Do buraco à cova: um relato febril de um narrador incapacitado

A Toca do Cassununga era tipo um buraco. Pensei comigo: porque me mandaram ver um buraco? Mas beleza. Confiei e fui em frente. Não era só um buraco, era como um buraco mágico com um fundo falso e nesse fundo várias cores. Várias formas de olhar. Comecei a entender o porquê aquele lugar era especial quando escutei o silêncio. Reinava em trono grandioso, e era apreciado respeitosamente pela fauna e flora presentes ali. Senti uma integração imediata. Interessante como vamos do “buraco” à “integração imediata” em menos de 10 linhas. Talvez só isso bastasse. Mas o desafio era seguir a caminhada até o Cemitério do Pontal. Não consultei o Google, mas imagino que seja algo em torno de 2km. Um belo morro no caminho, o que significa também uma bela ladeira. Saindo da Toca ainda estou com a cabeça meio entorpecida por aquele silêncio o que acaba incitando aquela confusão entre o “observar” e o apenas “enxergar”. Fui acordando aos poucos, o sol meio alto fritando meus miolos, me sentia febril desde cedo. Na verdade acho que eu tava passando mal. Achei irônico estar caminhando para o cemitério mas resolvi não pensar mais nisso. Segui por toda orla da praia do Jabaquara tentando deixar a cabeça vazia e só observar. Algum movimento entre locais e turistas. Quiosques abertos. Outros fechados. Nessa hora eu sempre penso nos donos desses quiosques e lembro daquela história abominavelmente capitalista da cigarra e da formiga. Foda-se se o cara não quis abrir o quiosque dele num meio de semana fora de temporada. Provavelmente ele preferiu ficar em casa de conchinha com a patroa, tomar uma breja ou dormir longamente. Sempre lembro do Javier Bardem bradando “formiga filha da puta” em “Segunda Feira ao Sol”. Voltei a ficar com raiva dessa formiga que sempre me assombrou e não consegui mais ver muita coisa. Enfim. Segui mais de olho no mar do que na cidade. Imaginei que isso denotava que eu devia estar mais pra reflexivo nesse momento. Conclusão totalmente inútil, imagino. Atravessei a ponte. O rio sujo, malditamente, me lembrou São Paulo. Quase preferi o cemitério. Subi o morro, coração calmo. Pensei nos 3 meses e pouco sem cigarro. Até que valeu a pena, pensei. Bullshit. Além de sentir falta do cigarro o dia todo, dei mais alguns passos e já tava, finalmente, com o coração dando pinotes. Caralho, tive que pensar no cemitério mais uma vez. Mas parei logo porquê os carros ali no morro são um pouco raivosos demais e se você se desequilibrar do asfalto estreito eles te mandam de volta pro Jabaquara. Pra depois te levar, de volta e de novo, pro cemitério. Mas dessa vez, de vez. Cheguei no cemitério do lado de fora do caixão, o que já era lucro. Agora o cemitério não me assustava mais. Que bela vista. Lembrei de um dia que eu cheguei em Paraty de barco e vi os jazigos lá em cima. Encravados no morro. Dá até uma vontade — confesso que estranha — de ser enterrado ali. Dei uma desbaratinada, rodei os túmulos. Assumo que procurei alguma celebridade histórica, sei lá. Não achei. E o dia já começava a cair e a febre voltava. Bateu um vento gelado que me arrepiou a nuca. Vou sair daqui, pensei. Um cemitério não deve ser o melhor lugar para sofrer de uma alucinação febril.

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