Uma Vida Extraordinária

A Avenida Brasil numa manhã ensolarada de janeiro; as bandeiras dos hotéis drapejando; as lojas plenas de mercadorias; gente indo, gente vindo; nada deverá ser opaco, nada deverá ser morto; haverá cor, haverá vida!

Assim pensou Maria Lúcia, no seu dia de folga, ao cruzar o saguão do seu edifício, cumprimentar o porteiro, e percorrer as poucas quadras que lhe separavam do destino.

Mal passamos o réveillon, porém, e os comerciantes já estavam todos liquidando. Havia cor, mas pouca vida.

Em todas as vitrines, suplicavam — escritos à mão, com tintas variadas, em caligrafia quase infantil -– os cartazes dos lojistas; cartolinas sequiosas de atenção:

“40%, 50%, 60% OFF!”

O ano seria difícil…

Era vão, todavia, o esforço dos mercadores; com a rua vazia, sequer os vira-latas davam pelota para os descontos. Um deles, o mais sarnento, (vejam só!), chegava a ter a empáfia de olhar indiferente para as bexigas que arqueavam sobre a porta e emolduravam a entrada de uma loja de roupas e bijuterias, sustentando, no frontispício, uma faixa com este dístico curioso:

“TORRA TUDO!”

A loja ressoava, gritava, e o bichinho nem ligava, comunicando a mais olímpica das arrogâncias; deitado sob a marquise de um prédio, protegendo-se do calor saariano do verão, coçava freneticamente a orelha direita, usando a pata traseira, nem aí para aquela interessante peça publicitária. Desapegado como um lama, parecia pensar, com seu cérebro canino, pequenino como uma noz: “Estas bugigangas chinesas da 29 de março? Não, obrigado… não as quero nem de graça! ”

Se ele, cachorro, por seu lado, podia nada querer com aquilo, sabido que era das coisas deste mundo; contrariamente, havia a gente humana… E esta, ó surpresa!, sempre pode vir a querer mais, sempre pode vir a pensar o exato oposto de algum experiente cão de rua. Era este o caso, por exemplo, de Maria Lúcia. Bastou um leve relance do anúncio da promoção, para a mulher ficar maravilhada, os olhos cintilando.

Sem hesitar, entrou.

A loja era um cubículo de menos de dez por dez, apinhado de mercadorias desordenadas, transbordando pelas prateleiras e araras. Atrás do balcão de fórmica, um homem de 30 anos, barba por fazer, metido numa camisa listrada mal passada, que vazava pra fora da calça jeans, e com o rosto visivelmente inchado de ressaca, vegetava com uma cuia de chimarrão nas mãos. Nem bem a mulher cruzou o pórtico das bexigas, e o sujeito, despertando do fastio, já largou a garrafa térmica, e saltou da banqueta. Num segundo, fez-se solícito, abrindo um forçado sorriso.

Sem demora, Maria Lúcia principiou a provar peça atrás de peça, confessando carinho especial pelas coisas mais estrambóticas que lhe cruzavam o olhar. Postada defronte do espelho; ansiosamente pendurava brincos nas orelhas, metia colares no pescoço, enfiava chapéus na cabeça, testava óculos de sol. Sentia-se gloriosa, como se pudesse comprar o mundo.

— Quanto custa este colar? E esta pulseira?

O vendedor nem tinha tempo de abrir o bico, a própria mulher, afoita, já respondia, lendo as etiquetas em voz alta.

— Trinta reais, quarenta reais, cinquenta reais…

— Está ótimo! Combina com o chapéu — mentiu o homem, intrometendo-se.

— Será? E este lenço? Tem de outra cor?

— Tenho azul, amarelo e rosa. Além deste vermelho, é claro…

— Qual será que fica melhor? — murmurou Maria Lúcia, sem esperar resposta. E emendou: — Tem desconto à vista? E se levar os quatro?

— Posso dar dez por cento… — replicou o vendedor, evasivo, afetando indiferença; — Dez por cento no dinheiro.

A mulher vacilou, pensando um pouco. Então recolheu as quatro peças, e as colocou sobre o balcão:

— Posso deixar aqui enquanto escolho?

— Claro, claro, fique à vontade!

