Amigo Verdadeiro
Ontem (5), no segundo dia de provas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), o vestibular trouxe duas das assombrações de todo o estudante que se preze: redação e português.
A surpresa ficou por conta do tema da redação nesse ano: “O que é amizade verdadeira?” Ao final das quatro horas e meia de provas, corria a boca pequena que tratava-se de um tema fácil. Pra dissertar? Talvez. Mas e se nos perguntarmos o que é uma amizade verdadeira?! O que é, afinal? Tema dificílimo, a começar pelo conceito verdade-mentira. Aliás, a nobreza da palavra amizade impede o casamento com o antônimo da verdade.
Amizade é a condecoração ao próximo. É a honra ao mérito numa relação entre duas pessoas perfeitamente definida no clichê (de autor desconhecido) de que amigo é o irmão que escolhemos com o coração. Como toda distinção de cargo, tem sua parcela subjetiva no momento da progressão, que parte do verbo escolher e passa pelo sexo, o sangue, o time, a bandeira, a religião, o partido, uma atitude, um gesto, um abraço, uma homenagem, uma conversa, um empréstimo, um segredo, o destino, o tempo, o dinheiro… São variáveis que se proliferam de acordo com um critério fundamental, heterogêneo e intransferível: o pessoal.
Associar a amizade a afinidade? Talvez. Somos íntimos de familiares e nem por isso somos amigos; Irmãos? Deixo pra o Filtro Solar, na voz de Pedro Bial e a passagem desenhada e não menos pertinente, “seja legal com seus irmãos, eles serão sua ponte para o passado e quem sempre vai te apoiar no futuro”; Amizade de infância? Soa como Balão Mágico, cai naquele esquecimento nostálgico e necessariamente carinhoso, mas não é a música ficha UM do playlist; amizade entre homem x mullher: raros os que não sucumbem a DOIS DEDOS de intimidade, uma pitada de admiração, doses cavalares de carência e álcool À GOSTO; gurizada do futebol? Esfria na primeira pré-temporada; Colégio, vizinhança, rua, quartel, faculdade, todos equivalentes; amizade-balada? Filtrada na seleção-natural do mundo adulto e os respectivos compromissos; amizade profissional é utopia; Zodíaco, astrologia, esoterismo? Não, né?!
Vivemos um tempo em que todos esses ingredientes misturam-se definidos por botões como Adicionar aos Amigos/Seguir, dando um ar superficial às relações. O contato físico, o aperto de mão, o abraço e o afago estão cada vez mais indecifráveis em meio a tantos caracteres e emoticons que mascaram, amenizam, reproduzem, mas não substituem a matéria.
Uma pequena reflexão é suficiente pra nos darmos conta de que não trata-se de uma fórmula exata, tampouco mágica, e sim, um laço com contornos ACIMENTADOS, distante e impotente às rédeas humanas. Aquela coisa bem Milton Nascimento e a Canção da América, em que somos alertados que amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves, ou do lado esquerdo do peito, justamente por não os encontrarmos dobrando a esquina ou no primeiro chat.
Agradeço por ter os meus com a certeza que entreguei minhas medalhas, da mesma forma que eles sabem quem os são. Independente do número, nome, endereço e grau, deixo minha lembrança e, de certa forma, homenagem.
Os meus amigos verdadeiros?! Deixa que conto pessoalmente em carne, osso (e trempe), seguido de um aperto de mão, um abraço SINCHADO e um beijo buchechado.
#TamoJunto
Diogo de Souza
“Eu não sou de me exibir, eu sou de Uruguaiana”
