Novo trecho do romance “A Rainha Jezebel”

Um medo contudente investiu contra Ignácio ao despertar. Enquanto escovava os dentes, em frente ao espelho, violentado pelos tormentos da ressaca, notou a devastação. Bolsas negras sublinhavam seus olhos, desfigurando o rosto, que se mostrava redondo e inchado, como o semblante de um buldogue velho. Era sábado, quase ao meio-dia, e dentro de poucos minutos ele seria chamado para deixar a suíte e apresentar-se diante do pai, na sala, onde serviriam o almoço; e era aí que se achava a fonte do seu sofrimento. Os suplícios físicos, a dor de cabeça, a tumidez, pouco lhe importavam quando comparados ao terror da idéia de ser apanhado pelo pai. Ignácio sentia a angústia dos meninos que portam um boletim marcado com notas vermelhas. A ignorância de como retornara para casa multiplicava a aflição. Teria o pai visto? Teria percebido alguma coisa? Vasculhou a carteira e as roupas, que estavam atiradas pelo quarto, amarrotadas. Apenas uma pista iluminava parcamente o mistério e lhe permitia recompor parte do mosaico da noite anterior: um recibo de cartão de crédito, encontrado no bolso posterior da calça, que indicava a hora do pagamento — 04:53.

Bateram à porta, uma mulher. Ele não iria almoçar?

Empostou a voz:

— Já vou, já vou!

Ignácio aprontou-se o melhor e o mais rápido que pôde, tomou uma ducha gelada, barbeou-se, penteou os cabelos e vestiu-se com o aprumo e a dignidade possíveis para uma pessoa daquela condição. Antes de deixar o quarto, mirou-se ao espelho, continuadamente; conferia se ainda restava algo que o denunciasse. Por via das dúvidas decidiu reescovar os dentes e fazer um longo gargarejo com anti-séptico bucal; então, razoavelmente satisfeito, perfumou-se à farta, destrancou a porta, e saiu.

Cruzando o corredor, viu a textura do papel de parede com arabescos; e, emoldurado sobre uma passadeira, entre dois vasos recheados de flores falsas, fitava-o, gravemente, o óleo do tataravô, com aquela barba basta e cerrada, e aqueles bigodes pontiagudos, característicos do século XIX. Na sala de jantar, as cortinas estavam afastadas, e a luz entrava pelos janelões do apartamento, refletindo nos detalhes em mármores, nos filetes dourados das portas, nos lustres de cristal. Um imenso tapete persa cobria o piso de madeira. O rapaz estranhou ao ver que a mesa não estava posta como de costume. Onde estavam as taças de vidro temperado, uma para água, outra para vinho? Os talheres de prata, os garfos e facas para peixe? As colheres de sobremesa dispostas em frente aos pratos? E onde estavam os guardanapos de pano, sempre envoltos por um laço de cetim, e dobrados sobre a louça marcada com o brasão da família? E os sousplas, e a toalha branca revestindo a mesa, onde estavam? Pois não havia nada! O tampo de mogno brilhava intensamente, limpo, como se recém-encerado. Igualmente vazio estava o aparador, sem prataria, travessas, sopeira ou saladeira. Redobrou-se a preocupação de Ignácio. O que significaria aquilo? Estaria o pai tão bravo que se recusava a dividir a mesa? Seria isso? Começaram os sintomas físicos de um medo brutal, inaudito. Uma palpitação na nuca começou a lhe incomodar, o rapaz olhava para baixo e caminhava arqueado, sem confiança, como se protegesse o peito de algum golpe iminente. O que poderia lhe acontecer? Que tipo de castigo? Que tipo de consequência? Era uma experiência nova. Durante toda a vida Ignácio fora um menino exemplar. Salvo uma outra pequena escorragadela de pouca importância, ele sempre cumprira com todas as obrigações. Compreendia que era o orgulho da família, e orgulhava-se por isso. Excelente aluno (o colégio nunca lhe trouxera qualquer dificuldade), tido como responsável e inteligente, o rapaz sabia-se objeto de fortes expectativas. Quase tremia quando atravessou a porta que ligava a sala à copa. Seguiu adiante, penetrou a cozinha; onde topou com Maria José, a cozinheira, uma equatoriana corpulenta e simpática, que trabalhava na casa há anos, desde que haviam voltado — ele e o pai — do Brasil. A mulher trajava um avental florido e mexia algo dentro de uma panela, diante do fogão. Havia cheiro de coentro no ar. A barulheira do depurador de ar irritava Ignácio, que perguntou:

— E o almoço? E o meu pai?