— Ai, obrigada… Desculpe a bagunça, mas é que dá dó ter de escolher. São todos tão bonitos…

O homem resmungou qualquer coisa e, novamente, fingiu sorrir.

Maria Lúcia continuou a examinar a loja, de um lado para o outro, confiante como uma rainha da França. O vendedor seguia no encalço, perseguindo-a como uma sombra.

A cada passo ou dois da compradora, mais alguns minutos eram gastos diante do espelho, e mais algumas peças iam parar em cima do balcão, separadas para escolher melhor.

Mais de meia hora evaporou assim, e Maria Lúcia ainda provava tudo o que via pela frente, sem dar sinais de que tomaria um parecer final.

O vendedor sofria, e não conseguia disfarçar os sinais de impaciência. Mentalmente amaldiçoava, soltava palavrões, xingava aquela velha que não se decidia. Também se angustiava. E se a mulher saísse sem nada levar, após fazer toda aquela bagunça na loja? Mais do que tudo, entretanto, doía-lhe a necessidade de ser simpático com a desconhecida.

Transcorridos mais alguns minutos, a própria freguesa se cansou. Olhando a pilha de coisas sobre o balcão, pensou que era hora de pagar, de averiguar quanto tudo aquilo iria dar.

Disse, então:

— Soma pra mim? Acho que deu por hoje…

O vendedor não disfarçou o alívio, fez cara de “até que enfim!”; e, segurando a maquininha de calcular, disparou:

— Quatrocentos e quarenta e três reais. Vai pagar à vista mesmo ou prefere no cartão? Parcelo, se quiser…

— Hmmmm, deixa eu ver… — disse a mulher, com o dedo indicador na boca; — No cartão! Parcelado.

Sobreveio-lhe um remorso profundo e imediato. A mão soltava o cartão de crédito, mas uma outra parte dentro dela lhe soprava que era demais, e perguntava se ela realmente precisava comprar aquilo tudo. Mais meio segundo de vacilação, e outra voz interna, mais firme, resoluta, sussurrou-lhe de algum lugar desconhecido, enchendo-a de brios, dizendo para que parasse de tolices e tratasse de aproveitar a vida.

Venceu o clamor hedonista, no breve duelo mental.

Digitou a senha, e não foi pequena sua agonia enquanto a maquininha processava a operação. E se não passasse? No mesmo instante, o homem enchia as sacolas de quinquilharias, pensando, aliviado, que valera a pena aguentar, que agora ele poderia sair para o almoço mais tranquilo, e que a conta de luz e o IPTU estavam garantidos.

Maria Lúcia deixou o estabelecimento carregando duas grandes bolsas com a estampa da loja. Conferiu na tela do celular: já dava onze e meia. O asfalto fervia; o calor aumentara muito, açoitando a cidade, impiedosamente. A pobre mulher sentia-se mal, pesadamente culpada. Pleiteava inocência no tribunal da consciência, argumentava de si para si, reafirmando sem parar: “eu mereço me presentear um pouco de vez em quando”; e para enxotar estes pensamentos, inconvenientes e repetidos, focou na bagunça que avistou no lado oposto da rua, onde se aglomerava um grupo de pessoas diante da entrada do Hotel Sibara. Aproximou-se, vivamente curiosa. Voltou a se sentir alegre. Havia muitas mulheres no local, esperavam por algo; olhavam para cima, para as janelas do prédio; suspenderam a euforia quando chegou este ou aquele carro, uma van de vidros esfumaçados; e durante todo o tempo o entusiasmo acumulado em seus corações lhes fez vibrar os nervos só de pensar nos dois cantores que as olhariam. Maria Lúcia logo soube do que se tratava; imaginou conjuntamente: Victor se inclinando; Léo acenando; e tocou-lhe fundo o vislumbre da vida extraordinária que Deus concede aos astros da música; as fãs enlouquecidas, as aparições na tevê, a fortuna, o luxo, as viagens de jatinho.

Como seria ter um deles como amante?

Devaneava profundamente quando viu, na entrada de um restaurante à quilo, garçons varrendo o chão, desempilhando cadeiras, passando pano sobre as mesas. Percebeu, então, que tinha fome.

Outra visão, no entanto, desviou novamente sua atenção. Ao longe, no final da quadra, quase na esquina seguinte, numa casa lotérica, havia uma grande faixa:

“MEGA SENA ACUMULADA. TRINTA E CINCO MILHÕES. SORTEIO HOJE!”

