Jeff Buckley #1 Um encontro

Wolf River — Mepmphis

Criei o que vi. A minha cidade é uma ilha pequena, onde a arte praticamente não encostou. Há artistas, mas eles ficam como que pairando no ar: sem prédios, nem tradições — essas coisas que nos puxam. Por isto, algo desse artista, o músico Jeff Buckley (que adoro), raramente chega aqui em forma pública. Nesse dia eu e os fatos o fizemos chegar, juntos. Eu praticamente quis que acontecesse, por um querer instantâneo, que aos poucos vai se montando na cabeça, mas que não tinha grande prova pra poder acontecer ali. Até onde sei o Jeff não foi artista de rua. Foi artista do Café Sin-É, onde, para o ver tocar e para o tentar contratar, no auge do seu anonimato, 15 limusines de executivos estacionavam. Isso me puxou a minha criação, acho. Isso e certo pendor de artista de rua que havia nele. Num belíssimo video amador feito de sua primeira passagem à França, o vemos abrir o show com palavras que pareciam visar a instauração de intimidade, horizontalizando, pondo no chão, a relação dele com a plateia. Ele se mostra como aberto, sem enigmas. Um artista que se pode tocar. E seria a França o país, mais que o seu natal, que devotaria a admiração mais espantada ao músico. Aquele era o primeiro ou um dos primeiros shows dele lá. Parecia que ele estava na rua. Eu estava na rua em Florianópolis. A cidade que não tem história de arte. A minha cidade é bela. A arte, em resultados ou atitudes, nos traz o sentimento do belo. Foi belo o meu encontro. Eu dobrava a rua das costas da Catedral, indo para a do lado desta, e vi o menino tocando violão como um artista. Imaginei que se esta ilha tivesse história de arte ele poderia ser Jeff Buckley. Então tentei me convencer de que ele poderia, por um milagre, estar tocando o Jeff. De fora da igreja o milagre dos trovadores se fez: a canção era Hallelujah, de Leonard Cohen, hoje cantada em toda esquina do mundo graças a versão do Jeff, que a ressuscitou, para desde então não sair mais de cena, em 1994. Criei a realidade sem esperança de que fosse melhor.

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