Cifrão Bacanarte, o alienado

Cifrão Bacanarte era um típico cidadão de bem. Tinha um senso moral elevadíssimo e um apreço sem tamanho pelas boas tradições. Aprendeu com sua mãe a ser um bom católico (daqueles que não apenas vai à missa aos domingos, mas também confessa seus pecados — porque errar é humano — e comunga periodicamente). Aprendeu com seu pai a ser um Homem com H maiúsculo: duro como uma rocha, incapaz de se deixar abalar por emoções e afetos, pois isso somente convinha às mulheres e às crianças. Um homem com H maiúsculo não chora — isso é óbvio –, mas também não reclama da sorte que Deus lhe destina. Encara as adversidades da vida com a frieza e a sobriedade de um soldado e com a altivez de um oficial de carreira. Um homem com H maiúsculo trabalha sem reclamar. Trabalha como pode para prover o sustento da sua família. Essa é, aliás, a maior demonstração de cuidado e carinho que um homem com H maiúsculo pode e deve oferecer aos seus. Pois não há nada mais estúpido do que ser um bonachão que deixa faltar o pão de cada dia e o leite das crianças.

Depois de sobreviver a uma infância muito pobre no interior do interior de Itaguahy — sorte que coube a apenas cinco dos seus sete irmãos –, Bacanarte, “por mérito próprio” — como gostava sempre de frisar — passou de segunda numa Universidade pública onde cursou Direito — estudando à noite e trabalhando de dia para ajudar em casa. Foi na faculdade que conheceu a futura sra. Bacanarte: Maria Lúcia Pederneiras de Albuquerque Aragão e Bragança. Ela queria mesmo ter estudado Artes, mas acabou no Direito por insistência do pai, que era ministro do STF.

Já formado, Bacanarte corrigia todos aqueles que se referiam a ele como “Doutor”, pois “doutor é quem faz doutorado”. Não se sabe se por insistência do sogro ou do público — que insistia em chamá-lo “doutor” — Cifrão seguiu carreira acadêmica e em apenas 5 anos concluiu mestrado e doutorado, “tudo por mérito próprio”, apesar de ter contado com o peso do nome do sogro para passar em primeiro nas seleções que disputou. Ainda “por mérito próprio”, tão logo terminou o doutorado foi aprovado num concurso público com 789 concorrentes e apenas uma vaga para Juiz Federal.

Foi então que Bacanarte viu descortinar-se diante de seus olhos o sentido da sua existência. O propósito de Deus para sua vida havia sido enfim revelado. Como Juiz, defensor supremo da lei, da moral e dos bons costumes, cabia a ele assumir a árdua — e divina — missão de livrar o Brasil da corrupção que há séculos havia tomado conta de nossas casas políticas. Ele, Doutor — agora sim! — Bacanarte, havia recebido a missão divina de limpar esse país da corrupção, para enfim fazer vigorar a mais pura moralidade legal — ou legalidade moral — na vida política do nosso país.

Primeiro, colocou todos os políticos da “situação” sob investigação. Não tardou a descobrir que todos os políticos dos partidos da “situação”, do menos votado vereador do interior do interior de Itaguahy até o excelentíssimo presidente da República, estavam envolvidos em esquemas de corrupção. Acontece que, para se eleger, os políticos precisavam de uma boa campanha. Uma boa campanha custa um bom dinheiro. Então, às vésperas das vésperas de toda eleição, algumas grandes empresas muito bondosas procuravam os candidatos — ou eram por eles procuradas — para financiar suas campanhas com generosas doações. Uma vez eleitos, esses digníssimos candidatos — agora políticos — retribuíam as generosidades dessas digníssimas empresas, com favorecimento em licitações, uns milhõezinhos de isenções fiscais… coisas do tipo… nada demais… nada mais justo.