Seria uma boa, hein?

Mas antes do sonho, havia a vida, comer alguma coisa, pôr crédito no celular.

Maria Lúcia não sabia explicar, mas agora estava muito nervosa, sentindo uma estranha má vontade. Atrás da cabeça, na nuca, uma forte pontada, metálica, latejante, começava a lhe aguilhoar. Seria melhor almoçar mesmo, talvez fosse a fome a razão do mal-estar. Sim, sim, com certeza era a fome! Bastaria uma saladinha, um frango grelhado, uma batata-doce… para que tudo aquilo passasse.

Entrou na primeira lanchonete que viu pela frente, uma casinha pequena, pintada de vermelho. Deitou as sacolas numa cadeira, correu até o balcão. Duas atendentes, de avental e touca, conversavam sem parar. Nem olharam para ela. Falavam alto, sobre homens e novelas; suas vozes estridentes quase abafavam o som do rádio e dos ventiladores de parede, ouvia-se bem, contudo, uma canção da Anitta, que infestava o lugar. A letra dizia algo sobre dominação, sobre mulher poderosa. Numa estufa de vidro dormiam doces e salgados. Uma mosca rodeava um porta-canudos sobre a bancada de granito preto.

— Do que são estes pasteis assados? — perguntou Maria Lúcia.

Uma das moças respondeu, sem ocultar a irritação por ter o raciocínio interrompido:

— Está escrito nas plaquinhas…

— Ah tá…. — disse a mulher, percorrendo a estufa com o olhar; — Me vê então um de frango com palmito!

— Pra comer aqui ou pra levar?

— Como?

— Pra comer A- QUI ou pra levar? — repetiu, rabugenta.

— Aqui, vou comer aqui.

Usando um pegador de inox, a atendente jogou o salgado sobre um prato descartável e disse, desta vez mais brandamente:

— Três e cinquenta. Vai tomar alguma coisa?

— Uma coca-cola. Não, não, não… É… Um suco light. Tem de pêssego?

— Sim, de latinha.

— Pode ser.

A moça virou as costas, abriu uma geladeira de porta envidraçada e agarrou a latinha de suco:

— Sete reais. Mais alguma coisa?

— Não. Só isso mesmo…

Maria Lúcia pensou em se assentar, mas olhou de novo para os salgados na estufa:

— Vê mais um pastel. Pode ser este aqui de carne com cheddar. — iterou, apontando o indicador para uma massa gordurosa e murcha, em formato de meia-lua.

Sem nenhuma alegria no olhar, a atendente repetiu a operação do pegador de inox e do pratinho de papel. Seria só isso?

Agora sim. Maria Lúcia pagou, guardou o troco, apanhou o lanche, a latinha e um canudo; e sentou-se na mesinha de canto, aonde deixara as compras. A lanchonete rescendia à fritura; dois ou três clientes comiam em silêncio; as atendentes retomaram a conversa: faziam a caveira do patrão, descascavam as funcionárias que estavam de folga, especulavam quem seria mandada embora se permanecesse aquele movimento.

Os pasteis foram atacados em poucos segundos. Maria Lúcia penava para controlar a ansiedade, e a cada mordida tentava contar as mastigadas, do jeito que a nutricionista lhe ensinou: “oito, nove, dez…”. Pouco adiantava; com a cabeça à mil, ela logo se perdia na conta, e engolia de uma vez, sem nem sentir direito o gosto da comida. Não foram necessários sequer cinco minutos para que os salgados se tornassem história, e se transformassem em parte da sua massa corporal.

Houve um momentâneo alívio, a dor de cabeça foi embora.

Tudo voltou, porém, quando Maria Lúcia saiu da lanchonete e entreviu o próprio reflexo no vidro de um carro estacionado. Veio um turbilhão de pensamentos, voltar para a academia, correr na praia, começar, agora de verdade!, a fazer dieta.

Continuou caminhando assim por mais alguns minutos, com o cérebro em disparada, sem fixar as idéias. O calor estava insuportável e as dores na nuca incomodavam como nunca. Avistou o bondinho, chegando lentamente. Acenava para o motorista quando viu uma confeitaria; e desistiu, abaixando a mão.

Ainda tinha fome.

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