuram para a Champions League é a menor - é metade da diferença pontual entre os quatro primeiros classificados em Espanha. É verdade que Real Madrid e Barcelona (e o Atlético Madrid nos últimos anos) se batem ferozmente pela vitória na liga espanhola, mas a diferença entre estes três e as restantes 17 equipas do principal campeonato do pais vizinho é absurda. Tratando os bois pelos nomes, Luis Enrique pode muito bem gerir o esforço do plantel quando joga com Osasunas, Deportivos e até com Betis ou Valencias. Na Alemanha, Ancelotti pode fazer gestão quase domingo sim, domingo sim. Em Itália, sobretudo nos últimos anos, o fosso entre Juventus e o resto está cada vez maior. Já na Premier League, José Mourinho não se pode dar ao luxo de descansar jogadores numa visita ao Hull City ou ao Swansea… é que pode nem conseguir um lugar nas provas europeias do ano que vem. E esta é a diferença.

A Premier League, ao apetrechar-se graças a grandes investimentos estrangeiros e a acordos de distribuição pornograficamente milionários, isolou-se. Parece um contra-senso, mas a Liga Inglesa ao agigantar-se à escala global, tornou-se mais pequena na Europa. A título de exemplo, o clube que desce de divisão em Inglaterra recebe mais dinheiro do que o vencedor da Champions League. Esta espécie de isolacionismo é preocupante. “A Federação e a Liga não querem saber dos clubes ingleses que estão na Europa”, disse José Mourinho. A verdade é que nestes moldes, as provas de clubes da UEFA não interessam à Premier League nem aos seus investidores. Não interessam as receitas, não interessam os horários dos jogos, não interessam os calendários…

Entre 4 de dezembro e 31 de janeiro, o Liverpool participou em 15 jogos. SETE entre 11 e 31 de janeiro… Ridículo!

Para o bem, e para o mal, a Premier League transformou-se na NBA. E se nada se alterar, o futebol da ilha continuará a desenhar o seu caminho. E as provas da UEFA continuarão com acordos frágeis a amarrar os gigantes de Espanha, de Itália e da Alemanha. E a dar pancadinhas nas costas nos gigantes da periferia, como são Benfica, Porto ou Sporting.

O fosso criado entre os clubes participantes em campeonatos que não a Premier League, dá a Real Madrid, Barcelona, Bayern Munich e Juventus (inserir outros, se for caso) condições privilegiadas no que toca à luta pelo título principal de clubes na Europa. E, claro, vão somando cada vez mais pontos para os seus países. Secando os terrenos à sua volta.

É no estádio ou no sofá da sala que alguns dos problemas se desvanecem a cada insulto que atiramos ao treinador que falhou na substituição. O desporto rei tem aqui a oportunidade (mais uma) de se afirmar — nunca o fará, infelizmente — como máquina da democratização, da integração, da igualdade e da prosperidade. A utopia e aquele golo do Van Basten são coisas muito bonitas. O futebol ainda é do povo?