delírios de rodoviária 

um conto de 2012


Deus perdoa, a vida não. E para que, se tem horas que isso soa apenas como uma palavra muito vaga, e tão pesada que dá calafrios, talvez uma herança de séculos de proibições, de sistemáticas tentativas de redução à zero. Ao nada, essa palavra tão enigmática. Nada. Não sinto nada, mesmo sentindo tudo. Se for mais fácil para alguém deve ser por merecimento, ou deveria ser, ou isso é mais um reflexo do condicionamento a que somos submetidos a cada minuto. As bombas explodem anunciando alguma coisa que não viveremos mais, mas veja pelo lado bom, bombas não são, necessariamente, inimigas. E isso você já sabia. Desarmou várias delas. Eu rearmo só para ver como elas explodem, sintoma nada saudável de quem perdeu a bússola das distâncias. Eu não sei qual a distância que nos separa, eu apenas imagino. Eu apenas imagino e divago onde esse caminho desemboca, onde ele começou, onde ele bifurcou e indicou que nos perderíamos. O problema não é caminhar sozinho, o problema é não caminhar prazerosamente de cabeça vazia sem ter aonde chegar exatamente. Não ter aonde chegar, o ponto de chegada é tão volúvel quanto uma bola de sabão, e saber disso deveria ser um alento, deveria fazer com que pegássemos mais leve, nada de explosões descabidas por gotas de álcool no chão, excrementos cheios de um sentido inteiro. É difícil, se não sabe, saberá. Confiar em um livro num sábado à noite, quando não existe mais nada, essa é a diferença. Não existe mais nada. E sim o livro. É necessário grande esforço, sinceridade, doação. Deixe fluir, como se isso fosse a coisa mais fácil do mundo. Tudo bem, sim, podemos conversar. Você diz se eu acho que foi tudo precipitado, e eu te respondo que isso não importa, e não importa porque isso tava posto há muito tempo. Uns ficam pelo caminho para que novidades possam surgir, novidades surgem porque alguns ficam pra trás. Esses “alguns” não cairão necessariamente na sarjeta, talvez eles levantem a sarjeta e batam a cabeça contra ela, como se fosse a única coisa que lhes restasse. E da mistura do sangue com asfalto, alguma banda na varanda, um Sérgio Sampaio explicando a infância, nascerá o que já estava feito, mas não era percebido em meio a raios e trovões, distâncias insistentes, a chave. Não entre aqui que eu já acostumei, e meus amiguinhos podem se assustar, e a maternidade pode ser um câncer e você sabe. Vai ficando sombrio, mas não é uma tendência. Sombrio. Já foi. E tinha o vento novo na face nova, e era gelado, cortante, e o sol não tinha nascido. E isso era sombrio.