Cifrão Bacanarte não se intimidou. Pelo contrário: respirou fundo, estufou o peito e agradeceu a Deus pela envergadura da missão que lhe havia concedido. Antes de iniciar os processos, doutor Bacanarte, percebendo que as prisões já existentes não comportariam os tantos criminosos que ele estava prestes a condenar, usou — pela primeira vez conscientemente — da influência de seu sogro para ordenar a construção de um gigantesco complexo prisional — tão gigantesco que ocuparia metade do território do Mato Grosso. Não foi difícil convencer a cúpula do governo a levar o projeto a frente, pois, sem desconfiar que o presídio se destinava, na verdade, a recebê-los, viram na “empreitada” a oportunidade de retribuir favores a uma grande empreiteira que havia financiado uma boa centena de campanhas situacionistas. O projeto ficou pronto em um ano, pois quando há “boa vontade” mesmo os projetos mais astronômicos saem rapidinho do papel. Doutor Bacanarte apelidou o complexo prisional de “Casa Azul”, pois desde criança tinha uma aversão inexplicável à cor vermelha — dizem que só não desmaiava quando via sangue, pois desmaios só convém às mulheres e às crianças e não aos homens com H maiúsculo.

Deu então início aos processos. Conduziu julgamentos espetaculares transmitidos sensacionalisticamente “em tempo real” pela rede Lobo, a maior emissora de TV do país. Tornou-se herói nacional. Estampou capas de revista. Cumprindo com louvor sua missão, havia se tornado o verdadeiro arauto da lei, da moralidade e dos bons costumes. Ao fim de um ano de julgamentos espetaculares, todos os políticos governistas — que curiosamente tinham logotipos e bandeiras vermelhos, o que lhe proporcionava um ganho extra de satisfação pessoal, já que desde criancinha tinha uma aversão inexplicável à cor vermelha — foram presos na “Casa Azul”. A oposição apoiou cada passo do processo e, ao fim de um ano, com a prisão de todos os governistas, se viu obrigada a assumir o poder.

Muito orgulhoso por ter finalmente limpado o país da terrível corrupção que se havia instalado em nossas mais sérias instituições por séculos, doutor Bacanarte tirou um mês de férias, tempo durante o qual se dedicou a ler todos os registros dos seus processos, como quem dispõe da rara oportunidade de ler, ainda em vida, o próprio livro de “feitos extraordinários”. Mas a leitura não correu como esperado. Conforme revisava cada depoimento, percebeu que os políticos da antiga oposição — atual situação — eram citados diversas vezes como se, curiosamente, estivessem envolvidos nos mesmíssimos esquemas de corrupção que tão apaixonadamente denunciavam — e eram às vezes acusados de movimentar quantias ainda mais exorbitantes que seus adversários vermelhos.

Doutor Cifrão não se intimidou diante das novas descobertas. Pelo contrário, sentiu-se muito estimulado e agradeceu a Deus por ter dobrado a envergadura da sua tão nobre missão. Ao retornar das férias, ordenou que os atuais situacionistas fossem investigados e descobriu que todos eles, do menos votado vereador do interior do interior de Itaguahy, até o novo excelentíssimo presidente da república estavam envolvidos nos mesmíssimos esquemas de corrupção que seus sucessores — e pelos mesmos motivos. Novo ano de julgamentos e transmissões espetaculares, novo ano de prisões em massa. Dessa vez, doutor Cifrão Bacanarte foi além e, percebendo que todos aqueles esquemas de corrupção envolviam grandes empresas financiando campanhas, começou a desconfiar da generosidade daqueles tão nobres empresários e, sob a suspeita de que financiavam campanhas para no futuro obter favores escusos, mandou prendê-los todos também na “Casa Azul”.

