A novela do ano

Créditos: Facebook/Globo

“Verdades Secretas”, que encerrou hoje na Globo soa como um sopro de criatividade na dramaturgia. A história polêmica de Angel (Camila Queiroz) deu o que falar durante toda sua exibição. A dupla formada por Walcyr Carrasco e Mauro Mendonça Filho foi extremamente feliz na condução da trama.

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Logo na estreia já vimos uma diferença sutil entre ela e as outras tramas: Os créditos inseridos na cena inicial — A abertura, só seria conhecida ao final do capítulo, com ela sendo apresentada normalmente a partir do segundo dia — um grande plano aberto que ia se aproximando até focar na até então ingênua Arlete. A menina do interior que esperava na janela, literalmente, e mal imaginava o que sua vida se tornaria nos capítulos seguintes. A estreante Camila Queiroz conseguiu defender bem sua personagem, mesmo sendo sangue novo na dramaturgia. Se cabe um comparativo, o desempenho da moça no vídeo foi superior ao de outras “ninfetas” estreantes de outras obras.

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Além de que, o trio encabeçado por ela, Alex (Rodrigo Lombardi) e Carolina (Drica Moraes), a sua mãe, foi polêmico até o final, com o trágico suicídio da mulher após o fatídico flagra. Contudo, se se esperava um desfecho moralista… Angel matou Alex, o homem responsável por todas as suas desgraças e conseguiu ainda um final feliz ao lado de Gui (Gabriel Leone).

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O submundo das drogas foi mostrado de forma crua. Ainda que não se tenha mostrado cenas de consumo explícito (Apenas a insinuação, com o pré e o pós-consumo). Grazi Massafera teve o papel de sua vida, se entregando de corpo e alma a Larissa. O desenvolvimento da trama da personagem foi chocante e serviu de alerta social. Vale destacar dois momentos: A cena em que ela, já consumida pelas drogas, se vê diante de um espelho e se desespera com o que virou e (esta a mais forte de todas) a que fora estuprada por diversos viciados na cracolândia e, posteriormente, aceita o socorro do missionário Emanoel (Álamo Facó). Desde “O Clone” uma obra de televisão aberta não abordava o tema de forma tão áspera.

O norte realista e forte da trama foi seguido em outros pontos. Como no texto, que a despeito de críticas no que toca a falta de sutileza em alguns diálogos, estes eram cabíveis na atmosfera da trama. Eufemismos e poesias não seriam convenientes.

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As relações doentias e a ambiguidade da maioria dos personagens também foram um caso excepcional. O grande exemplo é o casal Fanny (Marieta Severo, de volta as novelas depois de mais de 12 anos) e Anthony (Reynaldo Gianecchini). Um tratado de interesses. Fanny era rica, bem sucedida e simpática, mas escondia duas faces escuras: A exploração de suas modelos por intermédio do book rosa e a incapacidade de ter um alguém de verdade, sem interesse e que não cobrasse nada em troca, vivendo de migalhas de amor. Do outro lado, Anthony, que tinha tudo pra ser apenas um mau-caráter, mas atrás daquele modelo arrivista tinha um homem angustiado com o vício de sua mãe no álcool.

Um ponto que merece ser citado também é a direção da trama e a produção musical. Em inúmeros momentos vimos planos, enquadramentos e sequências dignos de cinema. Mauro Mendonça Filho e equipe conseguiram extrair o melhor dos atores e dar quase todo o brilho especial que a novela teve. A produção musical encabeçada por João Paulo Mendonça, tanto no que se refere à música original, quanto às músicas selecionadas, além da minúcia de utilizar estas não como tema de X personagem, e sim como tema da situação, ajudaram a valorizar suas cenas. Uma ótima sacada.

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O público respondeu à altura. Novela foi um sucesso de audiência e repercussão. Todos os dias, se viam comentários nas redes sociais e nas ruas. De acordo com o Ibope, na Grande São Paulo até seu penúltimo capítulo acumulara média de 20 pontos, sendo a novela mais vista desta faixa (Até então, as detentoras do título eram “O Astro” de 2011 e “Gabriela” de 2012, ambas com 19 pontos de média geral). No PNT, mesma coisa. Divide com “Gabriela” o título de trama mais vista, também acumulando 20 pontos até o início de setembro. No Grande Recife, a história até o final de agosto tinha 17 pontos de média parcial (As antecessoras, “O Rebu” e “Saramandaia” fecharam com 15 na capital pernambucana). Segundo o Ibope Twitter Ratings, durante quase toda sua exibição foi o produto mais comentado da casa, ofuscando até mesmo a novela das 21h.

Claro que nem tudo foram flores. A relação farsesca entre Visky (Rainer Cadete) e Lourdeca (Dida Câmero) soavam como tentativa de alívio-cômico de novela das 19h. O texto, em algumas cenas, soou infantil. Como em uma discussão entre Carolina e Alex em que a mulher após ser chamada de burra só faltou xingá-lo de “feio, bobo e chato”. Mas o saldo total foi positivo apesar dessas ranhuras.

Em um tempo em que as obras apresentadas na dramaturgia só exploram a exaustão um único cenário, deturpam sua história por histerias sociais ou apresentam mais-do-mesmo, “Verdades Secretas” fugiu de tudo isso. Não obstante, merece o título de novela do ano, com congratulações a todos os envolvidos.