Desculpa aí, mas eu falei pouco. Bem pouco, a prisão, qualquer, nunca será bela. Mundo à parte? São vários, e tu conheces alguns, não conheces o meu. Talvez nem devesse mesmo, ele é partido em vários pedacinhos de monstrinhos caóticos, e não te culpo, porque não tem obrigação de compreender o que é incompreensível a olhos nus e nunca pediria que abraçasse meus olhos, eles são contagiosos, como se tivessem doentes por uma conjuntivite. Me trocas por calmaria. Invejo. Troco-te por “não adianta” e desço às profundezas. Sua afirmação de que escrevo essas merdas para fugir nunca estiveram tão certas, e eu nunca estive tão cheio de merdas para por pra fora. Veste sua calcinha e devolve minha camiseta, sim, são rojões como para findar um tempo histórico. Não, não vou usar a camiseta, só quero poder pedir algo de volta, ter algo para ofender. Sim, eu também ofendo, ou tento. Sim, há mais rojões, e eu os odeio, mas gostaria de ser um. Acender, voar, explodir e acabar. Cachorros latirão, mas eu terei acabado, como acabo agora, de outra forma, por outros meios. Um rojão que falha e deixa todos com o grito preso na garganta. Sim, não deveria me preocupar tanto com os outros. Nem você, nem com você. Porque desse jeito? E os porquês poderiam não terminar nunca. Eu trago novamente, num desespero de seqüências repetidas. Repetição, e eu sei que você se entediou. Não meu bem, eu já sabia que você era mais rápida. Sacou a garrucha num fim de uma tarde feliz, antes dos rojões, mas após as variações da mesma coisa. Esgotou, todos esgotamos. E tinhas razão, meio a meio, quando dizias: tome cuidado com essas pessoas passageiras. A felicidade está por todos os lados e por isso ela acaba tão rápido. Criar raiz é fundamental para não apodrecer precocemente, mas a raiz pode estar fincada por toda parte, assim como suas palavras que flertam com a crueldade. Crueldade é ruim de sentir, fácil de criar, difícil de esquecer. Variações de ritmo segundo as variações das entidades, que ironia, de forma e conteúdo. Trancados num cadeado velho, nunca aberto espontaneamente, nem por força maior. Ninguém grita que não serve mais, só estamos deslocados com essa parada introspectiva, que, aliás, não é deliberada, e essa é a pior parte. Quando pego a bicicleta ao nascer do sol, pneus quase furados, já penso na volta, e minha cabeça retorna para trás, o que ficou, porque o que está por vir não é algo a ser alimentado, e sim algo falido, que não saca a garrucha como você, mas mostra, todos os dias, a lamina que cintila, afiada e a postos. Sou tentado por belas pernas novas que não escrevem direito e fogem à minha compreensão de vassalo costumeiro. Te pego embaixo da mesa, de qualquer mesa, e não te acompanho no almoço de família. Muito menos na festa junina do bairro. Tu não compreendes a necessidade de certas coisa caminharem juntas, mas principalmente de certas coisas serem apartadas como água e óleo. Água e óleo, pacífico demais. Está na minha mão a decisão de abrir aquele cadeado ou não e isso pouco importa. Não faço humor porque não sei dos procedimentos e não quero soar vulgar. Um mês? Sério, para que? Essa história é desesperadoramente divertida, pois é repetição, e não é assim que, teoricamente, as coisas deveriam seguir. Eu deveria sentir raiva. Eu deveria me incomodar de, agora, ao amanhecer, anoitecer, você acordar em outra cama, saudável igual um alface orgânico. Enquanto por aqui restaram, sim, os restos. As camisinhas usadas ainda estão no lixo, os cigarros não fumados também, e vá, os fumados, por que não. E eu preciso sair daqui e vou a lugares desconhecidos onde o vento bate mais frio e eu não sei exatamente a disposição das ruas. Mas eu pareço gostar de estar ali, um lugar inóspito, mas com certa vida ilegal, que obrigatoriamente te tira da comodidade. Você tem que andar reto, pelo menos por alguns instantes, depois é voltar aos recipientes insuficientes para carregar suas coisas. Senão me engano foi Hemingway quem disse que o homem só é livre quando possui apenas o que pode carregar consigo, e isso faz todo sentido. Sem ter o que deixar para trás e sem ter o que encontrar na frente. Não me culpe pelas buscas sem caráter, não pense que elas não me dão vergonha, não pense que carrego sua mudança (para longe, é importante dizer) e depois faço meditação a seco, e levito. Sabemos que não funciona assim, sabemos que eu não verei você sorrir para o novo ambiente organizado, para a nova fase que sempre me excluía pelas entrelinhas. Fugir até me parece nobre agora que as manchas voltam. Vermelhidão que alerta que não é isso, coração querendo sair do peito para se dar conta da sua impotência. Não é pelo lugar, porque um dia eu pedi uma trégua, pedi que abrisse as pernas e me acolhesse. Me acolheu, acolheram, cada um à sua maneira, cada um com sua dose de violência. Uns se defendem sem saber do que exatamente, outros atacam sabendo exatamente onde querem chegar. A garota feliz pode ser a sua salvação, a sua continuidade talvez. Tomara que seja, eu tenho dificuldade para manter um lugar limpo e isso deveria me incomodar, assim como trazer os anos 80 de volta, e chorar compulsivamente sem ter, sequer, vivido nele, ou o que é pior, vivê-lo em outra época. Você nunca me disse sobre construir diálogos brincando com a solidão. Ou combater a solidão construindo diálogos, sabendo que o diálogo construído artificialmente é justamente meu fraco. Você não disse. Entre outras coisas que escondemos, e necessitamos de rituais para que as nossas faces fossem esfregadas com barro fedido, moldando alguma coisa nova. É, você não disse, eu não disse, eu não fiz, você não fez. Ó, não fazemos. Sim, o conforto isola e paralisa, e o contrário nos deixa insanos, precisando sempre de mais, mais ajuda, mais loucura, mais atenção, mais, mais. Nunca menos. Você quer falar de círculos sociais? Porra. Claro que não prestam, e desculpa se eu radicalizo esse isolamento, tem a ver com a energia, mais ainda com os estímulos, eu não consigo lidar com os meus próprios que já são vários e variados. Não me venha com mais antidepressivos, tarjas pretas, sempre me venderam, mas nunca disseram que, depois, quase nunca você consegue viver sem eles. E nem torna tudo tão mais fácil assim, pro bem ou pro mal. Explodiremos a indústria farmacêutica e suas cobaias. Você delira e depois reclama. Você aparece pouco, vai para longe, e reclama mais ainda. Continua delirando. Nem sei onde você está, e você fez questão que fosse assim. No fim das contas eu acabei numa rodoviária triste, minhas últimas três fichas do telefone público foram choradas contigo. Bye bye baby, nos vemos numa próxima curva mal feita.

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