“Homens Elegantes”, de Samir Machado de Machado

“O conde, inconformado com a indiferença de sua vítima na iminência daquele momento tão crucial, também se vira, ciumento de que atração possa ser assim tão mais interessante. Para a incredulidade de ambos, contudo, o grande objeto que vem passando pelas janelas, num sentido contrário ao do navio, é um mastro de gurupés que traz em si a mais inusitada das figuras de proa, (…) o brinquedo dos meninos, o aparelho dos ardores, a gazua dos furores e a chave mestra dos corações; a espada do amor, a viga central dos homens, o pêndulo do mundo, membro-rei das bainhas, formão dos prazeres, bastão dos regozijos e mastro mestre dos deleites — munido de um divinal par de asas.

Perplexos, os dois contemplam o avanço de um enorme passaralho.”

Há muito tempo que um livro não me divertia tanto. Em “Homens Elegantes” (Ed. Rocco, 2016), Samir Machado de Machado — que já tinha colecionado elogios com seu “Quatro soldados” — prepara um banquete de tiradas inspiradas em assuntos variadíssimos, desde a fabricação de doces à subcultura gay na Europa em meados do século XVIII. Trata-se de um romance de espionagem, recheado de referências a James Bond e travestido de sátira dos folhetins do “Século das Luzes”. Pós-moderno até a medula, não tem medo de rir de si mesmo. Ao mesmo tempo, é uma arma poderosa contra a onda conservadora que assombra o Brasil nos dias de hoje. Em suma, é ótima leitura.

Machado de Machado — nome que merece pertencer a algum personagem de Eça de Queiroz — começa morna a narrativa. Em 1760, Érico Borges, jovem soldado da colônia portuguesa do Brasil a serviço do conde de Oeiras (e futuro Marquês de Pombal), chega a Londres para investigar um esquema de contrabando de livros pornográficos. Nas primeiras cem páginas, o autor se preocupa com descrições minuciosas da cidade e do universo europeu do século dezoito, com seus homens e mulheres elegantes, os perfumes e os modos cultivados a disfarçarem o fedor e a hipocrisia que subjazem na sociedade britânica. Por um momento, pensa-se que o livro se perderá em descrições comezinhas de roupas e festas… mas eis que, durante um baile onde Érico confronta sua nêmesis, o conde de Bolsonaro (nenhum nome no livro foi escolhido por acaso), a narrativa toma fôlego e o leitor é jogado no meio das intrigas da diplomacia européia, com direito a cenas de ação que nada ficam a dever aos melhores livros daquele famoso espião britânico.

“Homens Elegantes”, porém, está longe de ser apenas uma releitura das novelas de espionagem. Ele também é um fino e erudito libelo sobre o que um personagem descreve como “a mais doce sociedade do mundo”: a comunidade gay. Em Londres, Érico logo é introduzido nesse universo, cujos códigos e conduta de sobrevivência a um mundo que lhe é hostil em muito lembram a resistência praticada diariamente pela comunidade LGBT no Brasil atual contra a intolerância e o preconceito. Machado de Machado pinta Érico, nesse sentido, como uma espécie de vingador dos atos de ódio insuflados por políticos e pastores, os Bolsonaros e Malafaias da vida. Ele é a revanche encarnada de milhões de homens e mulheres que, por muito tempo, foram e são forçados a suportar as piores injúrias por se atreverem a ser o que são.

Ao mesmo tempo, Érico é um personagem tridimensional, humano e frágil, com conflitos inerentes à sua profissão de espião e ao seu desejo de transcender sua condição de mero soldado. Quanto à sua sexualidade, porém, ele a tem muito bem resolvida: apaixona-se pelo compatriota Gonçalo, por quem nutre tanto carinho quanto uma forte atração carnal, descrita em passagens de fazer corar uma carmelita. Érico combate e despacha inimigos com a mesma finesse com que descreve diferentes tipos de chá. É sensível, valente e habilidoso, um herói tão memorável quanto improvável, um James Bond setecentista que conta com “Bondboys” no lugar de “Bondgirls” e que passa o rodo nos vilões sem perder a graça. Fico esperando a sequência de suas aventuras.