Brasil, uma pátria educadora?

A educação brasileira é marcada pela falta de investimento, infraestrutura, qualidade e organização. Porém, mesmo com todos os seus males, talvez o pior dos problemas não esteja na educação em si, mas sim, na falta de acesso a ela, por mais precária que seja.

Estima-se que atualmente no Brasil 3,8 milhões de adolescentes entre quatro e dezessete anos estejam fora das salas de aula. Isso, sem contar a quantidade incalculável de pessoas que querem e deveriam estar nas universidades, mas não estão por falta de vagas nas universidades públicas e falta de condições para pagar por faculdades privadas.

Durante anos na nossa história, houve aqueles que a todo o custo tentaram mudar essa situação, podemos citar alguns nomes como Paulo Freire, ou as ligas contra o analfabetismo por exemplo. Porém, esses esbarraram de frente com interesses próprios, políticos e até mesmo, por incrível que pareça, falta de vontade para reverter esse quadro. Com isso, até hoje essa situação persiste, a exclusão social é uma realidade na educação do Brasil e ajuda a decompor, no sentido literal da palavra, a já deteriorada educação brasileira.

Desde os primórdios da república brasileira temos a educação de qualidade quase como artigo de luxo. Tínhamos a grade maioria da população analfabeta, aqueles que podiam pagar enviavam seus filhos para estudarem nas grandes escolas e universidades da Europa, entretanto, a grande população brasileira formada em maioria de negros descendentes de escravos moradores das regiões rurais tinha isso como o mais distante e irreal sonho.

A constituição de 1889 não faz se quer nenhuma menção ao direito à educação no país ou ao dever do estado de proporciona-la a população. Porém, a mesma constituição exigia que um cidadão pleno soubesse ler e escrever. Ou seja, segundo essa constituição a grande maioria dos brasileiros não foram considerados cidadãos plenos.

Pode-se dizer que o primeiro movimento pró-alfabetização no país foram as ligas contra o analfabetismo liderados por grandes intelectuais. Esses movimentos trouxeram grades avanços na educação como a criação da Associação Brasileira de Educação e a tentativa de criação de uma universidade pública. Porém, nenhum desses projetos vingou, pois para os políticos da república velha, construída em cima do coronelismo e do voto de cabresto, não interessava a alfabetização da população, pois eles garantiam suas reeleições em cima da opressão e da ignorância de seus eleitores.

Isso fica nítido se levarmos em consideração o fato de o ministério da educação no Brasil só ter sido criado 41 anos depois da proclamação da república, durante o governo provisório após a revolução de 30.

Muitos outros movimentos a favor da alfabetização e do acesso à educação para todos foram criados por todo o Brasil depois disso, porém, nenhum deles conseguiu cumprir seus objetivos. Grande parte da população permanecia excluída do da educação, pois em grande parte, esses projetos se desenvolviam em áreas urbanas enquanto a população mais carente de educação permanecia nas áreas rurais do país.

Durante o Estado Novo na década de 40 as Indústrias chegaram ao Brasil, com isso a população rural migrou para as cidades em busca de novas condições de vida. Mesmo o tendo como marca fortes traços de autoritarismo o Estado Novo, paradoxalmente, modernizou e dinamizou a educação pública brasileira. Com isso, tínhamos o que poderia ser considerado uma receita perfeita: Maioria da população nas cidades + ensino público moderno = acesso à educação para todos e todos alfabetizados.

Porém não foi assim que aconteceu, a mancha do analfabetismo continuou assolando o país. Vivendo nas cidades as pessoas tinham a possibilidade de estudar, porém, não tinham a oportunidade. Era preciso trabalhar para se sustentar, e a frase “Lugar de criança é na escola” na época era considerada uma utopia, pois grande parte dos operários era composta de crianças e adolescentes que trabalhavam junto de seus pais.

Somente da década de 90 se conseguiu uma quantidade minimamente aceitável de crianças na escola e um índice tolerável de analfabetos no Brasil (O fato de ser tolerável para o governo não quer dizer que não seja um número alto, já nos dias atuais, estima-se que cerca de 13 milhões de brasileiros ainda sejam analfabetos, isso sem contar os analfabetos funcionais). Porém, mesmo com esse resultado “otimista” a educação do Brasil começou a enfrentar outros problemas como desvalorização dos profissionais da educação, baixo investimento na estrutura escolar e altos índices de evasão nas escolas.

Muito tem se falado atualmente de acesso a educação superior no Brasil, o SISU e o Prouni são exibidos com orgulho pelo governo e servindo de base para esses programas de acesso temos o ENEM tido como a maior ferramenta de democracia na educação brasileira, tendo como função selecionar de maneira “justa” aqueles que aprenderam os conteúdos do ensino médio e coloca-los nas universidades.

Porém, pare e reflita por somente por um minuto e responda a seguinte questão: será mesmo que um estudante que teve somente o ensino médio público como base para o ENEM tem condições reais de passar para uma universidade publica nos dias atuais?

Não, não tem condições. Isso acontece porque o ENEM é nada mais nada menos que uma ferramenta de segregação e exclusão social para a educação pública. As universidades públicas não são populares. Veja bem, existe uma diferença enorme entre público e popular. O público é aquilo que é dado pelo estado, Já o popular é aquilo que está ao alcance de todos.

A universidade pública não é popular, a grande maioria não tem acesso a ela. Na verdade, hoje quem mais tem acesso à universidade pública são aqueles que durante toda a vida estudaram em escolas particulares que lhes capacitaram o suficiente para que passem pelo ENEM onde competiram, injustamente, com estudantes de escolas públicas.

Por isso a cada dia que se passa cresce o número de procura por cursinhos preparatórios. Estranho esse nome né? “Cursinhos preparatórios” para o que eles preparam? Para o ENEM e para concursos públicos. Mas essa não era a função das escolas? Para estudantes de escolas públicas que sonham com ensino superior, não lhes restam outra opção a não ser pagar esses “cursinhos” ou esforçar para pagar caro uma faculdade particular.

Pode-se medir a qualidade de um país pela qualidade da sua educação, quanto mais se investe na educação de um país mais avançado este é. Talvez seja por isso, e só por isso, que o Brasil seja esse país decrepito. A educação sempre ficou em último lugar nas suas prioridades. Temos uma educação pública péssima, incapaz de ensinar um aluno a ler e escrever corretamente, uma educação segregadora que ao invés de gerar igualdade e capacidade para seus alunos os tira as já poucas chances que se tem na vida. Talvez se um dia o Brasil deixar de investir em copas do mundo e olimpíadas e investir na educação de seu povo possamos chegar ao lugar onde deveríamos estar.

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