Diante daquele tremendo “vácuo” deixado no poder, surgiu uma nova força, um novo “quadro”: um antigo deputado, que só se vestia de verde — devido ao seu background militar — se apresentou como o novo “salvador da pátria”. Tinha um discurso duro: suas palavras preferidas eram “ordem”, “bem”, “justiça”, “Deus” e “vagabundagem”. Mas a última, sempre com sentido negativo, claro. Seu principal projeto, afinal, era “acabar com a vagabundagem”, reestabelecer a ordem, fazer valer a justiça e garantir a qualidade de vida do “cidadão de bem”, tudo segundo os bons desígnios de Deus (o Deus cristão! Para que não fiquem dúvidas). Bacanarte não viu aí nenhuma ameaça à sua sagrada missão. Afinal, mais ainda do que odiava a cor vermelha, odiava, mais do que tudo no mundo, a vagabundagem: desempregados que não procuram emprego, viciados que se entregam às drogas, “artistas”, comunistas e bandidos… esses eram os grandes males de qualquer sociedade humana e deveriam ser combatidos como forças demoníacas que não cessam de atravancar os mais belos propósitos divinos para a humanidade.

Bacanarte assumiu o ministério da Justiça. E nunca antes se fez tanta justiça nesse país. Com o apoio do novo excelentíssimo presidente, que era indubitavelmente um homem com H maiúsculo, as polícias e o exército, sob o comando de Bacanarte, promoveram uma verdadeira “limpa”: todos os vagabundos desse país foram sistematicamente caçados e mandados para a “Casa Azul”. Os vagabundos que usavam a desculpa do desemprego, mas não procuravam emprego, os vagabundos que usavam a desculpa do vício para chafurdar nas drogas, os vagabundos que usavam a desculpa de serem “artistas” para não fazer nada, os vagabundos comunistas ou bandidos — o que não é muito diferente –, todos presos, todos enviados para a Casa Azul. Todos os praticantes de religiões demoníacas — isto é, aquelas que não reconheciam O Deus cristão como autoridade máxima — tiveram o mesmo destino. Gays, lésbicas, bissexuais e trans, por estarem envolvidos em práticas tão antinaturais e desviantes, vagabundos ou não, foram presos por incitar a desordem e agredir a moral e os bons costumes do cidadão de bem. Quando a rede Lobo teve suas novelas canceladas e seus “artistas” presos, se arrependeu de apoiar Cifrão e acabou tendo sua licença cancelada e seus jornalistas e donos presos. As redes sociais foram censuradas e controladas pelo governo, por iniciativa de Bacanarte, que não gostou dos “memes” que faziam com ele, comparando-o a lideranças nazistas, ou até pior — Deus o livre! — retratando-o como homossexual, como se tivesse um caso de amor com o excelentíssimo senhor presidente.

Muitas pessoas revoltadas com um Estado que consideravam “ultra-autoritário” — só porque obviamente não compreendiam nem praticavam os desígnios de Deus — saíram às ruas em protestos, manifestações de descontentamento, greves gerais. Bacanarte colocou polícias e exército nas ruas, armados até os dentes, com claras instruções de reprimir os excessos da massa de vagabundos descontrolados que crescia a cada manifestação. Centenas de milhares de manifestantes foram presos e enviados para a Casa Azul.

Mas, foi justamente então, quando tudo parecia melhor que nunca, quando parecia muito próximo de, cumprindo de uma vez por todas sua missão divina, instalar o paraíso na Terra, que Bacanarte entrou em crise de consciência. Assistindo aos vídeos das manifestações que circulavam na “deep web”, constatou que os policiais cometiam excessos imperdoáveis do ponto de vista da letra fria da lei. Chegavam a praticar tortura e assassinatos gratuitos. Isso não estava certo. Bacanarte precisava agir. Mandou o exército prender os policiais e enviá-los à Casa Azul. Depois disso, a crise de consciência se agravou e Cifrão começou a desconfiar que, deixando-se levar pelos belos discursos do novo excelentíssimo presidente, havia negligenciado a obrigação de investigá-lo e verificar se seus atos correspondiam às suas belíssimas palavras. Abriu uma investigação contra o novo excelentíssimo presidente e o resultado foi terrível: descobriu que esse homem aparentemente tão honrado havia passado 30 anos na Câmara dos deputados sem aprovar um projeto sequer, vivendo às custas do dinheiro público, praticando nepotismo (colocando seus próprios filhos na política) e que isso, indiscutivelmente fazia dele — acredite se quiser… — um vagabundo. Como não havia tolerância para vagabundos, Bacanarte mandou o excelentíssimo presidente direto para a Casa Azul.