— O Sr. Juan não está em casa, viajou ontem à noite, vai passar o final de semana na casa de Punta del Este com a Dona Emilia, pediu para eu te avisar.

Que notícia poderia ser melhor? A descoberta do Eldorado, o achamento da fonte da juventude, não trariam mais felicidade. Um imenso “Ufa!” eclodiu do fundo do seu peito. Que refrigério! Que alívio! Que libertação! Então seria isso? Ficaria impune? “Pelo jeito, sim!”, pensou, alegre e surpreso.

De tão contente, até brincou com a empregada, o que não era seu costume:

— O que tem de almoço? Esturjão fresco do mar Cáspio?

— …?

— Você me chamou, achei que a comida já estivesse pronta…

— Cinco minutinhos, eu já sirvo!

Ignácio deu de ombros (não tinha fome alguma), dirigiu-se ao bebedouro e rapidamente esvaziou três copos d’água.

— Quanta sede! — exclamou a cozinheira, que leu rapidamente o que estava acontecendo.

Após a refeição, o rapaz se enfiou no quarto, de onde quase não saiu durante todo o sábado e o domingo, tendo permanecido de molho, recuperando-se, lendo, vendo filmes, navegando na internet, e dormindo muito.

Surpreendentes lições foram extraídas desta bebedeira, um episódio revelador, que destampou os olhos de Ignácio para os fundamentos da moralidade juvenil então vigente naquele ponto meridional do planeta. Escancaram-se as vantagens da conduta assumida na sexta-feira anterior; e, gradualmente, tal comportamento veio a converter-se em regra (e até em ideal) para o jovem rapaz. É certo que nas primeiras horas ele foi inevitavelmente tomado pelos pensamentos habituais, muito conhecidos por quem quer que haja um dia experimentado o mesmo: “nunca mais beberei”, “nunca mais farei isto”; estas idéias habitaram-lhe o espírito por algum tempo, naturalmente, mas se apagaram à primeira audição dos comentários elogiosos propalados no colégio. Logo na segunda-feira pela manhã, no primeiro dos intervalos de aula, os comparsas da gandaia principiaram a enaltecerer os acontecimentos, transformando-os em divertidas anedotas, que suscitavam olhares maravilhados nos interlocutores. A difusão das nótícias tomou o molde dos feitos heróicos de grande valor, e Ignácio percebeu o potencial de dilatação de sua popularidade. Foi o que bastou para lhe convencer, em definitivo, dos inegáveis benefícios de se viver la vida loca.

Veio então a metamorfose, ratificada pelo primeiro dos êxitos. Apenas duas semanas depois da noitada iniciática, lá estava ele, outra vez, bebendo da mesma tequila, com os mesmos amigos, no mesmo lugar. Desta vez já não era mais um debutante, e no banco traseiro do Citröen de Cristina, uma garota mais velha, regalada por Agustín (é claro), o epílogo da noite — não obstante a pressa e a falta de jeito — foi considerado feliz.

Incipit vita nova, increveria um Dante às avessas no livro da memória do rapaz.

Ignácio mudava; aclimatava-se; convertia-se ao mundo.

Não tardou para mudar seus hábitos e trejeitos; macaquear com excelência o vocabulário e as vestes dos boemios da sua geração; dominar os códigos tácitos e as regras implícitas da comunidade. O próprio rapaz se surpreendeu com a revelação de sua inesperada desenvoltura social. Fora aceito rapidamente; ingressara no clube; agora estava pronto para desbravar aquela terra de promissão.

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