Um legado chamado amizade

Era julho de 2008. Estávamos em uma peladinha de meio de semana num campo-7, no interior de Uruguaiana-RS. Noite fronteiriça de inverno e, dentro do campo, perdíamos por sonoros 0 x 5 com pouco mais de 20 minutos de jogo. Logo depois do sexto gol, o pivô do nosso time, o Luis Pablo, desabou no gramado sintético do Pica Sports Center.

Levanta, Che! ‘Tamo’ tomando uma roda dos caras e tu tá te arrastando aí na frente!, esbravejei num berro de área-a-área.

Luis Pablo fora meu contemporâneo na época de colégio. Em meio às voltas do Planeta Terra, eram, pelo menos, 15 anos desde o dia em que apertamos a mão como amiguinhos na pré-escola. (con)Vivemos. Cabelo ralo, loiro e olhos azuis, ganhou corpo, altura e o carinhoso codinome Alemão. Alemão era cobiçado. Tirou o sono de milhares de corações, das mais peculiares gerações com um estilo à lá Galã de Parque. Ainda sim, era um Galã. Em 19 anos, somou um cartel de mulheres que, tenho certeza, independente de qualquer meta de vida, jamais chegarei perto. Gremista fanático, abria mão dos mais variados compromissos em nome do Tricolor num sábado de Esportivo x Grêmio pelo Campeonato Gaúcho. Com um carisma infinito, mais que o sexo feminino, contagiava e cativava às pessoas ao seu redor.

Essa necessidade de torcer loucamente pelo time do coração; de ‘pega as loca’, marcar um encontro das 15h às 16h duma quinta-feira e contar vitória sexual; eu descobri, anos mais tarde, que era nada mais que a necessidade de viver. O Alemão sempre foi muito precoce. Nascido em meio à Semana Farroupilha, era o clássico porra-louca. Com 12 anos já comprava o Passaporte Farroupilha onde fazia questão de garantir um domingo-a-domingo no tradicional Grêmio Luiz Quemedo.

Luis Pablo tinha personalidade muito forte, mas havia uma coisa que o deixava possesso: trocar o zê pelo ésse no primeiro nome.

- Teu nome é com zê, né Alemão?!

- Zê a tua mãe, fdp!

Trocando em miúdos, era emburrado. Uma vez ele ficou uma semana sem falar comigo devido a um pedido dele que neguei. Queria a senha do meu MSN.

- Valeu, Abigo (y); me resumiu no saudoso chat antes de cortar qualquer tipo de comunicação.

Sobre aquela peladinha lá no Pica Sports Center, não terminamos. Sua exaustão física o tirou do jogo e o levou, inclusive, ao Pronto-Socorro. Não mais que seis meses depois, diante de diversos sintomas, foi diagnosticado com uma doença rara. Aquela gélida noite, inclusive, foi a última vez que jogamos futebol juntos. Depois de muitas tabelas, passes, gols, muitas vitórias, a pior das derrotas: em maio de 2009 Luis Pablo faleceu a partir de um quadro que, confesso, até hoje desconheço.

Parafraseando uma das melhores crônicas de Paulo Sant’Ana nessa semana da sua partida, mas mais que amigo, o Luis Pablo deixou um legado. Ele ensinou a reconhecer a verdadeira amizade.

Diogo de Souza

“Eu não sou de me exibir, eu sou de Uruguaiana”