Tá quente aqui Joana

Joana,

Sei que prometi nunca mais te escrever, mas acontece que o fogo tá alastrando. É isso mesmo, acho que o camarada lá em cima finalmente ouviu suas preces: “Vá pro inferno! ”. Ele entendeu que o recado era pra mim e pela temperatura da situação acho que eu parei no lugar “certo”. Quer dizer, certo pra você. De alguma forma isso é culpa sua né Joana. Foi você que me atormentou, dia e noite, pra que eu arrumasse um trabalho sério, um trabalho de verdade. E eu arrumei. E trabalho sério pra você significava um escritório acima do vigésimo andar, na avenida principal da cidade, terno e gravata, almoçar com o crachá no bolso, essas paradas todas. Ah Joana… E você foi se engraçar justo com o cara do segundo andar. Cadê seus princípios? O mesmo cara que a essa altura, e pela altura que ele tava, conseguiu escapar dessa tragédia. Sim, é uma tragédia Joana. Nem todo caladril do mundo ia poder salvar nosso amor agora. Apesar da temperatura bastante elevada por aqui, dos documentos se incendiando um a um, de eu não saber onde foi parar minha gravata e das pessoas que já começam a se jogar do prédio por causa do desespero (o barulho quando batem no chão é horrível), eu te digo e penso Joana: Por que? (Espero que você leia esse e-mail assim que vê-lo Joana, não o mande para a lixeira, isso é sério). Na nossa última briga você me acusou de ser pão duro. Mão de vaca, essas coisas. E sabe por qual razão? Sabe Joana? Porque eu não quis assinar aquele plano funerário, que nos deixaria seguros no futuro, segundo você. Aquele mesmo plano que saía mais caro se a gente incluísse a cremação como método a ser utilizado em caso de morte. Sente a ironia Joana? (Não me trate como spam Joana). Sente? Tá esquentando aqui. Lembra aquele verão maravilhoso que passamos no Guarujá? Tá bem mais quente aqui. Parece que esse calor tá derretendo meu cérebro, mas é como se estivesse me ajudando a pensar. Estou vendo coisas que não via antes Joana. Seus abraços, no início do nosso namoro, eram quentes assim. Acho que estou começando a ficar confuso. Lembra daquele dia em que nos embebedamos de vinho? Eu tropecei no tapete e destruí, com o vinho, seu livro do Vinícius de Moraes. Você sabe que, agora, eu finalmente entendi aquele poema que você começou a recitar bem puta da vida? Caralho. Aquela história do “Que não seja imortal, posto que é chama”. Era pra mim né? Eu não acredito que você tivesse me colocando praga não, acho que era outra coisa. Você me amava Joana. No fundo você me amava. Mesmo sem saber direito. Do seu jeito violento, mas amava. Agora nosso amor tá virando cinza. E nem vai renascer. Que clichê né Joana? Nós que prometemos nunca cair no lugar comum acabamos bem dentro de, veja você, um clichê. Sinto uma ardência no peito Joana. E no corpo todo. Não é de desejo não, safadinha. Queria te dizer que os caras que trabalham abaixo do vigésimo andar não são sérios Joana, no segundo andar então, são péssimos. Caralho Joana o computador tá derretendo. Preciso ir. Agora sou essa tal chama. Mas essa coisa do imortal eu ainda não acredito.

Adeus Joana, eu te amo.

P.S. Não adianta fingir que não leu, vou mandar esse texto até para aquele seu e-mail do BOL. Segundo andar não dá Joana.

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