Uma mudança de turno estraçalhou meu coração

As dores no corpo só me ajudavam a protelar o hospital. Não tinha grana suficiente pro táxi e a caminhada se tornava extremamente longa na minha cabeça febril. Resolvi tentar o táxi. Liguei. O cara do outro lado da linha parecia muito bravo comigo. Porra, eu aqui fodido e o cara tá puto comigo sem o menor motivo. Meu crime: pedir um táxi pra um taxista. Não entendi meu erro, mas aceitei. “Até lá dá R$ 25”. O tom de voz dele era quase como se quisesse me acertar com um taco de beisebol. Dei uma de destemido e perguntei, quase de sacanagem: “Não rola taxímetro?”. Desliguei assim que ele começou a falar. Eu nem tinha a grana e aquilo tava ficando perigoso. Me arrastei de casa. Acho que não tinha alguma coisa na minha existência que não doía naquele momento. Eu que imaginava já ter sentido as piores ressacas, aquilo era como uma ressaca acumulada de pelo menos uns dez carnavais. Atravessei a ponte de pedestres, cruzei uns mosquitos. Não sei se eram mosquitos do tipo que transmitem dengue, mas resolvi não encará-los em demasia. O mundo não andava sorrindo muito pra mim. Lembrei rapidamente do taxista e automaticamente apressei o passo. Me envergonhei dessa atitude, ergui a cabeça e voltei ao passo normal. Comecei a sofrer ataques de hipocondria do meu insconciente. Martelava na minha cabeça com o diagnóstico do pior tipo possível do vírus. Um super mosquito mutante ainda não catalogado. Um mosquito que botaria medo em todos os mosquitos ali da ponte. Dengue tipo 82B, algo assim. Caminhei pelo calçadão e nunca achei Paraty tão sem graça. Meu estado de espírito inspirava sérios cuidados. Não era só meu corpo que derretia, eram todas minhas convicções sobre o mundo. Quando dobrei a esquina do hospital foi como se o taxista tivesse finalmente me acertado com o hipotético taco de beisebol. A fila tava do lado de fora. Imaginei que, idealmente, aquilo seria apenas uma galera urubuzando alguma tragédia. Botei a cara pra dentro da porta e instataneamente quase botei todo o resto pra fora. Tinha toda uma humanidade doente lá dentro. Mas meu “quase-gorfo” se potencializou mesmo quando eu li no cantinho do cartaz pregado lá dentro que a espera seria de pelo menos 240 minutos. Segurei o “quase-gorfo” e a primeira coisa que pensei foi na identidade do filha da puta que colocou aquilo ali na casa dos minutos e não das horas. Típica tentativa de sacanear uma percepção doente. Numa conta rápida me imaginei ali durante aquelas quatro horas e acabei descobrindo o tamanho da minha ingenuidade. Nas primeiras quatro horas o mundo pareceu dar um par de voltas. Meu otimismo com a humanidade — atacado brutalmente primeiro por um mosquito mutante e depois por um taxista desprovido de seretonina — começava a recuperar forças. Fiquei tranquilo de estar num hospital quando meu coração começou a dar pinotes. Vestida de branco, ela chamava os pacientes para tomar o sorinho mágico. Era a mais esperada da sala, a mais querida, aquela que todas e todos erguiam os olhos com volúpia quando passava. Ela significava o fim da espera. Comigo não seria diferente. Depois de 360 minutos, amor à primeira vista. Já quase me confundia com a cadeira quando ela falou meu nome. Ameacei um quase desmaio e aqui já não sabia se era amor ou dengue mesmo (ambos bem perigosos). Acordei com a agulha no braço, me sentindo momentaneamente renovado. Ergui a cabeça e procurei e perguntei. Uma simples mudança de turno estraçalhou meu coração. Eu parado ali, segurando o soro. A humanidade morria pra mim pela segunda vez no dia. Tinha ganas de dar uma surra no taxista. Tirei a agulha. Dei gritos histéricos e saí correndo. Confesso que foi até meio esquisito. Lá na ponte eu pegaria aqueles mosquitos.

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