Diversos setores do exército, muito simpáticos ao presidente, se revoltaram, e Bacanarte mandou que se encerrassem eles mesmos na Casa Azul. Eles, que somente tinham sido ensinados a obedecer, não titubearam e se trancaram a si mesmos no maior complexo prisional do mundo.

Com todos os políticos, empresários, artistas, jornalistas, adoradores do demônio, comunistas, vagabundos e criminosos de todo tipo presos, Bacanarte havia enfim terminado sua missão. Tinha sua consciência tranquila. E, sendo o único brasileiro comprovadamente incorruptível — devido ao seu senso moral irrepreensível –, verdadeiro herói nacional, autoproclamou-se como novo excelentíssimo presidente da República. Mas, sua felicidade durou pouco. Percebeu que, por uma razão ou outra, toda a população brasileira encontrava-se agora na Casa Azul. Até mesmo os bons cristãos, cidadãos acima de qualquer suspeita, percebendo que não havia mais a quem pregar ou a quem converter, encerraram-se a si mesmos na Casa Azul — pois ali estava a massa de “ovelhas perdidas” diante das quais podiam sentir-se moralmente superiores (e descobriram que era isso mesmo que lhes trazia verdadeira satisfação na religião).

Sozinho no país, doutor Bacanarte percebeu que algo devia estar errado. Abriu uma investigação contra si mesmo e descobriu coisas inimagináveis: revisando os relatórios dos três concursos nos quais havia sido aprovado em primeiro lugar (mestrado, doutorado e juiz federal), descobriu que seu sogro havia investido altas quantias para garantir sua aprovação em tão boa colocação. Descobriu ainda, quebrando o próprio sigilo bancário, que durante toda a sua carreira recebera uma “mesada” das mesmas empresas que financiavam campanhas políticas. Ele que não era nenhum mão-de-vaca, nunca foi de conferir contra-cheque, de modo que jamais havia percebido os depósitos milionários que políticos e empresários petulantemente faziam em sua conta. Revisando seus primeiros processos contra a corrupção, começou a desconfiar que sua aversão pelo vermelho tivesse influenciado seus julgamentos — afinal, por que havia julgado primeiro os situacionistas e não os oposicionistas? Sim, cometera uma injustiça, sem dúvida. Além do mais, o que ele, um simples juiz, um simples defensor da lei, da moral e dos bons costumes, estaria fazendo ali, no cargo político mais alto do país? Teria se deixado cegar pelo poder? Por um desejo de poder absoluto que nem mesmo havia percebido que pulsava em seu coração? Estava tudo acabado. Era o fim. Ele próprio, o excelentíssimo senhor doutor Cifrão Bacanarte, era uma farsa, um criminoso, uma fraude. Andava longe do bom caminho há muito tempo, mas vivia imerso na ilusão de perfeição do caráter… ilusão que o havia conduzido até a suprema ruína. “Falhei, meu Deus, mas não falharei mais”. Bacanarte, afinal, ainda tinha uma missão a cumprir. Encaminhou-se a pé pelas estradas desertas, até chegar atordoado, sujo e maltrapilho até o portão da Casa Azul. Entrou. Trancafiou-se ali com todo o resto do Brasil e jogou a chave — a única chave ainda restante - para o lado de fora.

Dizem que, com o passar do tempo, lá dentro mesmo da Casa Azul, constituíram-se novos governos, com novas situações e novas oposições, e novas empresas, e novos artistas, e novos “vagabundos” de todos os tipos… Bacanarte, não se sabe que fim levou… mas dizem que não era o mais amado dos alienados…

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